28/09/2006
Dilema democrático
Comento hoje com um salutar atraso o escândalo do dossiê. Meus piores temores se materializaram. Por não termos sido intransigentes com a ética lá atrás, metemo-nos agora numa bela enrascada. Em princípio, há elementos de sobra para instaurar processos eleitoral e por crime de responsabilidade contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, ao que tudo indica, dentro de três dias ele será mais uma vez sagrado primeiro mandatário com mais de 60 milhões de votos. Qualquer ação para impedi-lo de exercer um segundo governo terá acintoso caráter antipopular e poderá ser interpretada como um golpe contra a democracia. De modo análogo, fingir que nada ocorreu e que regras fundamentais do jogo republicano não foram quebradas por Lula ou pelo grupo que o cerca também conspira contra o caráter democrático das instituições.
Sinceramente, já nem sei qual atitude seria a menos pior agora. No mundo do dever-ser, a solução se afigura mais fácil. Assim como Fernando Collor de Mello foi legalmente afastado em 1992, deveríamos ter instaurado um processo semelhante contra Fernando Henrique Cardoso em 1997, quando surgiram evidências insofismáveis de que parlamentares foram subornados para votar a emenda constitucional que permitiu a reeleição de presidente, governadores e prefeitos. E a mesma trilha deveria ter sido percorrida no ano passado, assim que ficou patente que a atual administração mantinha um esquema quase institucionalizado de compra de deputados. Só que nada disso aconteceu e provavelmente nada ocorrerá.
É claro que o impeachment é um processo traumático e não isento de riscos. Mas os prejuízos de nossa leniência são incomensuravelmente maiores. Entre mensalões e sanguessugas, estamos com algo como 15% de nossos deputados envolvidos com graves falcatruas --sem mencionar que a maior parte da primeira leva de "julgados" em plenário foi absolvida. Mais do que isso, toleramos um governo que confunde Estado com partido e não cessa de aprontar crimes que, embora não firam de morte, maculam consideravelmente nossa jovem democracia.
O que me assusta no PT já não é o total oblívio do discurso ético que até pouco tempo atrás o diferenciava dos demais partidos --e no qual eu e tantos outros inadvertidamente acreditamos--, mas a incompetência com que se lança em operações fraudulentas e canalhas. Acho que foi o próprio Lula quem disse que o setor de inteligência (sic) da campanha petista havia colocado em risco uma eleição garantida (a dele) para tentar ganhar uma perdida (a de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo). Se tamanha incapacidade se reproduz nas esferas administrativas, o país está perdendo rios de dinheiro com erros operacionais.
Escolado pelos últimos acontecimentos, não duvido de que tucanos de alta plumagem tenham participado de esquemas corruptos, como sugere o noticiário sobre o dossiê. O caso Azeredo está aí para provar que o PT não inventou nada nessa matéria. Vou até um pouco mais longe e admito que não há crime nem --vá lá-- problema moral em pagar alguém para dizer a verdade. Ainda assim resta a questão da origem dos quase R$ 2 milhões que seriam utilizados para adquirir o pacote dossiê-entrevista. A relutância das autoridades em revelar de onde vem o dinheiro sugere a um só tempo que a Polícia Federal é menos republicana do que se apregoa e que o PT, por seguir empregando os famosos recursos não-contabilizados, não é nem mesmo capaz de aprender com seus próprios erros. De qualquer forma, concordo com a avaliação de que a imprensa deu menos espaço do que deveria à apuração das verdades antitucanas que o papelório possa conter.
Sei que alguns vão me criticar por ter afirmado que deveríamos ter deposto três de nossos últimos quatro presidentes. O impeachment, muitos afirmam, é algo para ser usado uma vez a cada século. Não sei de onde tiraram esse mantra, mas discordo. A sanção política prevista para o crime de responsabilidade do presidente da República deve ser aplicada tantas vezes quantas se faça necessário. Se três de nossos quatro últimos mandatários pisaram na bola, a culpa é deles. Se Collor, FHC e Lula prevaricaram, por ação, omissão ou uma mistura de ambos, não deveriam existir razões para que não fossem afastados. No mundo real, entretanto, o impeachment só se materializa se o governo estiver muito mal avaliado pela população, o que modernamente tem ocorrido muito mais por conta do desempenho da economia global do que por causa de políticas ou decisões da administração.
Uma possível solução para esse problema seria a substituição do presidencialismo pelo parlamentarismo. Umas das principais vantagens deste último é que ele responde bem a situações de crise, pois a troca de gabinete pode ocorrer a qualquer tempo sem traumas maiores. Esse, entretanto, é apenas um lado da questão. Quem, tendo acompanhado o noticiário político-policial dos últimos meses, daria de bom grado mais poderes para o Parlamento?
Como já insisti em várias colunas sobre a reforma política, nosso desafio é fazer as instituições que temos funcionarem, não sonhar com um modelo perfeito que estaria ao alcance da caneta dos legisladores. Todos os sistemas têm pontos positivos e negativos e todos permitem em princípio que se alcance um nível respeitável de fazer política, desde que nos empenhemos seriamente nisso. Não tem sido, infelizmente, o caso.
É aqui que, a meu ver, nossa situação se torna mais sombria. O dilema que hoje enfrentamos em relação ao governo Lula é o corolário de nossos seguidos lapsos de indulgência ética. A contraposição das intenções de voto captadas nas pesquisas com os índices de conhecimento dos escândalos (que são relativamente elevados) indica que boa parte da população comprou o argumento do ator Paulo Betti, segundo o qual não se faz política sem pôr as mãos naquilo que os antigos romanos chamavam de "faeces". Em algum sentido, isso é mesmo verdade. Mas daí não se segue que tudo deva ser tolerado e desculpado. Muito pelo contrário, para que o grau de corrupção na política se torne o menor possível, é preciso punir cada desvio que seja detectado. Aparentemente, é o que desistimos de fazer.
O pior de tudo nessa história é que desde 2003 já não dispomos de um PT para denunciar os crimes do rei.
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quarta-feira, novembro 01, 2006
Hélio Schwartsman
05/10/2006
O abacaxi e o chuchu
Lula conseguiu o que se afigurava mais difícil: deixou escapar entre os dedos a vitória no primeiro turno. Tendo obtido 48,61% dos quase 96 milhões de votos válidos, o presidente ficou a 1,3 milhão de sufrágios do necessário para liquidar o pleito no domingo passado. Ele até pode tentar falar em golpe, armação e complô das elites, mas o fato é que devem ser atribuídos ao PT e ao próprio Lula os erros que levaram a eleição ao segundo escrutínio.
