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domingo, outubro 09, 2011

Macacos, sexo e Michelangelo

Gorila e Juízo final - Jared Diamond vislumbra o apocalipse ecológico e nuclear. Isso também está no Velho Testamento, ilustrado na Capela Sistina, no Juízo Final. Sim: em 40 000 anos, nós, chimpanzés superdotados, conseguimos fazer a Capela Sistina. Mas chegará o dia em que voltaremos a comer larvas de cupim.
O pênis ereto de um gorila mede 4 centímetros. Foi por isso que nós fizemos a Capela Sistina, enquanto os gorilas só aprenderam a comer larvas de cupim.
A teoria é do americano Jared Diamond, autor de O Terceiro Chimpanzé, que chegará no próximo dia 18 às livrarias brasileiras, publicado pela Editora Record. Jared Diamond é um misto de Charles Darwin com Carrie Bradshaw, a protagonista de Sex and the City. Se Carrie Bradshaw fosse uma gorila, ela poderia anotar em seu computador, como anotou Jared Diamond:
— Por que os humanos copulam privadamente, se todos os outros animais sociais copulam em público?
Segundo Jared Diamond, a espécie humana evoluiu a partir de seu comportamento sexual. Mais importante do que o tamanho de nosso cérebro — que é 10% menor do que o do homem de Neandertal — é o tamanho de nosso apetite e, principalmente, de nosso aparato sexual. De fato, se Carrie Bradshaw fosse uma gorila, ela jamais encontraria um Mr. Big.
Em O Terceiro Chimpanzé, Jared Diamond trata de outros temas, além da Teoria do Tamanho do Pênis. Ele trata também da Teoria do Tamanho dos Testículos, da Teoria do Tamanho dos Mamilos e, por fim, da Teoria da Ruiva Peituda.
Nas últimas décadas, a biologia se transformou numa Galápagos intelectual, em que darwinistas das mais variadas espécies competem entre si, apresentando teorias extravagantes para se adaptar ao ambiente editorial e televisivo. Os mais bem-sucedidos divulgadores do darwinismo vendem livros como se fossem larvas de cupim e ganham documentários produzidos pela National Geographic Society. Foi exatamente o que ocorreu com Jared Diamond. Se Stephen Jay Gould e Richard Dawkins podem ser considerados o albatroz e a tartaruga-gigante da Galápagos darwinista, Jared Diamond posiciona-se imediatamente abaixo deles, como uma iguana do evolucionismo.
Jared Diamond estudou medicina. Depois de uma viagem a Papua-Nova Guiné, em que conheceu os membros de uma tribo de homens da Idade da Pedra, ele converteu-se em ecologista, em pacifista e em autor de ensaios sobre a origem da humanidade.
O Terceiro Chimpanzé foi publicado nos Estados Unidos em 1991. Foi o primeiro livro de Jared Diamond. Nele se encontram praticamente todas as ideias que seriam desenvolvidas em seus trabalhos seguintes. Em Why Is Sex Fun?, de 1997, Jared Diamond ampliou sua Teoria do Tamanho do Pênis, constrangendo novamente os gorilas. Em Armas, Germes e Aço, também de 1997, ele tentou explicar por que, em nossa história, um povo sempre procurou exterminar o outro — tema da parte final de O Terceiro Chimpanzé.
Nosso DNA é 98,8% igual ao de um chimpanzé. Geneticamente, um chimpanzé é mais próximo de um homem do que de um gorila. Há o chimpanzé comum. Há o chimpanzé pigmeu. Para Jared Diamond, o homem é uma terceira espécie de chimpanzé. Somos ligados como Tarzan e Chita. Como foi que Chita conseguiu fazer a Capela Sistina? Qual foi o elemento que, em apenas 40.000 anos, possibilitou que a humanidade abandonasse as cavernas e desse seu “Grande Salto para a Frente”?
A resposta, segundo Jared Diamond, é a linguagem falada. O aparelho vocal humano, em algum momento de nosso caminho evolutivo, transformou-se, diferenciando-se do de outros primatas e permitindo que nossos antepassados pronunciassem e articulassem uma série de novos sons. Esses novos sons deram origem a uma língua comum, extremamente rudimentar, cuja raiz sobrevive até hoje, em particular na fala de Dilma Rousseff. Através dessa língua comum, passamos a transmitir uns aos outros conhecimentos que possibilitaram o desenvolvimento da agricultura, do pastoreio, da roda e do adestramento de cavalos.
Nada disso teria ocorrido, porém, se nossas necessidades sexuais fossem iguais às de um chimpanzé ou às de um gorila. Contrariamente ao que acontece com os outros primatas, “os pais humanos oferecem às suas parceiras muito mais do que o esperma”. De fato, eles cuidam de seus filhos e se responsabilizam por eles, a fim de garantir a disponibilidade sexual de suas mulheres. A linguagem falada, de acordo com Jared Diamond, desenvolveu-se no ambiente familiar. Em primeiro lugar, para determinar o papel de cada um de seus membros. Em segundo, para estabelecer normas e leis que assegurassem aos homens que seus filhos eram seus, e que eles herdariam seus bens.
Os evolucionistas debocham dos criacionistas, mas o Velho Testamento, ilustrado na Capela Sistina, já contou essa história. Veja o Pecado Original. Veja nossos antepassados sendo expulsos do Jardim do Éden e dando origem à sociedade humana. Veja Noé nu e embriagado. No fim de O Terceiro Chimpanzé, Jared Diamond vislumbra o apocalipse ecológico e nuclear. Isso também está no Velho Testamento, ilustrado na Capela Sistina, no Juízo Final. Sim: em 40.000 anos, nós, chimpanzés superdotados, conseguimos fazer a Capela Sistina. Mas chegará o dia em que voltaremos a comer larvas de cupim.
Diogo Mainardi-veja online

sábado, fevereiro 28, 2009

Diogo Mainardi


O Marcola do país da macarronada
O Brasil negou o pedido de extradição de Cesare Battisti durante minhas férias. Férias na Itália. Acompanhei o episódio de longe, pela imprensa italiana. "La Repubblica" publicou o seguinte comentário:
"No país do samba, há uma espécie de cumplicidade ideal com todos os Battisti do mundo, com os terroristas, com os justiceiros. Lula deve ter pensado que a Itália é uma republiqueta como a sua. (Ele) acredita que o mundo inteiro é formado por paisecos no limite entre o populismo e a ditadura militar".
Ponto.
Nos últimos anos, "La Repubblica" foi um dos jornais estrangeiros que mais tolamente se encantaram com o presidente brasileiro. Agora mudou. A abestalhada claque italiana de Lula passou a enxergá-lo como um retrato do caudilho bananeiro.
Um documento que recebi na semana passada pode ajudar a explicar essa baba raivosa na boca dos italianos. Trata-se da ficha do Ros - o Grupo de Operações Especiais da polícia militar italiana - sobre os terroristas do PAC - os Proletários Armados pelo Comunismo -, do qual fazia parte Cesare Battisti.
Primeiro trecho:
"Os Proletários Armados pelo Comunismo formaram-se nos últimos meses de 1977, no âmbito da luta contra a nova realidade do regime carcerário de segurança máxima, que acabara de ser instituído".
E eu acrescento: os atentados terroristas do PCC, em maio 2006, ocorreram pelo mesmo motivo - a transferência de alguns membros do bando para o presídio de segurança máxima de Presidente Bernardes. O PAC é o PCC do país da Tarantella (sim, estou parodiando o editorialista do "La Repubblica"). Tarso Genro alegou que Cesare Battisti foi perseguido por suas ideias políticas. A única ideia que ele tinha era essa: aliviar o cárcere duro, exatamente como o Comando Vermelho em Bangu 3.
Segundo trecho da ficha policial:
"Em 6 de junho de 1978, o PAC assassinou, na frente da cadeia de Udine, o coronel Antonio Santoro, comandante dos agentes penitenciários. No documento de reivindicação, lê-se: O Estado usa a cadeia como uma ameaça contra qualquer tipo de divergência, de obtenção de renda por outros meios, de conflito de classe. E para readquirir o controle dos presídios, isola a faixa mais combativa [dos prisioneiros proletários], o que acarreta seu aniquilamento. Precisamos deter esse projeto, reforçando nossa prática comunista, concretizando-a em armamentos e em contrapoder".
Compare-o agora a um manifesto do PCC: A introdução do Regime Disciplinar Diferenciado inverte a lógica da execução penal. E coerente com a perspectiva de eliminação e inabilitação dos setores sociais redundantes, leia-se 'a clientela do sistema penal', a nova punição disciplinar inaugura novos métodos de custódia e controle da massa carcerária, conferindo à pena de prisão o nítido caráter de castigo cruel.
O assassinato do coronel Antonio Santoro por parte do grupo comandado por Cesare Battisti, na realidade, teve um motivo bem mais banal do que se poderia concluir lendo o altissonante manifesto do PAC. Segundo a ficha da polícia, o chefe dos agentes penitenciários foi morto somente por causa da demora em oferecer atendimento médico a outro militante do grupo, que se machucou jogando futebol na cadeia. Aparentemente, o que os terroristas queriam obter era um Mário Américo para cada prisioneiro.
Em 1979, o PAC seguiu essa mesma lógica de apoio sangrento à bandidagem comum nos assassinatos de um joalheiro e de um açogueiro. De acordo com o documento preparado pelos Carabinieri, o bando de Cesare Battisti executou os comerciantes porque eles "fizeram justiça com as próprias mãos, matando dois assaltantes".
Cesare Battisti é isso, é só isso: o Marcola do país da macarronada.


