terça-feira, abril 11, 2006

Trecho do Artigo do jornalista Olavo de Carvalho no site Midia Sem Mascara

MEIOS E FINS
Uma ideologia revolucionária não é uma teoria sobre a realidade, muito menos um plano de ação. É um enredo ficcional, uma história imaginária da qual o adepto, militante ou crente tenta acreditar que está participando, e cuja unidade aparente dá um simulacro de coerência e de sentido à sua vida dispersa e fragmentária.
Toda ideologia revolucionária identifica o bem com o futuro, com um vago estado de plenitude a ser atingido em data incerta por meios não muito bem esclarecidos. A indefinição nebulosa da imagem visada não perturba em nada a consciência do crente. Ao contrário, é essencial à eficácia persuasiva do discurso ideológico. Se o futuro que se busca fosse objeto de definição racional e descrição meticulosa, se tornaria imediatamente alvo de discussão, perdendo o prestígio do mistério, fonte da sua autoridade sacral.
O objetivo permanece indefinido não somente quanto à sua consistência, mas também, é claro, quanto à sua data. Mas não se trata apenas da natural incerteza do futuro. É antes uma incerteza dupla e retroativa. Quando, por exemplo, se instaura um regime socialista na Rússia ou em Cuba, toda a militância universal proclama o advento vitorioso do socialismo. Mas, como esses regimes só podem subsistir na base da violência e do crime e isso pega muito mal, é preciso proclamar também que esse vexame só acontece porque ainda não se trata de verdadeiros regimes socialistas. Deste modo, a chegada do socialismo não somente é incerta no futuro, como também no passado. Não sabemos quando ele chegará, mas, quando chega, também não podemos saber se chegou.
Por essas razões é que, quando o sr. Luís Inácio confessa a seus companheiros do Foro de São Paulo: "Não sabemos como é o socialismo que buscamos", ninguém dentre eles o chama de irresponsável por convocá-los a uma viagem com destino ignorado. O indefinido não pode ser contestado, e atrai ainda sobre o portador da mensagem uma aura encantadora de modéstia e realismo. O guia é confiável precisamente porque não sabe para onde leva a caravana e porque nem mesmo pretende ter a menor idéia a respeito.
A indefinição dos fins não espalha entre os fiéis nenhuma insegurança porque lhe corresponde, em oposição dialética, a organização estrita dos meios e a disciplina rígida do corpo de agentes. Quanto menos a militância sabe para onde vai, mais se apega à certeza presente das tarefas e da solidariedade grupal. Todos se dedicam com maior intensidade quanto menos sabem a que raio de coisa estão afinal se dedicando. Tão frágil é o equilíbrio entre esses extremos, que qualquer intromissão da realidade externa, qualquer adversidade, por mais passageira e fátua que seja, desperta imediatamente o pânico, o horror, a revolta paroxística contra a abolição do sentido do enredo. Nenhuma exclamação, nenhuma hipérbole, nenhuma fantasia paranóica, nenhuma calúnia aberrante deve então ser poupada no esforço de exorcizar o perigo. A segurança psicológica da comunidade é tudo. Em sua defesa, qualquer coisa que se diga contra o atacante é válida. Como a raiz da segurança consiste em continuar acreditando no enredo, a mentira empregada para restaurá-la vale como símbolo da "verdade". É por isso que o esquerdista "mente em prol da verdade": quanto mais cabeluda a mentira, maior a prova de fidelidade na defesa do enredo. Daí o sentimento de personificar a verdade em pleno paroxismo da mentira.