Com efeito, o presidente liderava a disputa com boa folga até mais ou menos 15 dias antes do pleito, quando um grupo de petistas foi apanhado tentando negociar com notórios estelionatários um dossiê com acusações contra tucanos. De lá para cá, só se seguiram más notícias para o PT.
Entre os envolvidos, havia gente próxima ao presidente da República.
Ricardo Berzoini, presidente do PT e coordenador da campanha presidencial, teve de ser afastado. Fotos da dinheirama vazaram para a imprensa na antevéspera da jornada eleitoral. (As comparações com as imagens dos seqüestradores de Abílio Diniz vestindo camisetas do PT em 1989 não procedem; aquilo foi uma armação para prejudicar a candidatura Lula, pois os seqüestradores foram obrigados a colocar as camisetas antes de ser fotografados. Agora não, o dinheiro foi realmente encontrado com petistas).
Para tornar tudo um pouco pior, pegou bastante mal o fato de Lula ter-se recusado a participar do último debate presidencial. Tudo isso somado fez com que o presidente não amealhasse os votos necessários para uma vitória antecipada.
Sua situação agora se complica. Lula dá início à segunda etapa da campanha com um sabor de derrota na boca. Já seu adversário, Geraldo Alckmin, desponta como vitorioso, ainda que sua passagem para o segundo turno seja mérito do PT. A próxima bateria de pesquisas eleitorais já deverá colocá-los numa situação de quase empate.
Apesar disso tudo, ainda considero Lula o favorito. Para que ele vença, entretanto, será necessário que o partido e os principais colaboradores do presidente se abstenham de mais uma vez meter os pés pelas mãos, o que está se tornando uma especialidade petista. Decididamente, trata-se de um partido dialético, que já traz em si sua própria oposição.
Voltando a Lula, em princípio ele não teria grande dificuldade para colher entre os quase 10 milhões de eleitores de candidatos menores o 1,3 milhão de votos de que necessita para alcançar a maioria das preferências. Precisa também, evidentemente, conservar os votos que já teve. Aqui podem surgir obstáculos às suas pretensões. Ao que tudo indica, São Paulo e outros Estados do eixo Sul-Sudeste-Centro-Oeste atravessaram uma onda tucana nas 48 horas que antecederam o pleito.
Um bom indicativo dessa hipótese é o fato de Eduardo Suplicy, que, nas pesquisas reinava absoluto nas intenções de voto para o Senado na cadeira paulista, ter vencido por uma diferença muito menor do que a inicialmente estimada. Lula precisa torcer para que esse movimento não se aprofunde nem se espalhe.
Outra fonte potencial de dificuldades são as investigações sobre a origem do dinheiro que compraria o dossiê. A PF já enrolou o quanto pôde na divulgação dos sacadores. Mais cedo ou mais tarde terá de revelar seus nomes, que poderão trazer novos dissabores à candidatura oficial.
O presidente conta, a seu favor, com o fato de já ter suportado denúncias bem mais graves. Muitos analistas estão dizendo que o tempo agora atua contra Lula. Não ousaria desmenti-los, mas não excluo a possibilidade de os mesmos anticorpos que protegeram o presidente de tantos e tamanhos escândalos voltem a atuar, fagocitando as novas acusações. Na hipótese de o "dossiegate" esfriar, não há em princípio razão para que Lula não reconquiste o terreno perdido, da mesma forma que se recuperou da crise provocada pelo mensalão.
A situação de Alckmin, que hoje parece muito boa, não necessariamente continuará assim. Em termos de produto, ele é bem menos carismático que o adversário _e não há nada que se possa fazer a respeito. O presidenciável tucano também poderá sofrer "fogo amigo". Digamos, para ser simpáticos, que algumas das principais lideranças tucanas sentem-se ambivalentes em relação a Alckmin. José Serra e Aécio Neves, que têm a força de governadores eleitos, em primeiro turno, dos dois Estados mais ricos da Federação, não ficariam exatamente decepcionados com uma derrota do companheiro de plumas. Na verdade, seria bem melhor para suas pretensões em 2010 ver Alckmin definitivamente escanteado.
A maior barreira para o projeto alckmista, entretanto, ainda é a eleitoral. Seu desempenho no Nordeste, que reúne 27% do eleitorado, é pífio e, ao que tudo indica, continuará assim. Por lá não passou nem sombra de onda tucana. Muito pelo contrário, as surpresas que houve foram favoráveis ao PT, como a eleição, em primeiro escrutínio, de Jaques Wagner para o governo da Bahia.
Conferir o mapa da votação de Lula e de Alckmin é um interessante exercício sociológico. Acho que a divisão entre ricos e pobres, sulistas (Sul e Sudeste) e nortistas (Nordeste e Norte), instruídos e nem tanto jamais foi tão evidente.
Seria tentador atribuir a forte votação no petista, mesmo após tantos escândalos, à ignorância e à desinformação de seu eleitor. Mas tal análise não resiste aos fatos. Prova-o a constatação de que parlamentares envolvidos nas denúncias terem sido exemplarmente punidos nas urnas: 91% dos 67 deputados sanguessugas perderam os seus mandatos ou por não ter conseguido se reeleger, caso 43, ou por nem ter tentado, como se deu com 18 deles. Apenas seis obtiveram um novo mandato. E, dos três senadores metidos no escândalo, apenas um, Ney Suassuna (PMDB-PB), enfrentou a reeleição. E fracassou miseravelmente, mesmo tendo disputado no que se considera um dos grotões do país.
Sorte semelhante experimentou o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti (PP-PE), que havia renunciado ao mandato para fugir do processo de cassação depois de ter sido apanhado num caso de extorsão. Severino não volta à Casa como havia planejado.
Com os mensaleiros, porém, o eleitor foi um pouco mais condescendente. Dos 11 que acabaram absolvidos pelo plenário da Câmara, cinco foram reeleitos, dois deles (João Paulo e José Mentor) por São Paulo, numa prova de que estar num dos principais pólos de riqueza e educação formal do país não significa muita coisa.
Parece-me mais adequado analisar o fenômeno Lula como uma manifestação de pragmatismo. O eleitor, ainda que talvez não com detalhes, toma ciência dos descaminhos em que se metem seus representantes. O próprio Lula, convém lembrar, inicialmente sofreu impacto negativo por conta das denúncias de corrupção. Mas o cidadão que simpatiza com o presidente aparentemente colocou na balança as suspeitas e as realizações de seu governo e optou por desconsiderar o aspecto ético. É a versão tupiniquim de os fins justificam os meios.
