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domingo, janeiro 13, 2013

Insegurança jurídica- 10.01.2013- Merval Pereira


Temos vivido nos últimos tempos na América Latina situações de insegurança jurídica que colocam a democracia em perigo, mesmo onde ela é apenas uma aparência, como na Venezuela. No Brasil, à medida que surgem grupos políticos à frente de outros poderes colocando em dúvida a capacidade do Supremo Tribunal Federal de ser a última instância na definição do que é ou não constitucional, passaremos a fazer parte de um grupo de países que seguem a Constituição de acordo com suas conveniências políticas.
O fato de que qualquer dos candidatos à presidência da Câmara não pode admitir que cabe ao Supremo a última palavra sobre a perda dos mandatos dos parlamentares condenados no processo do mensalão é sinal de fragilidade de nossas instituições, mesmo que o mais provável seja que qualquer um deles, eleito, mudará de posição para evitar uma crise institucional. Pelo menos, essa é a torcida.
Outra situação curiosa é a do Fundo de Participação dos Estados (FPE), que deveria ter sido alterado pelo Congresso até o último dia do ano passado, de acordo com decisão do Supremo de três anos atrás. Nada foi feito, e agora todos estão torcendo para que ninguém mexa no assunto a fim de deixar tudo do jeito que está. No dia 10 de janeiro (coincidência de datas para crises institucionais aqui e na Venezuela, como veremos adiante), o Tesouro Nacional tem que fazer os repasses das verbas para estados e municípios, mas corre o risco de estar cometendo uma ilegalidade.
O advogado-geral da União se encontrou ontem com o presidente do STF, Joaquim Barbosa, para sondá-lo a respeito do que fazer. Mas tudo de maneira informal, pois, se o Supremo for instado a opinar oficialmente, cria-se problema gravíssimo de falta de dinheiro na maioria dos beneficiários desses fundos. Como o STF é um poder que age só se provocado, não tem que sustar o pagamento. Mas todo mundo sabe que ele não deveria acontecer. Todos fingirão não estar vendo a burla, na esperança de que a crise institucional desapareça por encanto.
Da mesma maneira, nossa política externa dá sinais de que toma decisões com base em interesses políticos regionais, como agora com a situação da Venezuela. Um curioso caso de autogolpe está em desenvolvimento naquele país sem que nenhum passo tenha sido dado para evitar que o mais recente membro do Mercosul fira a cláusula democrática. Impossibilitado de comparecer à Câmara para tomar posse do novo mandato, a 10 de janeiro, o presidente Hugo Chá-vez, internado em Cuba e aparentemente em estado terminal, pode continuar presidindo o país sem mesmo saber o que está acontecendo, graças a uma manobra que seus seguidores estão armando na Venezuela. E por que os chavistas temem enfrentar o futuro sem a presença física de seu líder?
Não parece provável que a oposição tenha condições de vencer as próximas eleições, mas, ao que tudo indica, as forças chavistas não estão suficientemente unidas para enfrentar as urnas. A oposição venezuelana é parecida com a brasileira, é organizada eleitoralmente quando se trata de eleição para presidente, mas não tem capacidade de atuação política congressual.
Na Venezuela, a oposição teve boa votação na última disputa presidencial com Henrique Caprilles, para em seguida perder em 20 dos 23 estados. A ausência física de Chavez em uma eventual eleição não deve favorecer a oposição, mas os chavistas tentam adiar ao máximo esse desfecho fazendo interpretações mirabolantes de uma Constituição aprovada por eles mesmos. Ao contrário do Brasil, onde a maioria dos juízes foi indicada pelos governos petistas e demonstrou independência, na Venezuela a Suprema Corte é dominada pelo chavis-mo e segue à risca suas orientações.
Tudo parece indicar que, diante da realidade de uma ausência permanente do líder, as diversas alas do bolivarianismo se debatam internamente, prenunciando o início do fim do movimento que dominou o país nos últimos anos. Enquanto não forem obrigadas a encarar a realidade, querem fingir que o “Comandante” continua no poder. E seu sucessor escolhido, o vice-presidente Nicolas Maduro, ficará no poder “de facto” para disputar a eleição “no cargo” visto pelo eleitorado como o novo Comandante. E a Constituição que se dane.
Fonte: O Globo, 08/01/2013
Instituo milenium- www.imil.com.br