CONTRA A UNIVERSIDADE
Obviamente um dos fatores que mais contribuem para idiotizar as pessoas a esse ponto é a formação universitária que recebem. No Brasil, isso chega a uma perfeição raramente igualada. Com trinta anos de experiência na direção de grupos de estudo de filosofia, com incursões ocasionais em instituições universitárias onde meus alunos não encontraram a educação que desejavam e de onde por isso mesmo saíram e vieram parar nos meus cursos, posso lhes assegurar que a universidade brasileira na sua quase totalidade é hoje uma entidade inútil e lesiva ao interesse público, dedicada à pseudocultura, à propaganda política e à exploração da boa fé popular. A diferença entre escola privada e pública, desse ponto de vista, é irrisória. Consiste apenas em que a primeira é paga em mensalidades por aqueles que a freqüentam, a segunda em impostos pela multidão dos trabalhadores que não podem freqüentá-la. Nenhuma delas presta serviço digno de ser pago, mas uma explora a sua própria clientela, a outra o restante da população. Se algumas pessoas ainda acreditam que esta última hipótese é a menos indecente das duas, isso só se explica pelo coeficiente de estupidez que adquiriram no curso da sua própria formação universitária.
A honrosa folha de realizações de umas poucas escolas técnicas e científicas, especialmente militares, nada prova contra o que estou dizendo. Exatamente ao inverso: a desproporção entre essas ilhotas de sinceridade e o mar de fingimento que as cerca é tanta, que o sucesso da parte só torna ainda mais deprimente o fracasso do todo.
Alguns de meus alunos, reconhecendo esse estado de coisas, não ousam porém admitir que tudo está perdido. Acreditam que vale a pena submeter-se ao massacre das suas inteligências durante alguns anos em troca de um emprego universitário que lhes permitirá, mais tarde, atuar dentro do próprio ventre do monstro e tentar reconduzi-lo a um comportamento decente. Assim, depois de alguns anos nos meus cursos, onde aprendem o que ninguém lhes ensinou nas instituições universitárias, voltam a alguma faculdade na esperança de que a educação que adquiriram comigo lhes dará forças para sair ilesos da freqüentação diuturna desses templos da estupidez, ao ponto de um dia poderem lutar aí dentro por um ensino autêntico e um Brasil melhor. Estão iludidos. Nem eu mesmo sobreviveria a essa experiência. Entrar numa dessas instituições com o intuito de transformá-la numa universidade genuína é o mesmo que entrar numa jaula de leões na esperança de convertê-los ao vegetarianismo.
A universidade brasileira não pode ser melhorada. Ela deve ser abandonada, desprezada, esquecida. A quase totalidade da produção intelectual mais alta neste país já vem de fora dessa instituição presunçosa, dispendiosa e inútil. Em filosofia isso é ainda mais visível do que em outros ramos da atividade intelectual. Mário Ferreira dos Santos, Vicente Ferreira da Silva, Vilém Flusser e o próprio Miguel Reale, malgrado seu cargo na Faculdade de Direito, jamais foram aceitos pelo establishment acadêmico que, ao mesmo tempo, admitia sua impotência de criar um só filósofo que fosse. Mas nos estudos literários é a mesma coisa. A crítica literária brasileira definhou, secou e morreu sem deixar herdeiros a partir do instante em que a presunção universitária houve por bem apropriar-se dela, gabando-se de substituir o império da ciência ao reino do "amadorismo".
Nas ciências sociais, a marginalização de talentos fulgurantes como Gilberto Freyre, Oliveira Vianna e Guerreiro Ramos já basta para mostrar que a universidade brasileira já fez há tempos a opção preferencial pelos medíocres e lesados, que por força da sua própria inépcia cedem mais facilmente à chantagem dos superiores e à gritaria da massa militante.
Está na hora de fazer com que a independência da vida do espírito em relação ao estamento burocrático universitário, já longamente praticada entre nós, seja assumida publicamente, ostentada como um orgulho e legitimada como um direito fundamental, do qual depende a própria sobrevivência da cultura brasileira.
INOCÊNCIA
A sra. Heloísa Helena anda dizendo que não tem nada a ver com o sr. Achille Lollo, que mal conhece o cidadão, que só teve contato com ele uma vez na vida, numa entrevista. Que gracinha. Ela é tão inocente que nem lê os jornais do seu próprio partido, onde o terrorista italiano, membro do grupo Praxis, brilha como uma das glórias intelectuais da organização. Dona Heloísa detesta o Lula, mas aprendeu bem depressa o refrão dele: "Eu não sabia de nada."

Artigo Publicado no JOrnal Diário do Comércio em 10.04.2006

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