Resta saber se esse cálculo se manterá na nova fase da campanha ou se Geraldo Alckmin, pela sua incrível capacidade de manter-se inapelavelmente insosso, triunfará valendo-se dos erros do adversário.
O abacaxi e o chuchu
Lula conseguiu o que se afigurava mais difícil: deixou escapar entre os dedos a vitória no primeiro turno. Tendo obtido 48,61% dos quase 96 milhões de votos válidos, o presidente ficou a 1,3 milhão de sufrágios do necessário para liquidar o pleito no domingo passado. Ele até pode tentar falar em golpe, armação e complô das elites, mas o fato é que devem ser atribuídos ao PT e ao próprio Lula os erros que levaram a eleição ao segundo escrutínio.
Com efeito, o presidente liderava a disputa com boa folga até mais ou menos 15 dias antes do pleito, quando um grupo de petistas foi apanhado tentando negociar com notórios estelionatários um dossiê com acusações contra tucanos. De lá para cá, só se seguiram más notícias para o PT.
Entre os envolvidos, havia gente próxima ao presidente da República.
Ricardo Berzoini, presidente do PT e coordenador da campanha presidencial, teve de ser afastado. Fotos da dinheirama vazaram para a imprensa na antevéspera da jornada eleitoral. (As comparações com as imagens dos seqüestradores de Abílio Diniz vestindo camisetas do PT em 1989 não procedem; aquilo foi uma armação para prejudicar a candidatura Lula, pois os seqüestradores foram obrigados a colocar as camisetas antes de ser fotografados. Agora não, o dinheiro foi realmente encontrado com petistas).
Para tornar tudo um pouco pior, pegou bastante mal o fato de Lula ter-se recusado a participar do último debate presidencial. Tudo isso somado fez com que o presidente não amealhasse os votos necessários para uma vitória antecipada.
Sua situação agora se complica. Lula dá início à segunda etapa da campanha com um sabor de derrota na boca. Já seu adversário, Geraldo Alckmin, desponta como vitorioso, ainda que sua passagem para o segundo turno seja mérito do PT. A próxima bateria de pesquisas eleitorais já deverá colocá-los numa situação de quase empate.
Apesar disso tudo, ainda considero Lula o favorito. Para que ele vença, entretanto, será necessário que o partido e os principais colaboradores do presidente se abstenham de mais uma vez meter os pés pelas mãos, o que está se tornando uma especialidade petista. Decididamente, trata-se de um partido dialético, que já traz em si sua própria oposição.
Voltando a Lula, em princípio ele não teria grande dificuldade para colher entre os quase 10 milhões de eleitores de candidatos menores o 1,3 milhão de votos de que necessita para alcançar a maioria das preferências. Precisa também, evidentemente, conservar os votos que já teve. Aqui podem surgir obstáculos às suas pretensões. Ao que tudo indica, São Paulo e outros Estados do eixo Sul-Sudeste-Centro-Oeste atravessaram uma onda tucana nas 48 horas que antecederam o pleito.
Um bom indicativo dessa hipótese é o fato de Eduardo Suplicy, que, nas pesquisas reinava absoluto nas intenções de voto para o Senado na cadeira paulista, ter vencido por uma diferença muito menor do que a inicialmente estimada. Lula precisa torcer para que esse movimento não se aprofunde nem se espalhe.
Outra fonte potencial de dificuldades são as investigações sobre a origem do dinheiro que compraria o dossiê. A PF já enrolou o quanto pôde na divulgação dos sacadores. Mais cedo ou mais tarde terá de revelar seus nomes, que poderão trazer novos dissabores à candidatura oficial.
O presidente conta, a seu favor, com o fato de já ter suportado denúncias bem mais graves. Muitos analistas estão dizendo que o tempo agora atua contra Lula. Não ousaria desmenti-los, mas não excluo a possibilidade de os mesmos anticorpos que protegeram o presidente de tantos e tamanhos escândalos voltem a atuar, fagocitando as novas acusações. Na hipótese de o "dossiegate" esfriar, não há em princípio razão para que Lula não reconquiste o terreno perdido, da mesma forma que se recuperou da crise provocada pelo mensalão.
A situação de Alckmin, que hoje parece muito boa, não necessariamente continuará assim. Em termos de produto, ele é bem menos carismático que o adversário _e não há nada que se possa fazer a respeito. O presidenciável tucano também poderá sofrer "fogo amigo". Digamos, para ser simpáticos, que algumas das principais lideranças tucanas sentem-se ambivalentes em relação a Alckmin. José Serra e Aécio Neves, que têm a força de governadores eleitos, em primeiro turno, dos dois Estados mais ricos da Federação, não ficariam exatamente decepcionados com uma derrota do companheiro de plumas. Na verdade, seria bem melhor para suas pretensões em 2010 ver Alckmin definitivamente escanteado.
A maior barreira para o projeto alckmista, entretanto, ainda é a eleitoral. Seu desempenho no Nordeste, que reúne 27% do eleitorado, é pífio e, ao que tudo indica, continuará assim. Por lá não passou nem sombra de onda tucana. Muito pelo contrário, as surpresas que houve foram favoráveis ao PT, como a eleição, em primeiro escrutínio, de Jaques Wagner para o governo da Bahia.
Conferir o mapa da votação de Lula e de Alckmin é um interessante exercício sociológico. Acho que a divisão entre ricos e pobres, sulistas (Sul e Sudeste) e nortistas (Nordeste e Norte), instruídos e nem tanto jamais foi tão evidente.
Seria tentador atribuir a forte votação no petista, mesmo após tantos escândalos, à ignorância e à desinformação de seu eleitor. Mas tal análise não resiste aos fatos. Prova-o a constatação de que parlamentares envolvidos nas denúncias terem sido exemplarmente punidos nas urnas: 91% dos 67 deputados sanguessugas perderam os seus mandatos ou por não ter conseguido se reeleger, caso 43, ou por nem ter tentado, como se deu com 18 deles. Apenas seis obtiveram um novo mandato. E, dos três senadores metidos no escândalo, apenas um, Ney Suassuna (PMDB-PB), enfrentou a reeleição. E fracassou miseravelmente, mesmo tendo disputado no que se considera um dos grotões do país.
Sorte semelhante experimentou o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti (PP-PE), que havia renunciado ao mandato para fugir do processo de cassação depois de ter sido apanhado num caso de extorsão. Severino não volta à Casa como havia planejado.