Fonte: Blogo do Diogo Mainardi (Veja online) 28/01/2009

Diogo Mainardi


Sim, pode

- Posso ser o que eu quiser?
- Sim, pode.
- Posso ter o que eu quiser?
- Sim, pode.
- Posso ganhar um carro com frigobar, uma TV a cores, uma carteirinha da Playboy e cem ações da AT&T?
- Sim, pode.
Acabo de citar um trecho de "Golden Boy", musical da Broadway de 1964, com Sammy Davis Jr. Lá atrás, em 11 de junho do ano passado, num artigo publicado no site da BBC, Ivan Lessa contou como aquele "Sim, pode" - no original, "Yes you can" -, interpretado por Sammy Davis Jr, se transformou no "Sim, pode" - "Yes you can" -, o mote publicitário de Barack Obama. Ivan Lessa contou também que Barack Obama nunca pagou direitos autorais aos herdeiros de Sammy Davis Jr, da mesma maneira que os ministros nomeados por ele nunca pagaram Imposto de Renda ou encargos trabalhistas de seus empregados domésticos.
Em 11 de junho de 2008, Ivan Lessa, conhecido como Tirésias de South Kensington, adivinhou que Barack Obama conseguiria se eleger. Porque sabia discursar. Porque sabia sorrir. Porque sabia tirar e botar paletós. Oito meses depois, continua sendo sua maior qualidade: tirar e botar paletós. Ninguém tira e bota paletós melhor do que ele. Sammy Davis Jr foi marginalizado por se casar com uma branca - ainda por cima, uma sueca - e por votar no partido Republicano de Richard Nixon. Com Barack Obama, isso finalmente mudou. Além de conquistar a Casa Branca, os negros conquistaram também o direito de alisar os cabelos com chapinha japonesa e de se converter ao judaísmo.
Barack Obama prometeu um pacote de 1 trilhão de dólares. Tem dinheiro para todos. Ele adaptou os versos de Sammy Davis Jr:
- Posso ganhar 75 milhões para ajudar a parar de fumar?
- Sim, pode.
- Posso ganhar 50 milhões para investir em artes plásticas?
- Sim, pode.
- Posso ganhar 400 milhões para financiar pesquisas sobre o aquecimento global?
- Sim, pode.
- Posso ganhar 650 milhões para subsidiar a TV digital?
- Sim, pode.
O pacote de Barack Obama inclui um bônus fiscal. Quem fez isso antes dele foi George W. Bush. O pacote de Barack Obama aumenta o gasto público. Quem fez isso antes dele foi George W. Bush. O pacote de Barack Obama tem medidas protecionistas para estimular a indústria siderúrgica americana. Quem fez isso antes dele foi George W. Bush, em 2002, até ser coagido a voltar atrás, como Barack Obama.
O "Golden Boy" da política americana declarou, com aquele seu tom solene, que era o momento de fazer escolhas árduas. Um colunista do Washington Post concordou com ele: era o momento de fazer escolhas árduas, e Barack Obama fugiu de todas elas. Ele preferiu distribuir dinheiro à sua base de apoio: no Congresso, nos sindicatos, na indústria e nas ONGs, aumentando alopradamente um monte de despesas permanentes.
- Posso ganhar 335 milhões para tratar doenças venéreas?
- Sim, pode.
- Posso ganhar 600 milhões para renovar a frota de carros dos órgãos federais?
- Sim, pode.
- Posso soltar um terrorista preso em Guantánamo?
- Quem?
- Posso soltar um terrorista preso em Guantánamo?
- Sim, pode.

Fonte: Blog do Diogo Mainardi (Veja online) 04/02/2009

Diogo Mainardi

Sartre do Hamas
- Hamas, Hamas, os judeus na câmara de gás.
O bordão foi entoado na Holanda, durante uma passeata organizada por grupos de esquerda para protestar contra a batalha de Gaza. Dois parlamentares do Partido Socialista participaram da passeata.
O antissemitismo? Foi tomado pela esquerda. Gadi Luzzato Voghera é autor de um ensaio sobre o assunto, "Antissemitismo à esquerda", da editora Einaudi. Professor da universidade de Veneza, judeu e esquerdista, ele comparou a cumplicidade da esquerda européia com o Hamas à cumplicidade da esquerda européia com o stalinismo. Assim como os intelectuais de esquerda, no passado, se recusaram a condenar o totalitarismo de Stalin e o caráter assassino de seu regime, os intelectuais de esquerda, atualmente, acobertam o totalitarismo do Hamas e o caráter terrorista de seu regime - são os Jean-Paul Sartre do Hamas.
O antissemitismo de esquerda é camuflado como antissionismo. Para poder colaborar abertamente com os assassinos do Hamas, os antissemitas de esquerda falsificaram a história, associando os terroristas palestinos aos grupos anticolonialistas do século passado ou ao movimento contra o apartheid na África do Sul, como se Israel fosse um império colonial ou um regime segregacionista. Pior: eles igualaram Gaza ao gueto de Varsóvia, como se Israel fosse a monstruosidade nazista. Em nome do antissionismo, a esquerda acolheu alegremente o despotismo do Hamas, o fundamentalismo religioso, a opressão das mulheres e a retórica genocida contra os judeus.
De setembro para cá, o antissemitismo de esquerda ganhou o impulso da crise financeira internacional. De acordo com uma pesquisa realizada em sete países europeus, 31% dos entrevistados culparam os judeus pelos desastres da economia mundial. É o retorno em grande escala daquele arraigado preconceito antissemita do judeu agiota, do judeu conspirador, do judeu inescrupuloso, do judeu golpista. Agora é a vez do judeu do subprime, do judeu dos ativos tóxicos, do judeu capitalista. Os novos Protocolos dos Sábios do Sião afirmam que o neoliberalismo é obra de judeus apátridas, como Bernard Madoff, e que só a esquerda pode extirpá-lo, com um vigoroso Pogrom keynesiano de investimentos estatais.
A esquerda nem sempre foi assim. Eu, como Tristram Shandy, relato o que aconteceu antes de meu nascimento, quando ainda estava acomodado no útero materno. Passei a gravidez num kibbutz, em Israel. O kibbutz Ashdot Iaakov, pertinho do mar da Galiléia, aos pés das colinas de Golan. Data: 1962. Lá estou eu, boiando no líquido amniótico. Lá está ela, minha mãe, aos 27 anos, grávida de mim, trabalhando na creche do kibbutz. Lá está ele, meu pai, colhendo uvas no vale do Jordão. E lá está ele, meu irmão, aprendendo hebraico na escola. Nenhum deles era - ou é - judeu. O que faziam num kibbutz? Experimentavam a vida comunitária, aquele ideal socializante de irmandade e de partilha dos bens. O ideal socializante, agora, é outro:
- Hamas, Hamas, os judeus na câmara de gás.