Com os mensaleiros, porém, o eleitor foi um pouco mais condescendente. Dos 11 que acabaram absolvidos pelo plenário da Câmara, cinco foram reeleitos, dois deles (João Paulo e José Mentor) por São Paulo, numa prova de que estar num dos principais pólos de riqueza e educação formal do país não significa muita coisa.
Parece-me mais adequado analisar o fenômeno Lula como uma manifestação de pragmatismo. O eleitor, ainda que talvez não com detalhes, toma ciência dos descaminhos em que se metem seus representantes. O próprio Lula, convém lembrar, inicialmente sofreu impacto negativo por conta das denúncias de corrupção. Mas o cidadão que simpatiza com o presidente aparentemente colocou na balança as suspeitas e as realizações de seu governo e optou por desconsiderar o aspecto ético. É a versão tupiniquim de os fins justificam os meios.
Resta saber se esse cálculo se manterá na nova fase da campanha ou se Geraldo Alckmin, pela sua incrível capacidade de manter-se inapelavelmente insosso, triunfará valendo-se dos erros do adversário.
Hélio Schwartsman
26/10/2006
Saída Taboão
A menos que o PT apronte mais uma bem cabeluda, Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser reeleito presidente da República no próximo domingo com uma votação consagradora. Faço então a pergunta que não quer calar: como é possível que Lula e o PT vençam de forma tão clara --61% a 39% pela última pesquisa Datafolha-- mesmo depois do festival de escândalos que se abateu sobre o país?
Comecemos identificando algumas falsas respostas. Não me parece correto afirmar, como vêm fazendo alguns setores das --desculpem-me, mas não resisto-- "elites", que se trate de um problema de desinformação dos menos instruídos. As sondagens mostram que a maioria dos eleitores afirma existir corrupção no governo e atribui ao presidente responsabilidade nos casos. Ainda assim, avalia bem a administração e está disposta a conceder mais quatro anos a Lula.
Uma interpretação possível é concluir que a população aderiu em massa ao "rouba, mas faz". Em algum grau, isso é verdade, mas não necessariamente porque os brasileiros sejamos todos um bando de maus-caracteres que não ligam para a ética na administração pública.
Definir o voto é uma operação complexa que mobiliza as mais diversas faculdades. Estão em jogo aspectos emocionais, como a relação afetiva com o partido de preferência, e racionais, a exemplo de considerações sobre as vantagens ou desvantagens pessoais que determinada proposta implica. O peso que a questão ética vai ter no cálculo de cada eleitor depende da posição relativa que cada um de vários critérios ocupa na hierarquia mental. Nesse contexto, não me parece absurdo desculpar os "deslizes" do PT --que em maior ou menor grau são cometidos por todas as agremiações-- por achar que o atual governo vem fazendo um bom trabalho na redução da desigualdade social, por exemplo.
Não é evidentemente o meu caso. Não discordo de que outras administrações também tenham incorrido em desmandos. Como não dispomos de um corruptômetro, parece-me bobagem tentar estabelecer se foi o PT ou o PSDB quem aprontou mais. O fato é que, no meu mapa mental, é bastante grave o fato de a legenda situacionista ter passado por cima de 20 anos de pregação ética na qual inadvertidamente acreditei. O partido que tentava conquistar simpatias afirmando, com alguma credibilidade, ser diferente de todos os outros hoje se defende de acusações graves dizendo ser igualzinho aos demais.
Outra decepção é com o fato de o governo petista ter-se revelado, pelo menos para mim, um engodo. Talvez ingenuamente eu esperava que, após 20 anos na oposição e contando com um quadro de militantes e simpatizantes qualificados nas mais diversas áreas, o PT tivesse projetos consistentes e "de esquerda" para a educação, a saúde, a ciência. Se os tinha, nem tentou implementá-los. Os integrantes do governo parecem limitar-se a comemorar os "sucessos" obtidos pela política econômica elaborada, aliás, por seus antecessores. Diga-se, de passagem, que o principal esporte dos economistas do PT nas duas décadas anteriores havia sido criticar essa política.
De resto, embora não me considere exatamente um legalista, acho que existe um núcleo de normas fundamentais para cujo cumprimento devemos envidar esforços máximos. Incluo aí as regras que visam a estabelecer uma relação republicana e transparente entre Executivo e Legislativo e a preservar o patrimônio público. Se queremos que essas leis sejam respeitadas, precisamos aplicar as sanções previstas para os que as violam, não importando quem sejam. Deixar de fazê-lo significa não apenas autorizar aquilo que pretendíamos proibir como ainda, num plano mais geral, dizer para toda a sociedade que as normas não precisam ser respeitadas. É a vitória da impunidade, com todos os efeitos que produz não apenas sobre a política mas também sobre a própria criminalidade.
Essas críticas que faço ao PT não me tornam automaticamente um tucano. Na verdade, boa parte de minhas objeções às atitudes petistas valem também para os tucanos. Devo reconhecer-lhes, entretanto, maior capacidade para livrar-se de investigações.
Em respeito à linha apartidária da Folha, abstenho-me de declarar meu voto. Admito, porém, que, neste segundo turno, venho flertando com o que chamo de saída Taboão. Para escapar ao dilema de optar entre duas candidaturas às quais faço fortes restrições, penso em dirigir-me a uma seção eleitoral qualquer de um município próximo --no caso, Taboão da Serra--, de onde possa justificar o não-comparecimento. É uma forma legal e legítima de burlar a absurda e antidemocrática imposição do voto obrigatório.
Reitero que não pretendo que essas minhas reflexões valham para todos. Elas fazem sentido à luz da minha hierarquia de valores, que pouco ou nada tem de universal. Quem recebe o benefício do Bolsa Família tem todas as razões para votar em Lula, assim como os rentistas que se fartam nos juros do governo.
Como esta campanha bem evidenciou, a democracia encerra muitas e graves imperfeições. Um exemplo: o receio de descontentar os eleitores leva todos os candidatos a prudentemente deixar de dizer quais setores perderiam em seu governo. E arbitrar perdas é a primeira e mais inescapável das tarefas de um político. No fundo, é Platão quem tinha razão. Ele condenava a democracia por entregar ao maleável populacho ("hoì pollói"), tão facilmente manipulado pelas palavras melífluas dos demagogos, a responsabilidade de decidir os destinos da nação independentemente de considerações técnicas. Platão, porém, dispunha de uma idéia muito clara do que fosse a Verdade. Podia criticar tudo o que dela se afastasse. Não é o nosso caso.
Até podemos discutir se determinado juízo descreve com precisão um fato, hipótese em que pode ser chamado de verdadeiro. Não temos, entretanto, a mais remota idéia do que possa ser uma verdade política universal. Esse é um terreno em que é melhor deixar a cada um a prerrogativa de estabelecer suas próprias prioridades. Nesse contexto o que Platão via como vícios da democracia converte-se em virtudes. Ao permitir que cada um vote livremente sem justificar-se ante a Verdade, Deus ou a Técnica, criamos um jogo onde todos são iguais. O resultado até pode ser um monstrengo político, a soma de todas as demagogias, mas é um jogo que nos garante a paz social. Em vez de conspirar e matar para chegar ao poder, postulantes aos cargos de comando limitam-se a tentar ludibriar o eleitorado. É o melhor que pudemos alcançar até agora. Hélio Schwartsman, 41, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.
Saída Taboão
A menos que o PT apronte mais uma bem cabeluda, Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser reeleito presidente da República no próximo domingo com uma votação consagradora. Faço então a pergunta que não quer calar: como é possível que Lula e o PT vençam de forma tão clara --61% a 39% pela última pesquisa Datafolha-- mesmo depois do festival de escândalos que se abateu sobre o país?
Comecemos identificando algumas falsas respostas. Não me parece correto afirmar, como vêm fazendo alguns setores das --desculpem-me, mas não resisto-- "elites", que se trate de um problema de desinformação dos menos instruídos. As sondagens mostram que a maioria dos eleitores afirma existir corrupção no governo e atribui ao presidente responsabilidade nos casos. Ainda assim, avalia bem a administração e está disposta a conceder mais quatro anos a Lula.
Uma interpretação possível é concluir que a população aderiu em massa ao "rouba, mas faz". Em algum grau, isso é verdade, mas não necessariamente porque os brasileiros sejamos todos um bando de maus-caracteres que não ligam para a ética na administração pública.
Definir o voto é uma operação complexa que mobiliza as mais diversas faculdades. Estão em jogo aspectos emocionais, como a relação afetiva com o partido de preferência, e racionais, a exemplo de considerações sobre as vantagens ou desvantagens pessoais que determinada proposta implica. O peso que a questão ética vai ter no cálculo de cada eleitor depende da posição relativa que cada um de vários critérios ocupa na hierarquia mental. Nesse contexto, não me parece absurdo desculpar os "deslizes" do PT --que em maior ou menor grau são cometidos por todas as agremiações-- por achar que o atual governo vem fazendo um bom trabalho na redução da desigualdade social, por exemplo.
Não é evidentemente o meu caso. Não discordo de que outras administrações também tenham incorrido em desmandos. Como não dispomos de um corruptômetro, parece-me bobagem tentar estabelecer se foi o PT ou o PSDB quem aprontou mais. O fato é que, no meu mapa mental, é bastante grave o fato de a legenda situacionista ter passado por cima de 20 anos de pregação ética na qual inadvertidamente acreditei. O partido que tentava conquistar simpatias afirmando, com alguma credibilidade, ser diferente de todos os outros hoje se defende de acusações graves dizendo ser igualzinho aos demais.
Outra decepção é com o fato de o governo petista ter-se revelado, pelo menos para mim, um engodo. Talvez ingenuamente eu esperava que, após 20 anos na oposição e contando com um quadro de militantes e simpatizantes qualificados nas mais diversas áreas, o PT tivesse projetos consistentes e "de esquerda" para a educação, a saúde, a ciência. Se os tinha, nem tentou implementá-los. Os integrantes do governo parecem limitar-se a comemorar os "sucessos" obtidos pela política econômica elaborada, aliás, por seus antecessores. Diga-se, de passagem, que o principal esporte dos economistas do PT nas duas décadas anteriores havia sido criticar essa política.
De resto, embora não me considere exatamente um legalista, acho que existe um núcleo de normas fundamentais para cujo cumprimento devemos envidar esforços máximos. Incluo aí as regras que visam a estabelecer uma relação republicana e transparente entre Executivo e Legislativo e a preservar o patrimônio público. Se queremos que essas leis sejam respeitadas, precisamos aplicar as sanções previstas para os que as violam, não importando quem sejam. Deixar de fazê-lo significa não apenas autorizar aquilo que pretendíamos proibir como ainda, num plano mais geral, dizer para toda a sociedade que as normas não precisam ser respeitadas. É a vitória da impunidade, com todos os efeitos que produz não apenas sobre a política mas também sobre a própria criminalidade.
Essas críticas que faço ao PT não me tornam automaticamente um tucano. Na verdade, boa parte de minhas objeções às atitudes petistas valem também para os tucanos. Devo reconhecer-lhes, entretanto, maior capacidade para livrar-se de investigações.
Em respeito à linha apartidária da Folha, abstenho-me de declarar meu voto. Admito, porém, que, neste segundo turno, venho flertando com o que chamo de saída Taboão. Para escapar ao dilema de optar entre duas candidaturas às quais faço fortes restrições, penso em dirigir-me a uma seção eleitoral qualquer de um município próximo --no caso, Taboão da Serra--, de onde possa justificar o não-comparecimento. É uma forma legal e legítima de burlar a absurda e antidemocrática imposição do voto obrigatório.
Reitero que não pretendo que essas minhas reflexões valham para todos. Elas fazem sentido à luz da minha hierarquia de valores, que pouco ou nada tem de universal. Quem recebe o benefício do Bolsa Família tem todas as razões para votar em Lula, assim como os rentistas que se fartam nos juros do governo.
Como esta campanha bem evidenciou, a democracia encerra muitas e graves imperfeições. Um exemplo: o receio de descontentar os eleitores leva todos os candidatos a prudentemente deixar de dizer quais setores perderiam em seu governo. E arbitrar perdas é a primeira e mais inescapável das tarefas de um político. No fundo, é Platão quem tinha razão. Ele condenava a democracia por entregar ao maleável populacho ("hoì pollói"), tão facilmente manipulado pelas palavras melífluas dos demagogos, a responsabilidade de decidir os destinos da nação independentemente de considerações técnicas. Platão, porém, dispunha de uma idéia muito clara do que fosse a Verdade. Podia criticar tudo o que dela se afastasse. Não é o nosso caso.