Fonte: Blog do Diogo Mainardi (Veja online) 18/02/2009

Diogo Mainardi

A Vichy do PT
A USP é a Vichy do petismo. É dominada pelos colaboracionistas do regime. Uma hora, os professores doutrinam os estudantes. Outra hora, eles montam a plataforma eleitoral do partido. Outra hora, assumem cargos no Palácio do Planalto.
Um nome? Maria Victória Benevides. Ela passou por tudo isso: já doutrinou os estudantes, já montou a plataforma do PT e já assumiu cargos no Palácio do Planalto. Com tantas medalhas no peito, ela pode ser considerada, com uma certa ligeirice, o marechal Pétain da USP.
Nos últimos anos, Maria Victória Benevides combateu destemidamente todos os insubordinados que procuraram resistir à supremacia de Lula: Em 2005, ela atribuiu o mensalão ao "sensacionalismo da imprensa", acrescentando que ninguém podia dar ensinamentos de ética a Lula. Em 2006, ela passou um pito nos petistas que defendiam outro caminho para a economia. Em 2007, ela ridicularizou as lamúrias de Fernando Henrique Cardoso. Em 2008, ela se reuniu com outros trinta hierarcas da academia e, depois de fazer propaganda do PAC, engajou-se com entusiasmo na candidatura presidencial de Dilma Rousseff.
Até recentemente, Maria Victória Benevides podia contar com uma poderosa arma. Isso mesmo: a "Folha de S. Paulo". Sempre que Lula ou o PT se metiam numa enrascada, lá ia ela, a colaboracionista do regime, o marechal Pétain da USP, oferecendo uma espécie de arrazoado ao jornal, publicado sob a forma de um artigo, ou de uma carta, ou de uma frase: num ritmo de dez, onze, doze vezes por ano.
Quando o arsenal de Maria Victória Benevides parecia estar se esgotando, seu lugar na "Folha de S. Paulo" era preenchido por outro colaboracionista do regime, comumente identificado como "intelectual do PT". Quem? Fábio Konder Comparato.Goffredo da Silva Telles. Dalmo Dallari. Maria Rita Kehl. Emir Sader. Renato Janine Ribeiro. Paul Singer. Antonio Candido. Uma gente caduca, uma gente tacanha, uma gente cabotina, que pretende ser eternamente recompensada por seus gestos durante o regime militar.
Agora tudo mudou. Alguns dias atrás, um editorialista da "Folha de S. Paulo", Vinicius Mota, empregou o termo "ditabranda" - em vez de ditadura - para caracterizar aquele mesmo regime militar. É um trocadilho antigo. Já foi usado por Márcio Moreira Alves. E já foi usado na própria "Folha de S. Paulo", num artigo de 2004. Desta vez, porém, Maria Victória Benevides decidiu espernear, ordenando ao jornal que se retratasse. E Fábio Konder Comparato esperneou junto com ela. A "Folha de S. Paulo" respondeu candidamente, recordando que a ira dos dois professores, "figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela vigente em Cuba, é obviamente cínica e mentirosa".
Maria Victória Benevides cancelou sua assinatura da "Folha de S. Paulo" e disse que nunca mais aceitará se manifestar por meio do jornal. Fábio Konder Comparato acompanhou-a. Os outros colaboracionistas do regime publicaram um manifesto de apoio aos dois. Se eles cumprirem a promessa de nunca mais aparecer no jornal, todos nós sairemos ganhando. O melhor a fazer é tirar-lhes a voz, na "Folha de S. Paulo" e no resto dos jornais. Só assim Vichy cairá.

Fonte: Blog do Diogo Mainardi (Veja online)

domingo, janeiro 04, 2009

Diogo Mainardi

O país do Zé Pretinho

"O lulismo se especializou em surrupiar as glórias nacionais. Agora está tentando surrupiar a principal delas: o nosso longo histórico de alegre e sincera subalternidade. É bom lembrar: nós já éramos obstinadamente servis antes de Lula, e permaneceremos assim depois dele"

Lula - ?

É isso que consta na lista de pagamentos do empreiteiro Zuleido Veras, dono da Gautama, preso no ano passado. O nome de Roseana Sarney, que também faz parte da lista, é seguido por um número: 200 000. O nome do tio de Roseana, o "Gaguinho", é seguido por outro número, bem mais modesto: 30 000. E Lula? Lula, no momento em que a lista foi feita, no começo da última campanha eleitoral, ainda era um ponto a ser respondido. Um ponto particularmente importante, sublinhado. Ninguém sabe se Lula acabou recebendo algum número da Gautama. Pior: ninguém se interessou em saber. Duas semanas atrás, VEJA reproduziu a lista de pagamentos do empreiteiro, que está em poder da PF, contendo o nome de Lula. O resto da imprensa ignorou o assunto. O Congresso Nacional ignorou o assunto. Os leitores ignoraram o assunto.
A idéia de que é perfeitamente inútil continuar a denunciar Lula se alastrou por aí. Leio uns dez blogueiros amargurados por dia dizendo que ele é imune a tudo. Que o Brasil está rendido. Que está entorpecido. Que está em coma. Na falta de outros argumentos, esse acabou se transformando também no maior fator de orgulho para os lulistas. Eles sempre se gabam do fato de Lula conseguir manter-se imensamente popular a despeito de todas as ilegalidades de que é acusado. Mas esse é um grande embuste. E eu me recuso a aceitá-lo. O lulismo se especializou em surrupiar as glórias nacionais. Agora está tentando surrupiar a principal delas: o nosso longo histórico de alegre e sincera subalternidade. É bom lembrar: nós já éramos obstinadamente servis antes de Lula, e permaneceremos assim depois dele. Quem Lula pensa que é? Em 1937, Getúlio Vargas deu seu golpe de estado. Poucos meses depois, os sambistas se acotovelavam para determinar quem conseguia lamber as botas do ditador de maneira mais degradante:

Surgiu Getúlio Vargas,
O presidente brasileiro,
Que entre seus filhos
Como um herói foi o primeiro.

Essa marchinha foi composta por Zé Pretinho. Encontrei-a na página da internet do ministro da Propaganda de Lula, Franklin Martins, um dos maiores estudiosos do nosso cancioneiro político. É muito apropriado que, nestes últimos anos, Franklin Martins tenha se tornado um símbolo do adesismo da imprensa lulista, um Zé Pretinho do jornalismo. Recomendo uma atenta consulta à sua página. Há desde a ode à Petrobras ("Brasil, meu Brasil / Vais crescer ainda mais / Com a Petrobras") até a embolada em defesa da prática do nepotismo ("O meu irmão / Pru sê um moço de talento / Punha no Saninhamento"), que deve ser especialmente estimada por Franklin Martins.
Quando algum lulista vier importuná-lo ostentando a popularidade de Lula, pegue o bandolim e entoe o sambinha getulista:

Brasil, meu Brasil de verde mar,
Gigante que desperta de um sono secular.
Brasil, orgulho do brasileiro,
Tens no leme do teu barco
Um herói por timoneiro.

Fonte: veja online

Diogo Mainardi

Lula é PMDB

Lula é PMDB. É o que tenho a dizer sobre o resultado eleitoral do último domingo. Se o PMDB é um aglomerado de caciques, Lula é o cacique dos caciques, tendo repartido o território brasiliense em tribos, cada qual com seus costumes, com sua estrutura, com seu sistema de valores. Sobretudo isso: com seu sistema de valores. Se o PMDB é um emblema de fisiologia, Lula é seu maior representante, saltando alegremente de um lado para o outro, de acordo com as suas necessidades mais imediatas. Se o PMDB representa o poder local, Lula administra o governo da República como se fosse a prefeitura de Campina Grande. O PT perdeu no domingo, o PT foi ridicularizado no domingo, mas quem disse que Lula é do PT?
Uma idéia foi repetida continuamente nos últimos dias. A idéia de que é cedo para se pensar em 2010. Na realidade, o que políticos, banqueiros, empreiteiros e jornalistas pretendem fazer, a partir de agora, é apenas isso: pensar em 2010. Pode ser cedo para o eleitor comum, mas está mais do que na hora de firmar acordos, comprar aliados e leiloar apoios para a disputa presidencial. Por isso mesmo, é preciso descobrir qual será o papel de Lula. De um ano para cá, ele sempre deu a entender que bancaria a candidatura de Dilma Rousseff. Eu entendo sua escolha. Ele perdeu todos os outros candidatos. Só sobrou Dilma Rousseff. E se só sobrou Dilma Rousseff, ele tem de se arranjar com ela. Mas o que Lula realmente espera obter com isso? Ele conhece o eleitorado. Por mais que eu me esforce, por mais que eu tente me desfazer de meus preconceitos, sou incapaz de imaginar como os eleitores poderiam votar em Dilma Rousseff. Ela tem aquele ar impaciente de funcionária pública que se recusa a aceitar nosso documento porque a cópia tem de ser autenticada, e que aguarda ansiosamente a saída do trabalho para poder fazer sua aula de rumba. Imagino que Lula saiba que uma candidata dessas nunca será eleita.
É nesse ponto que surge o Lula peemedebista. Como todos os peemedebistas, ele tem um projeto pessoal, muito mais do que um projeto partidário. Para ele, bem mais importante do que eleger um sucessor petista é garantir que seus interesses pessoais sejam atendidos pelo novo governo. Seu maior interesse, hoje, é assegurar uma passagem de poder sem conflitos, sem ressentimentos, para que seu sucessor nem pense em importuná-lo mais adiante, fazendo uma devassa pública de suas contas, ou punindo os membros de seu círculo íntimo, ou afastando seus homens da máquina estatal. Se Lula concluir que a derrota eleitoral em 2010 é certa, sua melhor candidata é Dilma Rousseff. Ele poderá se engajar em sua campanha, mas sem ter de se imolar por ela, indispondo-se com seus opositores. Lula precisa negociar o futuro de sua tribo. Ele é PMDB. Por isso, acabará ganhando, mesmo se perder.