Até podemos discutir se determinado juízo descreve com precisão um fato, hipótese em que pode ser chamado de verdadeiro. Não temos, entretanto, a mais remota idéia do que possa ser uma verdade política universal. Esse é um terreno em que é melhor deixar a cada um a prerrogativa de estabelecer suas próprias prioridades. Nesse contexto o que Platão via como vícios da democracia converte-se em virtudes. Ao permitir que cada um vote livremente sem justificar-se ante a Verdade, Deus ou a Técnica, criamos um jogo onde todos são iguais. O resultado até pode ser um monstrengo político, a soma de todas as demagogias, mas é um jogo que nos garante a paz social. Em vez de conspirar e matar para chegar ao poder, postulantes aos cargos de comando limitam-se a tentar ludibriar o eleitorado. É o melhor que pudemos alcançar até agora. Hélio Schwartsman, 41, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.
Hélio Schwartsman
02/11/2006
Governo e mídia
Como as pesquisas haviam antecipado, Lula venceu brilhante vitória e deverá permanecer mais quatro anos à frente do Executivo. Até onde a vista alcança, vislumbro mais do mesmo: crescimento econômico medíocre e alguns novos escândalos. Os pobres terão assegurado seu "sopão", consubstanciado no Bolsa Família, e os ricos continuarão se fartando nos gordos juros pagos pelo governo a investidores. A alternativa, isto é, Alckmin, não seria, imagino, muito diferente. Talvez se trocassem dólares na cueca por mimos de alta costura, mas, no essencial, tudo continuaria mais ou menos como antes.
A melhor definição de Brasil que já ouvi é a do embaixador Rubens Ricúpero: "suave fracasso". Nada tão retumbante que provoque uma revolução, mas o suficiente para que o país jamais dê o salto que separa as nações desenvolvidas do restolho do mundo.
Feitas essas ponderações acerca do resultado da jornada eleitoral, passo a meu propósito real na coluna de hoje, que é o de queixar-me do leitor e, "en passant", comentar a relação entre imprensa e governo, que ganhou "momentum" nos últimos dias. Parte significativa das duas centenas de e-mails que recebi por conta da coluna da semana passada recriminava-me por ter afirmado que a Folha é apartidária. Não ignoro que todo texto está repleto intenções e propósitos ocultos, mas penso que as palavras ainda significam alguma coisa. E "apartidário", até prova em contrário, quer dizer apenas "alheio a partidos" ("apud" Aurélio) ou "que não segue um partido" (Houaiss). E foi só isso que eu disse. Não afirmei que a Folha, ou qualquer outro jornal, é neutra, imparcial ou objetiva. Talvez eu vá desapontar alguns de vocês, mas, para sermos rigorosos, neutralidade e objetividade não existem. Podemos apreender seu significado a partir da negação de seus antônimos, mas jamais as encontraremos em estado puro em nenhuma atividade humana.
Com efeito, por mais que nos esforcemos, é impossível escapar a todas as determinações subjetivas que nos são impostas por nossas crenças, posições políticas, hábitos e emoções. A própria escolha do assunto, a forma de escrever ou de editar um texto já implicam decisões idiossincráticas, que não podem ser tomadas como universais.
Antes de avançar, acho que convém, como já fiz em colunas antigas, examinar melhor o conceito de objetividade. Ele próprio, como veremos a seguir, tem uma história que não é lá muito "objetiva".
Até onde consegui chegar, quem pela primeira vez usou o termo "objetivo" foi o filósofo escolástico Duns Scott (1266-1308), designando mais ou menos exatamente o contrário do que significa hoje. Para Scott, "objetivo" é o nome que se dá à idéia ou à representação, em oposição a uma realidade que subsistiria por si mesma. Esse sentido prevaleceu mais ou menos até o século 17.
Como quase sempre, é a partir de Kant que o significado de "objetivo" se aproxima do atual. O filósofo de Königsberg emprega o termo para designar uma coisa que existe independentemente das idéias que tenhamos dela. Só que, vale lembrá-lo, a coisa em si mesma ("noûmenon") --a classe de objetos que comporia a "realidade objetiva"-- é uma mercadoria sem valor no universo kantiano. Muito embora possamos conceber a existência da coisa em si, só podemos abordá-la através de nossa sensibilidade e em nosso entendimento. Para efeitos práticos, vivemos numa realidade divorciada daquela da coisa em si. O que de melhor temos à nossa disposição é o fenômeno, que seria, numa aproximação muito grosseira, uma espécie de interação entre a coisa em si e o sujeito, isto é, entre a realidade objetiva e nossa forma humana, subjetiva, de percebê-la.
É aqui que os alicerces do jornalismo começam a ruir. Se até a intelecção de um objeto simples é mediada pela subjetividade, o que não dizer que não dizer dos complexos encadeamentos entre fatos e hipóteses causais que caracterizam qualquer história, de uma briga de vizinhos, à Guerra de Tróia, passando pela reeleição do presidente Lula? Os puristas podem concluir que o jornalismo é a realização diária de uma impossibilidade teórica.
De minha parte, tenho dois motivos para não abraçar essa tese com muito entusiasmo. O primeiro, mais prosaico, é que essa suposta impossibilidade teórica emite o contracheque que paga minhas contas todos os meses. O segundo, mais filosófico, é que precisamos nos precaver contra as tentações do relativismo. Em pequenas doses, ele é o melhor remédio contra os males do dogmatismo, mas se nos excedermos, corremos o risco de aniquilar a própria possibilidade de estabelecer uma hierarquia de valores. Se todos os sistemas políticos se equivalem, não há diferença entre monarquia absolutista --leia-se, ditaduras hereditárias-- e democracia. Se o que importa numa teoria é apenas sua coerência interna, precisaríamos aceitar como iguais astronomia e astrologia, medicina e xamanismo (desta vez, não vou escrever homeopatia para não passar o resto da semana respondendo a e-mails desaforados).
Voltemos, porém, ao jornalismo e tentemos resgatá-lo do oceano de indefinições em que inadvertidamente o atirávamos. Ora, mesmo reconhecendo que não existe uma verdade absoluta e admitindo que estamos limitados ao mundo fenomênico, ainda assim é forçoso aceitar que existe uma diferença entre a ficção pura e simples (Papai Noel, os "empréstimos" do Delúbio) e a enunciação de eventos verificáveis numa ordem mais ou menos coerente (um relato tão honesto quanto possível de uma história qualquer, isto é, a notícia). É nessa fresta, estreita e epistemologicamente precária, que o jornalismo tenta sobreviver.