Fonte: veja online

Diogo Mainardi

Protógenes, o carcereiro de Dantas

Protógenes Queiroz se candidatou à vaga de carcereiro de Daniel Dantas. Meus cumprimentos. Ele está certo. A cadeia é um bom lugar para ambos. Tanto faz se dentro ou fora das grades.
Só tenho uma dúvida: quem permanecerá com a chave da cadeia enquanto Protógenes Queiroz estiver viajando pelo mundo, com todas as despesas pagas pela CBF? Porque Protógenes Queiroz, algumas semanas atrás, visitou Rússia, Suiça e Inglaterra, como um parasita no intestino do ponta-direita do ABC de Natal, agregado à comitiva da CBF. A mesma CBF, por sinal, que foi investigada por ele em 2005, no caso da "Máfia do Apito", denunciado por VEJA. Me pergunto singelamente: será que, em 2011, Protógenes Queiroz estará viajando pelo mundo com todas as despesas pagas pelo Opportunity?
Daniel Dantas está acabado. Ele merece. Mas para quem, como eu, acompanhou suas artimanhas desde o estouro do mensalão, o resultado do inquérito a seu respeito, pelo menos até agora, é escandalosamente frustrante. Daniel Dantas não se tornou Daniel Dantas por ter corrompido um policial ou por ter reciclado dinheiro sujo. Isso um monte de gente faz. Daniel Dantas é Daniel Dantas apenas por causa de sua promiscuidade com a política. Primeiro, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Depois, durante o governo de Lula, quando o PT se dividiu ao meio, entre a sua turma e a turma da Telecom Italia, uma em guerra com a outra, uma cobrando mais caro do que a outra.
Onde foi parar a política no inquérito sobre Daniel Dantas? Protógenes Queiroz, apesar de seu primarismo debilitante, apesar de sua palermice gangrenosa, apesar de sua falsidade caluniadora, apesar de sua desonestidade rudimentar, era acumpliciado com uns tipinhos perturbados que tinham interesse em mandar recados oblíquos para o governo. Nesse ponto, seu relatório era melhor do que o dos policiais que foram postos em seu lugar. Se os arapongas engajados por ele tivessem dedicado mais tempo à compra da Brasil Telecom pela Oi, e menos tempo descarregando material pornográfico da internet, como os arquivos "Boqueteira" e "Jussara", conforme o que a PF encontrou nos computadores da Abin, certamente teríamos mais notícias sobre os esquemas bilionários envolvendo Daniel Dantas e o poder público.
Mas duvido que Protógenes Queiroz quisesse encontrar mais notícias sobre o envolvimento de Daniel Dantas com o poder público. O que ele realmente queria era mais simples do que isso: ter a chave da cadeia, para poder decidir quem ficava do lado de dentro e quem ficava do lado de fora, de acordo com suas necessidades mais urgentes. Quanto ao parasita no intestino do ponta-direita do ABC de Natal, recomendo um tratamento à base de Quinacrina.

Font: veja online

Diogo Mainardi

Capitu traiu

"Até você, cara - o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor - e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou crítico negou o adultério?"
Acabo de citar Dalton Trevisan. "Dom Casmurro" é um tema recorrente em seus livros. Em particular, a obtusidade de quem enxerga um enigma onde "enigma não há". Dalton Trevisan achincalha a professorazinha que emporcalha a obra de Machado de Assis, espalhando por aí que a grandeza de "Dom Casmurro" está justamente na incerteza sobre o adultério cometido por Capitu. Incerteza? Que incerteza? O romance só faz sentido com o adultério. Sem ele, é um mau romance. Ou, citando mais uma vez Dalton Trevisan: "Se a filha do Pádua não traiu, Machadinho se chamou José de Alencar."
Desde 1960, quando a brasilianista Helen Caldwell publicou um estudo sobre "Dom Casmurro", difundiu-se estupidamente a idéia de que Bentinho é um narrador suspeito. Nesse caso, o adultério de Capitu com Escobar teria sido apenas uma fantasia, fruto de sua mente enlouquecida pelo ciúme. O problema dessa idéia é o seguinte: desconfiar de Bentinho significa desconfiar de Machado de Assis. Bentinho - o Bentinho de Machado de Assis - é um narrador perfeitamente ponderado. Os fatos relatados por ele pertencem a um passado remoto. Ele descreve os eventos de sua vida com um distanciamento absoluto. Quando conta sua história, os protagonistas da trama, Capitu, Escobar e Ezequiel, o filho bastardo, já morreram. Seu cíume desapareceu completamente. É só uma lembrança longínqua. O Bentinho do tempo presente, que narra em primeira pessoa, sabe dizer o que é realidade e o que é fantasia. Mais do que isso: ele é capaz de analisar todo aquele seu processo de enlouquecimento provocado pelo adultério. Com o passar dos anos, sua mágoa e seu desespero se transformaram num estranhamento irônico.
Bentinho resolve escrever suas memórias por tédio, para tentar ocupar o tempo. Em nenhum momento ele parece querer acertar as contas com Capitu. Depois de terminar "Dom Casmurro", ele se prepara para escrever outro livro: uma história dos subúrbios. Essa é a chave para compreender o romance. Olhando para trás, Bentinho se dá conta da mesquinharia de sua vida, de sua sociedade, de seu tempo. O que, no passado, tinha um aspecto mítico, como o adultério de Capitu, revela agora toda a sua miudeza. No auge de sua loucura, Bentinho se compara a Otelo. Mas o paralelo com o herói shakespeareano é usado por Machado de Assis apenas como contraponto para ridicularizar seu protagonista. Otelo está para Bentinho assim como os heróis dos romances de cavalaria estão para Dom Quixote. Vinte anos depois de "Dom Casmurro", James Joyce usou o mesmo recurso em "Ulisses". Se a Penélope de Homero é um paradigma de fidelidade, a Penélope de Joyce é a irlandesa adúltera, promíscua.
Capitu traiu Bentinho. E ela traiu porque Machado de Assis, em "Dom Casmurro", tinha um propósito: transmitir o legado de nossa miséria.

Fonte: veja online

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Dogo Mainardi - 03/12/2008

Os blogs e podcasts morreram
"Acabou aquela história de escrever palavrão nas paredes dos mictórios públicos. Blogueia-se, ao invés". O autor da analogia é Ivan Lessa, em sua coluna na BBC. Pergunto: como é que alguém pode continuar a bloguear depois disso? Pergunto também: como é que alguém pode continuar a podcastear? Os blogs morreram. Os podcasts morreram. É melhor fechar a braguilha e fugir envergonhado desse ambiente escatológico, degradante.
Ivan Lessa associa os blogueiros "àqueles tipos estranhos, infelizes e solitários, que escreviam para os jornais e revistas parabenizando pela reportagem ou indignados com a permanência na equipe do colunista Fulano de Tal". Eu já fui esse colunista Fulano de Tal. Com o tempo, os blogueiros - esses tipos estranhos -, acabaram se acostumando comigo. E passaram a reagir indignadamente à permanência na equipe de outros colunistas Fulanos de Tal.
O mais recente é Vinicius Torres Freire, colunista Fulano de Tal da Folha Online. Num artigo, ele acusou Lula de racismo, por ter declarado que, no Brasil, a "mistura de europeu, índio e negro permitiu que nascesse um povo mais criativo, mais esperto do que a média". A frase de Lula é racista. Vinicius Torres Freire está certo. Independentemente disso, ele foi coberto de insultos por parte dos blogueiros lulistas, que o atacaram por ser "paulista", "da elite branca", do "partido da imprensa golpista" e da "Opus Dei". Disseram também que ele tinha "ódio dos pobres". Até outro dia, essas ofensas eram dirigidas apenas a Reinaldo Azevedo e a mim. Agora elas se espalharam, para desespero de Vinicius Torres Freire, que certamente tem uma tremenda ojeriza a ser visto em nossa companhia.
Ivan Lessa matou o blogueiro amador. Falta matar o blogueiro profissional. Eu o vejo como um Gigi Baggini. Estou pensando especificamente em cinco blogueiros. Cinco, talvez seis. Gigi Baggini, interpretado por Ugo Tognazzi, é um personagem do filme Io la Conoscevo Bene. Ator de terceira linha, com a carreira acabada, ridicularizado por todos, Gigi Baggini se humilha sapateando numa festa, para tentar conseguir um papel num filme inexistente. Ele é como esses blogueiros profissionais, velhos jornalistas de terceira linha, com a carreira definitivamente acabada, que se humilham sapateando em cima de mesinhas para tentar obter uma ponta na imprensa de verdade. Seria melhor se escrevessem palavrão nas paredes dos mictórios públicos.

Fonte: veja online

sexta-feira, novembro 21, 2008

Diogo Mainardi

Kaká contra Protógenes Queiroz

A viagem de Lula à Itália caducou. Ocorreu mais de uma semana atrás. Além disso, Lula já faz parte do passado, como Café Filho. De agora em diante, até o fim do mandato, sua única meta será tentar se acertar com o futuro governo, para que ninguém o amole com assuntos aborrecidos, como seus gastos com cartões de crédito em viagens internacionais. Mas a passagem festiva de Lula pela Itália ajudou a retratar o Brasil, e por isso merece um comentariozinho.
Ao desembarcar em Roma, no aeroporto de Ciampino, Lula foi oficialmente recebido, em nome do governo italiano, por Mara Carfagna, a ministra das Oportunidades Iguais, cargo que corresponde, no Brasil, ao de secretária das Mulheres. É como se o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, fosse recebido em Brasília por Nilcéa Freire.
Sei lá se o episódio foi noticiado pela Radiobrás e pela TV Brasil, que mandaram correspondentes com a comitiva de Lula, mas o resto da imprensa brasileira relatou que Silvio Berlusconi foi duramente criticado por essa escolha. O principal partido de esquerda da Itália, o Partido Democrático, soltou a seguinte nota: "É inaceitável que o líder do maior país da América Latina não tenha sido recebido pelo ministro das Relações Exteriores ou qualquer outro ministro do mesmo nível".
Na cobertura dos fatos, só ficou faltando o essencial: um perfil iconográfico de Mara Carfagna. O Youtube está cheio de imagens dela. Dei uma espiada rapidinha e o mais completo me pareceu este aqui, com acompanhamento musical tipicamente italiano. Isso mesmo: o hip-hop é mais tipicamente italiano do que a tarantella. A Itália só tem cantor de hip-hop.
Num momento em que Lula fazia de tudo para aumentar seu cacife internacional, à véspera do encontro do G-20, Silvio Berlusconi, com sua característica fanfarronice, involuntariamente reduziu o presidente brasileiro ao seu aspecto mais desimportante, mais circense, mais espalhafatoso, mais retrógrado, mais bananeiro.
Silvio Berlusconi fez mais do que isso: organizou um encontro de Lula com os jogadores brasileiros de seu time, o Milan. Em seguida, declarou que um desses jogadores, Kaká, quando parar de jogar bola, pretende seguir a carreira política. Já dá para antecipar a disputa presidencial de 2020. De um lado, Kaká, guiado pela bispa Sonia e por Zé Maria. Do outro lado, o delegado Protógenes Queiroz, guiado pelo bando da banda larga, formado pelos jornalistas pernas-de-pau que foram expulsos da grande imprensa e agora ganham uns trocados na várzea da internet. O novo presidente terá o privilégio de ser recebido na Itália por um representante de terceiro escalão da primeira-ministra Mara Carfagna.


Fonte: veja online

segunda-feira, novembro 10, 2008

Diogo Mainardi


Como foi que eu me tornei um Nando Mericoni?


Nando Mericoni é o personagem de Alberto Sordi em Um americano em Roma. Nota de rodapé número 1: o filme é de 1954. Nota de rodapé número 2: foi feito por Steno, um dos diretores mais subestimados de todos os tempos, aquele que fez os melhores filmes de Totó. Nota de rodapé número 3: um de seus roteiristas é Ettore Scola, bem antes de os franceses o estragarem, convencendo-o a abandonar a comédia. E agora chega de notas de rodapé.


trama de Um americano em Roma é elementar. Aliás, já está perfeitamente resumida no título. Nando Mericoni, um inútil que mora com os pais num bairro popular de Roma, mitifica patologicamente os Estados Unidos. Seu sonho é se transferir para lá. Ele imita os americanos em tudo. Usa jeans e boné de beisebol. Prega nas paredes cartazes de Joe di Maggio. Com sua motocicleta, na periferia de Roma, finge ser um policial de Kansas City. Fala uma língua macarrônica, que mistura o dialeto romano com um ou outro termo equivocado em inglês.


Uma noite, Nando Mericoni chega em casa esfaimado. Em vez de comer a macarronada preparada pela "mommie", ele mistura num prato geléia, iogurte, mostarda e leite frio porque, segundo ele, comendo isso os americanos "Jim e Joe" derrotaram os apaches. Depois de cuspir enojado a primeira colherada, ele decide atacar impetuosamente a macarronada, com seus modos de caubói, dizendo: "Você me provocou, eu te destruo, macaroni. Verme, vou te comer". É uma das cenas mais manjadas - e mais reprisadas - da história do cinema italiano.


E eu? Como pude regredir tanto assim, passando do americanismo erudito de Tocqueville e Raymond Aron, de 20 anos atrás - ou de 25 anos atrás -, ao meu atual estilo Nando Mericoni? Quando enfiei o uniforme de policial de Kansas City e me transformei nessa espécie de americano em Ipanema? Os Estados Unidos haviam acabado de libertar a Itália de Nando Mericoni da tirania nazista. Hoje em dia, deve haver alguém igual a ele na periferia de Faluja, no Iraque, mascando chiclete e com bracelete de couro. O meu caso é mais peculiar. Com o empobrecimento do debate político, só me restou defender a imagem idealizada e simplificada do sistema americano. Sou o Nando Mericoni da geopolítica.


No fim de Um americano em Roma, o personagem de Alberto Sordi sobe no Coliseu e promete suicidar-se caso não o levem para os Estados Unidos. Eu estou como ele, metaforicamente pendurado no parapeito da janela, tentando migrar para um universo imaginário, onde Jim e Joe sempre derrotam os apaches.


Fonte: vejaonline

Diogo Mainardi

Barack Obama ganhou. Eu perdi

Barack Obama ganhou. John McCain perdeu. Eu perdi com ele. Estou acostumado a perder. Meus candidatos quase sempre perdem. Quando um deles ganha, sempre dá um jeito de me envergonhar imediatamente. Por isso, é melhor assim. É melhor perder.

Barack Obama ganhou de John McCain em praticamente todas as categorias sociais: eleitores com mais escolaridade, eleitores com menos escolaridade, negros, latino-americanos, mulheres casadas, mulheres solteiras. Ele só perdeu entre os homens brancos. Alguém muito tolo poderia acusá-los de racismo. Mas nos Estados Unidos o que acontece é exatamente o contrário: é o homem branco votar num candidato mulato apesar de acreditar que o candidato branco se sairia melhor no papel de presidente. Alguém muito tolo poderia imaginar que os homens brancos de Indiana, depois de fechar suas farmácias e suas lojas de ferramentas, colocam um capuz pontudo e saem por aí linchando os negros. Repito: alguém muito tolo. O debate racial nos Estados Unidos está mais para A Mancha Humana, de Phillip Roth, do que para O Homem Invisível, de Ralph Ellison. O que menos importa em Barack Obama é sua mulatice. Ele próprio acredita nisso. Ridiculamente, ele está sendo tratado por todos como um Nelson Mandela, e os Estados Unidos, como uma África do Sul dos tempos do "apartheid". Calma. Muita calma.

Em seu primeiro discurso, na noite em que foi eleito, Barack Obama se comprometeu a resolver todos os conflitos internacionais sem recorrer ao poderio militar americano. Se a Igreja Católica se arrependeu publicamente de ter queimado Giordano Bruno, agora os Estados Unidos se arrependeram publicamente de ter enforcado Saddam Hussein, o herege copernicano das arábias.

A imprensa americana errou na guerra do Iraque, publicando os relatórios passados pela Casa Branca e pelo Pentágono sem checá-los, sem apurá-los, sem investigá-los. Com Barack Obama, ela repetiu o mesmo erro. A imprensa pode apoiar um candidato, como apoiou Barack Obama, mas sem permitir que esse apoio interfira na cobertura dos fatos. O partidarismo dos jornais e das TVs contra os republicanos me incomodou tanto que, a certa altura, eu já estava defendendo apaixonadamente o Criacionismo.