No sentido forte, a objetividade é impossível. Não apenas não temos acesso à coisa em si como ainda temos grandes dificuldades para harmonizar os aspectos da subjetividade que variam de um indivíduo para outro. A minha noção de "honesto", por exemplo, não necessariamente bate com a do presidente Lula. Mais uma vez, o caminho é pedregoso. Se não quisermos admitir que o próprio diálogo é impossível, precisamos recorrer à frágil bóia da intersubjetividade. Ainda que jamais venhamos a nos pôr de acordo com as prioridades no Orçamento, podemos estabelecer algumas convenções que nos permitam a comunicação. Quando eu escrevo "cavalo" e "apartidarismo" estou me referindo a cavalo e apartidarismo, e não a girafa e neutralidade, por exemplo. Não é muito, mas é só essa intersubjetividade com tudo o que ela encerra de arbitrário que nos permite falar sobre o mesmo mundo.
Assim, quando proclamamos um texto jornalístico "objetivo" (com várias aspas, vá lá), só o que queremos dizer é que seu autor procurou narrar um encadeamento de fatos pretéritos e não escrever uma peça de ficção. De modo análogo, um texto opinativo --uma coluna, um comentário, um editorial-- é uma peça que já de antemão se assume como subjetiva. Não deve ser lida como uma tentativa do autor de golpear as instituições democráticas ou dominar o mundo, mas apenas como uma interpretação possível --ou nem isso-- da "realidade". Não sei se salvamos muita coisa, mas é, parece-me, o possível.
Voltando ao caso PT, cabem algumas perguntas. Como deveria agir uma mídia "neutra" no caso do mensalão? Deixar de noticiá-lo? Ora, o próprio presidente Lula reconheceu que algo de muito errado aconteceu ali, e chegou a pedir desculpas à população. O procurador-geral da República, nomeado por Lula, foi mais longe e viu no mensalão "uma quadrilha" integrada por membros da cúpula do governo e do PT que agia com o objetivo de "garantir a continuidade do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores mediante a compra de suporte político de outros partidos". Um jornal "isento" deveria então ter mencionado o escândalo uma única vez e esquecido a questão ética? Ou, pelo contrário, deveria a cada menção do nome Lula evocar toda a lista de embrulhadas em que o presidente e seu partido se envolveram?
Parece-me que a missão fundamental da mídia apartidária ou independente (agora sem aspas) é escarafunchar nos meandros do governo --não importando sua coloração ideológica ou filiação partidária-- em busca de coisas erradas. Fatalmente as encontrará. A Folha, por exemplo, as achou aos borbotões no governo de Fernando Henrique Cardoso, ocasião em que o jornal era acusado de petista.
Uma relação "saudável" entre jornalistas e governantes será, portanto, sempre tensa. Em certos momentos, como o atual, arroubos retóricos substituem o bom senso. Até onde vejo, atitudes autoritárias de membros do governo em relação à imprensa não constituem ameaça à democracia, assim como as opiniões negativas acerca do primeiro mandato de Lula legitimamente expressas pelo "mainstream" da mídia não subvertem a vontade popular.
Dessas minhas observações não se segue, é claro, que a mídia seja infalível. Muito pelo contrário, ela erra --e muito. Eu diria até que não se esforça tanto quanto poderia em melhorar. De fato, o poder da mídia, que necessariamente opera num poço de subjetividades, de produzir e amplificar injustiças é grande e deve inspirar cautela, mas o poder de um governo não-submetido à crítica é tirânico e tende a ser muito mais danoso. Quem captou muito bem esse dilema foi Thomas Jefferson, um dos "pais fundadores" dos EUA, que afirmou: "Se me fosse dado decidir se devemos ter um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a última". A assertiva é meio exagerada, mas, como frase de efeito, é boa.
Hélio Schwartsman, 41, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.
Governo e mídia
Como as pesquisas haviam antecipado, Lula venceu brilhante vitória e deverá permanecer mais quatro anos à frente do Executivo. Até onde a vista alcança, vislumbro mais do mesmo: crescimento econômico medíocre e alguns novos escândalos. Os pobres terão assegurado seu "sopão", consubstanciado no Bolsa Família, e os ricos continuarão se fartando nos gordos juros pagos pelo governo a investidores. A alternativa, isto é, Alckmin, não seria, imagino, muito diferente. Talvez se trocassem dólares na cueca por mimos de alta costura, mas, no essencial, tudo continuaria mais ou menos como antes.
A melhor definição de Brasil que já ouvi é a do embaixador Rubens Ricúpero: "suave fracasso". Nada tão retumbante que provoque uma revolução, mas o suficiente para que o país jamais dê o salto que separa as nações desenvolvidas do restolho do mundo.
Feitas essas ponderações acerca do resultado da jornada eleitoral, passo a meu propósito real na coluna de hoje, que é o de queixar-me do leitor e, "en passant", comentar a relação entre imprensa e governo, que ganhou "momentum" nos últimos dias. Parte significativa das duas centenas de e-mails que recebi por conta da coluna da semana passada recriminava-me por ter afirmado que a Folha é apartidária. Não ignoro que todo texto está repleto intenções e propósitos ocultos, mas penso que as palavras ainda significam alguma coisa. E "apartidário", até prova em contrário, quer dizer apenas "alheio a partidos" ("apud" Aurélio) ou "que não segue um partido" (Houaiss). E foi só isso que eu disse. Não afirmei que a Folha, ou qualquer outro jornal, é neutra, imparcial ou objetiva. Talvez eu vá desapontar alguns de vocês, mas, para sermos rigorosos, neutralidade e objetividade não existem. Podemos apreender seu significado a partir da negação de seus antônimos, mas jamais as encontraremos em estado puro em nenhuma atividade humana.
Com efeito, por mais que nos esforcemos, é impossível escapar a todas as determinações subjetivas que nos são impostas por nossas crenças, posições políticas, hábitos e emoções. A própria escolha do assunto, a forma de escrever ou de editar um texto já implicam decisões idiossincráticas, que não podem ser tomadas como universais.
Antes de avançar, acho que convém, como já fiz em colunas antigas, examinar melhor o conceito de objetividade. Ele próprio, como veremos a seguir, tem uma história que não é lá muito "objetiva".
Até onde consegui chegar, quem pela primeira vez usou o termo "objetivo" foi o filósofo escolástico Duns Scott (1266-1308), designando mais ou menos exatamente o contrário do que significa hoje. Para Scott, "objetivo" é o nome que se dá à idéia ou à representação, em oposição a uma realidade que subsistiria por si mesma. Esse sentido prevaleceu mais ou menos até o século 17.