Quando Barack Obama foi eleito, protestei dormindo com um abajur aceso. Pensei que meu ato ajudaria a derreter a calota polar, inundando a sala de estar de um ou dois colunistas do New York Times. Depois me lembrei que eu também moro no litoral. E desliguei o abajur. Fui derrotado. Outra vez

Fonte: vejaonline

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Diogo Mainardi

Lula, Freud e dinheiro sujo: tudo a ver
"Todos os rastros apontam para o mesmolugar: o Palácio do Planalto. Os golpistas que tramaramcontra os tucanos eram da turma do presidente. E tudoindica que o dinheiro que eles usaram veio de lobistas eempresários que tinham interesse no governo federal"
Estou todo embananado. Lula. Freud Godoy. Naji Nahas. Daniel Dantas. Telecom Italia. Telemig. Marcos Valério. Duda Mendonça. Delfim Netto. O que une um ao outro? O que é verdade? O que é mentira?
Ordenando os fatos:
1. A CPI dos Sanguessugas quer descobrir se Naji Nahas depositou 396.000 reais na conta da empresa do gorila particular de Lula, Freud Godoy.
2. Isso teria ocorrido em 5 de setembro, poucos dias antes de o comando da campanha de Lula ter sido flagrado tentando comprar o dossiê contra os tucanos.
3. O dinheiro que Naji Nahas teria repassado a Freud Godoy estava aplicado em cotas acionárias da Telemig. Até recentemente a empresa era controlada por Daniel Dantas.
4. A Telemig foi uma das maiores pagadoras de Marcos Valério.
5. Marcos Valério deu dinheiro a Freud Godoy.
6. Duda Mendonça tinha a conta de publicidade da Brasil Telecom, outra empresa controlada por Daniel Dantas.
7. Duda Mendonça também deu dinheiro a Freud Godoy. E recebeu ainda mais de Marcos Valério, lá fora.
8. Daniel Dantas e Naji Nahas trabalham juntos. Naji Nahas é o plenipotenciário da Telecom Italia no Brasil. Ele intermediou o acordo entre os italianos e Daniel Dantas.
9. VEJA noticiou que, em maio de 2003, a Telecom Italia deu 3 200 000 reais em dinheiro vivo a Naji Nahas. O dinheiro foi entregue a deputados da base lulista, segundo fontes da própria Telecom Italia.
10. Aqui na coluna contei que Naji Nahas, em 2002, arrecadou dinheiro ilegal para a campanha de Lula. Na época, defini Naji Nahas como a figura mais extravagante do lulismo.
11. A ponte entre Naji Nahas e Lula era Delfim Netto. O mesmo Delfim Netto que, como declarou Lula na última terça-feira, não foi eleito por "vingança de um conjunto de elitistas, porque defendia a nossa política".
Perdeu-se? Eu também me perdi. Muitas perguntas precisam ser respondidas pela CPI dos Sanguessugas. O dinheiro que Naji Nahas supostamente entregou a Freud Godoy seria usado para comprar o dossiê? Quem era o dono do dinheiro? O próprio Naji Nahas ou um de seus empregadores? Qual é o elo com o valerioduto? Por que Freud Godoy recebe dinheiro de tanta gente?
Estou embananado. Mas todos os rastros, de 1 a 11, apontam para o mesmo lugar: o Palácio do Planalto. Os golpistas que tramaram contra os tucanos eram da turma do presidente. E tudo indica que o dinheiro que eles usaram veio de lobistas e empresários que tinham interesse no governo federal.
Lula disse: "Esse menino não tem nada a ver com isso". O menino, no caso, era Freud Godoy. Se Lula disse, uma certeza a gente pode ter: é mentira. O menino tem tudo a ver com isso.

Fonte: Revista Veja edição 1978 de 18.10.2006

Diogo Mainardi

Lula é o PT
"Em 23 de março de 2004, um dia antes de Freud Godoy depositar 150 000 reais na conta de sua mulher, foram sacados 150 000 reais daconta da SMPB, de Marcos Valério, no Banco Rural. Tudo em moeda sonante. Tudo de origemdesconhecida. O saque no Banco Rural foi feito pelo policial aposentado Áureo Marcato"
O procurador-geral da República denunciou quarenta mensaleiros. O mais perto que ele chegou de Lula foi o 4º andar do Palácio do Planalto, ocupado por José Dirceu e seu bando. Agora ele terá de descer um lance de escadas e entrar diretamente no gabinete presidencial. Acompanhe-me, por favor. Cuidado com o degrau. Esta é a sala que pertencia a Freud Godoy, gorila particular de Lula. E aquela é a porta do escritório do presidente. Cerca de dez passos. Toc-toc-toc. Tem alguém aí? Lula saiu? A gente volta mais tarde.
Na última terça-feira, Garganta Profunda me passou os dados de um documento bancário de Freud Godoy, encaminhado pelo Coaf à Polícia Federal. Em 24 de março de 2004, ele depositou 150 000 reais na conta da empresa de sua mulher, Caso Sistemas de Segurança. Importante: 150 000 reais em moeda sonante. No documento bancário, Freud Godoy declarou que o dinheiro era fruto de "serviços prestados a clientes". Isso contradiz tudo o que ele alegou até agora. Num primeiro momento, disse que sacou os 150 000 reais para comprar equipamentos. Depois, informou que pediu um empréstimo a um amigo. Mentira. Não foi saque nem empréstimo: foi um depósito. O fato é que ninguém sabe de onde saiu tanto dinheiro e por que foi parar na conta do gorila particular de Lula.
Como Robert Redford em Todos os Homens do Presidente, arregacei as mangas da camisa e fui procurar respostas na capital federal. Pedi à CPI dos Correios para fazer o cruzamento dos dados do valerioduto com o depósito de Freud Godoy. Encontrei uma espantosa coincidência. Em 23 de março de 2004, um dia antes de Freud Godoy depositar 150 000 reais na conta de sua mulher, foram sacados 150 000 reais da conta da SMPB, de Marcos Valério, no Banco Rural. Tudo em moeda sonante. Tudo de origem desconhecida. O saque no Banco Rural foi feito pelo policial aposentado Áureo Marcato. Que voltou ao banco dois dias depois e sacou mais 150 000 reais. Onde foram parar?
Na época do depósito, Freud Godoy era assessor direto de Lula. Mas fazia um bico para o PT, montando o esquema de segurança de Delúbio Soares, que transportava malas de dinheiro sujo de um lado para o outro. Freud Godoy alugou para ele um carro blindado, comprou duas motocicletas para seus batedores e contratou uma escolta de seis policiais militares. Os 150.000 reais depositados na conta de sua mulher podem ter sido o pagamento pelo serviço. Os policiais contratados para escoltar o tesoureiro do PT contaram a VEJA que Freud Godoy, entre outras coisas, era encarregado de organizar os encontros secretos entre Lula e Delúbio Soares. Pode-se imaginar o que eles discutiam.
Lula está praticamente reeleito. Os brasileiros o perdoaram. Mas a bandidagem da qual ele se cercou continuará a rondá-lo para sempre. É assim que será recordado. Por mais que tente se esconder, Lula é o PT. Lula é Delúbio Soares. Lula é Marcos Valério. Lula é o golpismo do mensalão e do dossiê Vedoin. Abra a porta, Lula. Toc-toc-toc.


Fonte: Revista Veja edição 1979 de 25.10.2006

Diogo Mainardi

Thoreau contra o lulismo
"Lula pode ser o seu presidente. Meu ele não é.Meu senso de moralidade é superior ao dele. Lula é o chefe de uma junta de golpistas. Ele que fique com seus doleiros, com seus laranjas,com seus lobistas, com seus assessores, com seus jornalistas, com seus mensaleiros, comseus filhos, com seus gorilas, com seus bicheiros"
O Brasil é ruim. Irá piorar.
Eu sempre acreditei nisso. Acredito cada vez mais. O Brasil já era ruim antes de Lula. Com ele ficou ainda pior. Ninguém conseguiu evidenciar nossa ruindade com tanta clareza quanto ele. E ninguém deu tanta garantia de que tudo iria piorar.
O homem certo para este momento é Henry David Thoreau. Leia Thoreau. Releia Thoreau. Declame Thoreau em voz alta. É o melhor remédio para todos aqueles que foram atropelados pelo lulismo triunfante.
Thoreau era um abolicionista americano. Ele rejeitava a escravidão embora a maioria dos eleitores de seu tempo a apoiasse. Em seu principal ensaio, Sobre o Dever da Desobediência Civil, ele argumentou que há algo superior à vontade da maioria: é a moral de cada um. "Minha única obrigação é fazer em todos os momentos o que considero certo."
Mas recomendo Thoreau por outro motivo. Um motivo menor. Um motivo mais mesquinho. Recomendo-o apenas porque ele permite insultar pesadamente o eleitor mantendo uma certa pompa, um certo brilho. Thoreau disse: o eleitor é um cavalo. Ele disse também: o eleitor é um cachorro. Eu repito, citando Thoreau: o eleitor é um cavalo, o eleitor é um cachorro, o eleitor é um cavalo, o eleitor é um cachorro, o eleitor é um cavalo, o eleitor é um cachorro. Insulte o eleitor. Sem perder a pompa, sem perder o brilho.
Thoreau: Cavalo. Cachorro.
Thoreau defendeu o direito de repudiar a autoridade do governo. Eu sou o Thoreau dos pobres. O Thoreau bananeiro. Repudio a autoridade de Lula. Lula pode ser o seu presidente. Meu ele não é. Meu senso de moralidade é superior ao dele. Lula é o chefe de uma junta de golpistas. Referendá-lo significa referendar o golpismo. Cassei sua candidatura um ano e meio atrás. Unilateralmente. Ele que fique com seus doleiros, com seus laranjas, com seus lobistas, com seus assessores, com seus jornalistas, com seus mensaleiros, com seus filhos, com seus gorilas, com seus bicheiros.
A forma que Thoreau encontrou para repudiar a autoridade do governo foi simples e direta: recusou-se a pagar impostos por seis anos. Chegou a ser preso por causa disso. Só foi solto porque uma tia saldou seus débitos. A revolta fiscal é o melhor meio de protesto que há. Muito melhor do que passeata. Muito melhor do que comício. Quem gosta de muita gente aglomerada é lulista. Prefiro me reunir com meu contador em seu escritório mofado, arrumando maneiras mais eficientes para burlar o Fisco. Falta somente uma tia rica para me tirar da cadeia.
O lulismo precisa de dinheiro para funcionar. Dinheiro limpo e dinheiro sujo. Meu terceiro turno será combater a CPMF. Eu sei que é um combate pouco heróico. Mas alguém realmente esperaria gestos heróicos de mim? Abolindo a CPMF, sobrará menos dinheiro para financiar o golpismo lulista. E para comprar os eleitores.
Thoreau: Cavalo. Cachorro.

Fonte: Revista Veja edição 1980 de 01.11.2006

Diogo Mainardi

O delegado Moysésnão é isento
"Quem o nomeou para a chefia da PF de Piracicaba foi Francisco Baltazar da Silva. Baltazar foiobrigado a se afastar do cargo depois de ser acusadode envolvimento com o doleiro Toninho da Barcelona, ochamado doleiro do PT. Baltazar trabalhou como gorilade Lula, juntamente com Freud Godoy. A PF abafou o caso Freud Godoy. Moysés foi chamado para abafaro abafamento, dando um aperto em VEJA"
O delegado Moysés perseguiu VEJA. Dei o troco. Persegui o delegado Moysés.
Moysés Eduardo Ferreira é diretor da Polícia Federal de Piracicaba. O chefe da PF paulista, Geraldo Araújo, disse que ele foi trazido de Piracicaba para conduzir o caso Freud Godoy "justamente para fazer uma investigação isenta, distanciada". Como assim? O delegado Moysés pode ser tudo, menos isento e distanciado.
O prefeito de Piracicaba é Barjas Negri, ministro da Saúde tucano, acusado pelos fabricadores do dossiê Vedoin de receber propina da máfia dos sanguessugas. O delegado Moysés é encarregado de investigá-lo. Como ele pode ser isento? Como ele pode ser distanciado?
Quando o delegado Moysés assumiu o comando da PF de Piracicaba, o prefeito da cidade era o petista José Machado. Um sempre apoiou o outro. Um sempre prestigiou o outro. José Machado é recordado sobretudo por sua sociedade com o antigo chefe de Freud Godoy, Celso Daniel, numa empresa de consultoria que foi denunciada pelo Tribunal de Contas do Estado por seus contratos irregulares com prefeituras petistas. José Machado é recordado também porque um dos principais operadores da máfia dos vampiros, o lobista Laerte Correa Júnior, foi preso pouco antes de pagar um fornecedor de sua campanha à prefeitura.
Mas há algo pior do que isso. Em sua defesa do delegado Moysés, o diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, disse que ele tem "um compromisso com a verdade, sem partido". Paulo Lacerda está querendo enganar a gente. Ele sabe que o delegado Moysés pode ser tudo, menos apartidário. Quem o nomeou para a chefia da PF de Piracicaba foi Francisco Baltazar da Silva. Lembra dele? Francisco Baltazar é o predecessor de Geraldo Araújo no comando da PF paulista. Foi obrigado a se afastar do cargo depois de ser acusado de envolvimento com o doleiro Toninho da Barcelona, o chamado doleiro do PT. Francisco Baltazar trabalhou como gorila particular de Lula em quatro campanhas presidenciais, juntamente com Freud Godoy e José Carlos Espinoza. Em 2002, ele contratou o policial federal aposentado Gedimar Passos para ser guarda-costas de Lula. Isso mesmo, Gedimar Passos, aquele que foi preso com dinheiro para comprar o dossiê Vedoin e, antes de se retratar, denunciou Freud Godoy.
Como podem me acusar de tudo, menos de ser isento e distanciado, sugiro cruzar os números de telefone de Francisco Baltazar com os dados sobre as quebras de sigilo em poder da CPI dos Sanguessugas. Quem sabe aparece outro homem do presidente no golpe do dossiê.
A PF abafou o caso Freud Godoy. Agora o delegado Moysés foi chamado para abafar o abafamento, dando um aperto em VEJA. O plano lulista para a imprensa já está traçado: encher de dinheiro público os cupinchas e calar todo o resto. Para o lulismo, jornalista bom é jornalista jabazeiro. Há muito jornalista jabazeiro por aí. Eu mesmo estou sendo processado por um monte deles. Se o plano falhar, o PT sempre pode recorrer ao delegado Moysés e sua turma. A milícia lulista está pronta para agir, com óleo de rícino para todo mundo. Até alguém morrer.

Fonte: Revista Veja edição 1981 de 08.11.2006

Diogo Mainardi

Lula entende de Matisse
"O investimento do lulismo na Bandeirantes cresceu anormalmente qualquer que seja o critério adotado. Depois que a programação do Canal 21 passou para o controle da empresado filho do presidente, o crescimento foi ainda maior. Lula dá cada vez mais dinheiro à agência Matisse, que dá cada vez mais dinheiro à Bandeirantes, que deu um canal ao filho de Lula"
Entre Deus e Lula, Lula é melhor. Pelo menos para a Rede Bandeirantes. No começo do ano, o bispo R.R. Soares tentou comprar o Canal 21. A Bandeirantes preferiu ceder o negócio à Gamecorp, a empresa do filho de Lula. De lá para cá, segundo os dados do Ibope Monitor, os gastos em propaganda estatal na Bandeirantes aumentaram sem parar. Em 2005, foram 113 milhões e 181 000 reais. Em 2006, só até setembro, atingiram 151 milhões e 593 000 reais. Um salto de 40 milhões de reais. Quem precisa de Deus podendo contar com um parceiro desses?
É moleza manipular os números do mercado publicitário. Por isso a propaganda virou o instrumento ideal para a reciclagem de dinheiro sujo da política. Mas o fato é que o investimento do lulismo na Bandeirantes cresceu anormalmente qualquer que seja o critério adotado, tanto em cifras absolutas quanto no cotejo com as demais emissoras. Do total destinado pelo governo à propaganda televisiva, a fatia da Bandeirantes subiu mais de 50% de um ano para o outro. Considerando-se apenas o período de maio a setembro, depois que a programação do Canal 21 passou para o controle da empresa do filho de Lula, o crescimento foi ainda maior: 60%. Curiosamente, o único dado que permaneceu igual foi a audiência. Nesse ponto, a Bandeirantes ficou estacionada, como sempre.
Se o Brasil fosse menos bananeiro, a imprensa, os partidos políticos e a Justiça se perguntariam se há algum elo entre os negócios do filho do presidente e o aumento da propaganda estatal na emissora de seus parceiros. Como o Brasil é o que é, o assunto será ignorado. Mesmo que um dos maiores aumentos tenha ocorrido justamente na verba publicitária da Presidência da República, de responsabilidade direta do gabinete de Lula. Em 2005, a Bandeirantes recebeu 5 milhões e 871 000 reais do Palácio do Planalto. Em 2006, até setembro, incluindo o período de recesso eleitoral, foram 10 milhões e 28 000 reais. Quase o dobro.
A agência que cuida da publicidade da Presidência da República é a Matisse. A Matisse nasceu numa sala dos fundos da M7, a produtora de Kalil e Fernando Bittar, sócios do filho de Lula na Gamecorp. O mercado até suspeita que eles sejam sócios ocultos da agência. A verba que o gabinete de Lula destina à Matisse aumenta todos os anos. Foram 3 milhões e 687 812 reais em 2003. 36 milhões e 941 315 reais em 2004. 37 milhões e 882 635 reais em 2005. 59 milhões e 858 210 reais em 2006. O número de 2006 reúne os gastos até setembro, mas o governo já autorizou um acréscimo de 37 milhões de reais para os últimos meses do ano. A Matisse tem outras contas do governo. Coincidentemente, todos os seus clientes estatais passaram a anunciar mais na Bandeirantes. Entendeu o rolo? Lula dá cada vez mais dinheiro à Matisse, que dá cada vez mais dinheiro à Bandeirantes, que deu um canal ao filho de Lula.
O TCU acaba de apontar um buraco de mais de 100 milhões de reais na publicidade do governo federal. O ministro Ubiratan Aguiar chegou a defender o fim da publicidade institucional. Sorte de Lula o Brasil ser o que é.