Como quase sempre, é a partir de Kant que o significado de "objetivo" se aproxima do atual. O filósofo de Königsberg emprega o termo para designar uma coisa que existe independentemente das idéias que tenhamos dela. Só que, vale lembrá-lo, a coisa em si mesma ("noûmenon") --a classe de objetos que comporia a "realidade objetiva"-- é uma mercadoria sem valor no universo kantiano. Muito embora possamos conceber a existência da coisa em si, só podemos abordá-la através de nossa sensibilidade e em nosso entendimento. Para efeitos práticos, vivemos numa realidade divorciada daquela da coisa em si. O que de melhor temos à nossa disposição é o fenômeno, que seria, numa aproximação muito grosseira, uma espécie de interação entre a coisa em si e o sujeito, isto é, entre a realidade objetiva e nossa forma humana, subjetiva, de percebê-la.
É aqui que os alicerces do jornalismo começam a ruir. Se até a intelecção de um objeto simples é mediada pela subjetividade, o que não dizer que não dizer dos complexos encadeamentos entre fatos e hipóteses causais que caracterizam qualquer história, de uma briga de vizinhos, à Guerra de Tróia, passando pela reeleição do presidente Lula? Os puristas podem concluir que o jornalismo é a realização diária de uma impossibilidade teórica.
De minha parte, tenho dois motivos para não abraçar essa tese com muito entusiasmo. O primeiro, mais prosaico, é que essa suposta impossibilidade teórica emite o contracheque que paga minhas contas todos os meses. O segundo, mais filosófico, é que precisamos nos precaver contra as tentações do relativismo. Em pequenas doses, ele é o melhor remédio contra os males do dogmatismo, mas se nos excedermos, corremos o risco de aniquilar a própria possibilidade de estabelecer uma hierarquia de valores. Se todos os sistemas políticos se equivalem, não há diferença entre monarquia absolutista --leia-se, ditaduras hereditárias-- e democracia. Se o que importa numa teoria é apenas sua coerência interna, precisaríamos aceitar como iguais astronomia e astrologia, medicina e xamanismo (desta vez, não vou escrever homeopatia para não passar o resto da semana respondendo a e-mails desaforados).
Voltemos, porém, ao jornalismo e tentemos resgatá-lo do oceano de indefinições em que inadvertidamente o atirávamos. Ora, mesmo reconhecendo que não existe uma verdade absoluta e admitindo que estamos limitados ao mundo fenomênico, ainda assim é forçoso aceitar que existe uma diferença entre a ficção pura e simples (Papai Noel, os "empréstimos" do Delúbio) e a enunciação de eventos verificáveis numa ordem mais ou menos coerente (um relato tão honesto quanto possível de uma história qualquer, isto é, a notícia). É nessa fresta, estreita e epistemologicamente precária, que o jornalismo tenta sobreviver.
No sentido forte, a objetividade é impossível. Não apenas não temos acesso à coisa em si como ainda temos grandes dificuldades para harmonizar os aspectos da subjetividade que variam de um indivíduo para outro. A minha noção de "honesto", por exemplo, não necessariamente bate com a do presidente Lula. Mais uma vez, o caminho é pedregoso. Se não quisermos admitir que o próprio diálogo é impossível, precisamos recorrer à frágil bóia da intersubjetividade. Ainda que jamais venhamos a nos pôr de acordo com as prioridades no Orçamento, podemos estabelecer algumas convenções que nos permitam a comunicação. Quando eu escrevo "cavalo" e "apartidarismo" estou me referindo a cavalo e apartidarismo, e não a girafa e neutralidade, por exemplo. Não é muito, mas é só essa intersubjetividade com tudo o que ela encerra de arbitrário que nos permite falar sobre o mesmo mundo.
Assim, quando proclamamos um texto jornalístico "objetivo" (com várias aspas, vá lá), só o que queremos dizer é que seu autor procurou narrar um encadeamento de fatos pretéritos e não escrever uma peça de ficção. De modo análogo, um texto opinativo --uma coluna, um comentário, um editorial-- é uma peça que já de antemão se assume como subjetiva. Não deve ser lida como uma tentativa do autor de golpear as instituições democráticas ou dominar o mundo, mas apenas como uma interpretação possível --ou nem isso-- da "realidade". Não sei se salvamos muita coisa, mas é, parece-me, o possível.
Voltando ao caso PT, cabem algumas perguntas. Como deveria agir uma mídia "neutra" no caso do mensalão? Deixar de noticiá-lo? Ora, o próprio presidente Lula reconheceu que algo de muito errado aconteceu ali, e chegou a pedir desculpas à população. O procurador-geral da República, nomeado por Lula, foi mais longe e viu no mensalão "uma quadrilha" integrada por membros da cúpula do governo e do PT que agia com o objetivo de "garantir a continuidade do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores mediante a compra de suporte político de outros partidos". Um jornal "isento" deveria então ter mencionado o escândalo uma única vez e esquecido a questão ética? Ou, pelo contrário, deveria a cada menção do nome Lula evocar toda a lista de embrulhadas em que o presidente e seu partido se envolveram?
Parece-me que a missão fundamental da mídia apartidária ou independente (agora sem aspas) é escarafunchar nos meandros do governo --não importando sua coloração ideológica ou filiação partidária-- em busca de coisas erradas. Fatalmente as encontrará. A Folha, por exemplo, as achou aos borbotões no governo de Fernando Henrique Cardoso, ocasião em que o jornal era acusado de petista.
Uma relação "saudável" entre jornalistas e governantes será, portanto, sempre tensa. Em certos momentos, como o atual, arroubos retóricos substituem o bom senso. Até onde vejo, atitudes autoritárias de membros do governo em relação à imprensa não constituem ameaça à democracia, assim como as opiniões negativas acerca do primeiro mandato de Lula legitimamente expressas pelo "mainstream" da mídia não subvertem a vontade popular.
Dessas minhas observações não se segue, é claro, que a mídia seja infalível. Muito pelo contrário, ela erra --e muito. Eu diria até que não se esforça tanto quanto poderia em melhorar. De fato, o poder da mídia, que necessariamente opera num poço de subjetividades, de produzir e amplificar injustiças é grande e deve inspirar cautela, mas o poder de um governo não-submetido à crítica é tirânico e tende a ser muito mais danoso. Quem captou muito bem esse dilema foi Thomas Jefferson, um dos "pais fundadores" dos EUA, que afirmou: "Se me fosse dado decidir se devemos ter um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a última". A assertiva é meio exagerada, mas, como frase de efeito, é boa.
Hélio Schwartsman, 41, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.
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