Fonte: Revista Veja edição 1982 de 15.11.2006

Diogo Mainardi

Mino Carta, o grande
"Em mais de uma oportunidade, na frentede amigos comuns, Mino Carta repetiu aosberros que recebi um merecido castigo quandotive um filho deficiente. Até hoje, fui incapaz deexperimentar angústia e tristeza por causade meu filho. Ele só me deu prazer e felicidade"
Não se aborreça com Diogo Mainardi, afinal o máximo que o cidadão produz com perfeição é paralisia cerebral.
O comentário foi publicado no blog de Mino Carta. Para quem não é afeito a sutilezas, refere-se à paralisia cerebral de meu filho. Na última semana, Mino Carta publicou 433 mensagens contra mim. De acordo com ele, outras 106, consideradas "inaceitáveis, prontas à agressão", foram eliminadas. A mensagem sobre meu filho foi uma das que Mino Carta aprovou pessoalmente e que o encheram de emoção, reverberando, segundo suas palavras, "na zona situada entre o coração e a alma, como um Stradivarius ou um Guarnieri del Gesù".
Mino Carta selecionou outras mensagens sobre meu filho:
Diogo Mainardi é um infeliz e digno de pena. Ter um filho deficiente dá mais pena ainda, porque isso fez dele uma pessoa amarga, invejosa e sem escrúpulos.
A opinião da leitora reflete exatamente a de Mino Carta. Em mais de uma oportunidade, na frente de amigos comuns, ele repetiu aos berros que recebi um merecido castigo quando tive um filho deficiente. Em seu blog, na segunda-feira, ele ampliou o conceito, fazendo considerações sobre aquele que seria meu "filho muito doente":
Meninos doentes me causam angústia e tristeza, [mas] não justificam calúnias dirigidas a esmo.
É um perfeito exemplo da grandeza moral de Mino Carta. Até hoje, por uma insuperável falha de caráter, fui incapaz de experimentar angústia e tristeza por causa de meu filho. Ele só me deu prazer e felicidade. Da mesma maneira que meu segundo filho só me deu prazer e felicidade. Filho é filho: com paralisia cerebral ou sem paralisia cerebral.
Mas o ponto que realmente me incomoda é outro. Mino Carta transformou uma questão pública numa questão particular. Não ligo para xingamentos. No próprio blog de Mino Carta, fui chamado de calhorda, canalha, sodomita, verme, nazista, psicopata, brinquedinho de Gore Vidal e excremento social. Um comentarista chegou a afirmar que recebi 500.000 reais para plantar notas favoráveis a Daniel Dantas. Estou acostumado a lidar com xingamentos. Fazem parte do trabalho. Compreendo até que ofendam meus filhos. Tanto um quanto o outro. Considero a ofensa pessoal um instrumento retórico legítimo. Não me queixo. Não me escandalizo. Não processo. Quem processa é Mino Carta, que corre para seu advogado choramingando toda vez que recebe um juízo depreciativo. Só não aceito que minha opinião política seja convertida em assunto familiar. Responsabilizar meu filho por meus atos é um gesto de pura poltronice intelectual.
Mino Carta representa o modelo de jornalismo que o governo Lula quer favorecer por meio de financiamento estatal. Sempre que o citei na coluna, associei-o à verba publicitária que o governo Lula destina à Carta Capital. Mino Carta garante que serve a Lula de graça. Assim como, por muitos anos, serviu a Orestes Quércia de graça. Deve ser angustiante e triste não ser recompensado por tanta serventia.

Fonte: Revista Veja edição 1983 de 22.11.2006

Diogo Mainardi

A imprensa lubrificada
"Dudu Godoy é sócio da agência queatende a Petrobras. Hamilton Lacerdarecebeu uma chamada do celular de Dudu.O que ele disse a Hamilton? Propôs umpacote publicitário para a IstoÉ?"
Quando a IstoÉ publicou a entrevista com o chefe dos sanguessugas, sugeri que ela poderia ser recompensada com anúncios da Petrobras. Ninguém deu bola para o assunto. Na ocasião, indiquei o nome dos intermediários: Hamilton Lacerda, assessor de Aloizio Mercadante, e Wilson Santarosa, diretor de marketing da Petrobras. Agora a CPI dos Sanguessugas revelou que os dois trocaram dezenas de telefonemas no período de negociação do dossiê contra os tucanos. A CPI quer saber se o dinheiro para comprar o dossiê saiu da Petrobras. É perda de tempo. O que a CPI deveria investigar é se o dinheiro da Petrobras foi usado para comprar a cumplicidade da IstoÉ.
Na última quarta-feira, encontrei mais um dado comprometedor para a Petrobras. Analisando os telefonemas de Hamilton Lacerda, em poder da CPI, descobri que ele recebeu uma chamada do celular de Dudu Godoy. Dudu Godoy é um dos sócios da Quê, a agência de propaganda que atende a Petrobras e controla a verba publicitária da empresa. O telefonema de Dudu Godoy para Hamilton Lacerda ocorreu em 5 de setembro, às 15h33. Dois dias depois, em pleno feriado de 7 de setembro, Hamilton Lacerda foi à IstoÉ para combinar a entrevista com o chefe dos sanguessugas. Dudu Godoy fez carreira em Campinas, assim como Wilson Santarosa, que presidiu o sindicato dos petroleiros local. Em 1998, ele foi um dos marqueteiros da campanha de Lula à Presidência. A seguir, passou a trabalhar para Marta Suplicy e Zeca do PT. O que é que Dudu Godoy disse a Hamilton Lacerda? Ele propôs um pacote publicitário para a IstoÉ?
Um dos articuladores da entrevista com o chefe dos sanguessugas disse que a IstoÉ foi escolhida para publicá-la porque os petistas "estavam em guerra" com o resto da imprensa. Quem também está em guerra com o resto da imprensa é o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli. Na semana passada, ele acusou o Globo e a Folha de praticar "jornalismo marrom". Isso porque os jornais ousaram publicar reportagens mostrando o favorecimento da estatal a ONGs e empreiteiras ligadas ao PT. O Globo, em editorial, atacou: "Nunca como no governo Lula a Petrobras foi tão usada como aparelho partidário e instrumento de propaganda".
O fato é que a Petrobras não favorece apenas ONGs e empreiteiras ligadas ao PT. Ela favorece também a imprensa caudatária do governo. De maio a setembro de 2006, segundo o levantamento de Reinaldo Azevedo, a IstoÉ veiculou 58 páginas de anúncios da Petrobras. Neste ano, pelos dados do Ibope Monitor, foram 2,6 milhões de reais investidos pela estatal na IstoÉ. Carta Capital lucrou ainda mais, proporcionalmente à sua tiragem. Foram 789.000 reais. Na TV aconteceu algo semelhante. A Bandeirantes, depois de ceder um canal ao filho de Lula, tornou-se a segunda maior arrecadadora de comerciais da Petrobras, na frente do SBT e da Record, faturando mais de 20% do total destinado pela empresa às emissoras de TV. Detalhe: o diretor de marketing da Petrobras, Wilson Santarosa, é também o presidente do conselho deliberativo da Petros, o fundo de pensão da Petrobras. Um de seus colegas na diretoria da Petros, Jacó Bittar, é o pai dos sócios do filho de Lula.
O petismo está em guerra com a imprensa. Esse negócio vai acabar mal.

Fonte: revista veja edição1984 de 29.11.2006