O fantasma de Chávez e o regime real


Hugo Chávez não planejou sua doença ou eventual morte. São coisas para mortais. Caudilhos e czares como Chávez e Vladimir Putin são para sempre.  Agora o roteiro boliviariano enfrenta o choque de realidade. Ao contrário do Partido Revolucionário Institucional, do México, o PRI, a autoridade na Venezuela parece coisa de fantasma depois da posse que não aconteceu de Chávez para um terceiro mandato na quinta-feira. Houve a farsa grotesca da posse simbólica. O presidente continua internado em Havana e ninguém sabe exatamente qual é o seu estado de saúde. O da Venezuela é sofrível.
No sistema mexicano que vigorou por 71 anos ininterruptos, até 2000, o poder era transmitido metodicamente de um presidente para outro. Mandato único de seis anos. O mandatário tinha poder, mas o sistema muito mais. Depois de deixar o cargo, o ex era até vilipendiado pelo sucessor. Assim, havia uma aparência de renovação no sistema. Na expressão lapidar de Mario Vargas Llosa, O PRI forjou a ditadura perfeita. Tudo tão eficiente, que, após um intervalo, o PRI está de volta ao poder com Enrique Peña Nieto, num México que pode ser hoje definido como uma democracia imperfeita.
A Venezuela de Hugo Chávez é a ditadura imperfeita e o caudilho, um fantasma. Não o regime. Ele assusta, mas por ser real. Existem, é verdade, as facções, representadas pelo vice Nicolás Maduro e pelo presidente do Congresso, Diosdado Cabello. A curto prazo, Maduro deverá prevalecer, pois o regime precisa de um mínimo de ordem, especialmente para não dar espaço à oposição.
Cabello é um ex-oficial do Exército (companheiro de Chávez no golpe fracassado de 1992). Ele representa a ala militar do regime, mas não tem o comando direto de tropas. Recentemente, Chávez realizou promoções para diluir o poder de outros oficiais com muito tempo de serviço. No entanto, vários militares da reserva (e na lista estão quatro ex-ministros da Defesa) são governadores, como parte de uma composição de poder com a ala civil do regime.
As alas, claro, estão unidas para dificultar ao máximo a eleição presidencial de um antichavista (e eleições em algum momento precisarão ser convocadas, pois não dá para manter para sempre a farsa da “continuidade administrativa” de Chávez). Existem vários círculos de resistência, como a Milícia Bolivariana, um corpo paramilitar, exército pessoal do caudilho, hoje com apenas 30 mil efetivos, mas com algumas unidades bem equipadas e que pode ser ampliada para até 100 mil integrantes.
Também preocupante é um dos pilares de sustentação de Maduro, Havana, a outra capital da Venezuela. São mais de 60 mil expedicionários no país, entre civis e militares. O aparato de poder, intimidação e o sistema de benesses sociais do chavismo compensam em parte a ausência de carisma dos lugares-tenentes do caudilho.
Mas se trata de uma ditadura imperfeita, ainda formalmente sob o comando de um fantasma, com o desafio de consumar a revolução institucional. Para a oposição, será preciso habilidade, paciência e coragem para combater fantasmas e um regime real. A meta será romper a continuidade administrativa do chavismo.
Caoi Blinder
Fonte: veja online

segunda-feira, junho 25, 2012

A grande renúncia- 25/06/2012

Entre os economistas versados em história, a simples menção a determinados anos suscita arrepios. Por exemplo, três anos atrás Christina Romer, então chefe do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Barack Obama, recomendou aos políticos que não reencenassem 1937. Este foi o ano em que Franklin Delano Roosevelt passou, muito antes da hora, de estímulo fiscal para austeridade, mergulhando de volta na recessão a economia que estava em processo de recuperar-se dela. Infelizmente, o conselho dela foi ignorado.

Agora, porém, ando ouvindo mais e mais sobre um ano ainda mais fatídico. De repente, economistas normalmente calmos estão falando em 1931, o ano em que tudo desabou.
Tudo começou com uma crise bancária num país europeu pequeno (a Áustria). A Áustria procurou acudir com um resgate aos bancos, mas o custo crescente do resgate colocou em dúvida a solvência do próprio governo. Os problemas da Áustria não deveriam ter sido suficientes para ter efeitos importantes sobre a economia mundial, mas, na prática, geraram um pânico que se espalhou pelo mundo. Isso lhe soa familiar?
Mas a lição realmente crucial de 1931 disse respeito aos perigos da renúncia à tomada de medidas políticas. Governos europeus mais fortes poderiam ter ajudado a Áustria a gerir seus problemas. Os bancos centrais, especialmente o Banco da França e o Federal Reserve, poderiam ter feito muito mais para limitar os danos. Mas ninguém com poder de conter a crise tomou a iniciativa de fazê-lo; todos os que poderiam e deveriam ter agido declararam que era a responsabilidade de outros.
E isso está acontecendo de novo, tanto na Europa quanto na América.
Considere primeiramente como os líderes europeus vêm lidando com a crise dos bancos na Espanha (esqueça a Grécia, que é praticamente uma causa perdida; é na Espanha que o destino da Europa será decidido). Como foi o caso da Áustria em 1931, a Espanha tem bancos que enfrentam problemas e precisam desesperadamente de mais capital, mas o governo espanhol de hoje, como o governo austríaco da época, enfrenta questionamentos sobre sua própria solvência.
Então o que devem fazer os líderes europeus, que têm um interesse enorme em conter a crise espanhola? Parece óbvio que os países credores europeus precisam, de alguma maneira, assumir parte dos riscos financeiros com que os bancos espanhóis se defrontam. Não, a Alemanha não vai gostar disso --, mas, com a própria sobrevivência do euro em jogo, um pouco de risco financeiro deveria ser uma consideração de monta menor.
Mas não. A "solução" encontrada pela Europa foi emprestar dinheiro ao governo espanhol e dizer a esse governo que resgate seus próprios bancos. Os mercados financeiros não demoraram a entender que isso não soluciona nada --apenas deixa o governo da Espanha ainda mais afundado em dívidas. E agora a crise europeia está mais profunda que nunca.
Mas não nos limitemos a ridicularizar os europeus, já que muitos de nossos próprios políticos vêm agindo com irresponsabilidade igual. E não me refiro apenas aos republicanos no Congresso, que muitas vezes dão a impressão de estarem tentando sabotar a economia intencionalmente.
Falemos, ao invés disso, do Federal Reserve. O Fed tem um chamado mandado duplo: ele deve trabalhar tanto pela estabilidade dos preços quanto pelo emprego pleno. E na semana passada o Fed divulgou seu conjunto mais recente de projeções econômicas, mostrando que prevê fracassar nas duas partes de seu mandado, com inflação abaixo da meta e desemprego muito acima da meta por anos ainda por vir.
É uma perspectiva terrível, e o Fed sabe disso. Ben Bernanke, o presidente do Fed, avisou em especial sobre os danos causados ao país pelo nível sem precedentes de desemprego de longo prazo.
Então o que o Fed propõe fazer em relação ao problema? Quase nada. É verdade que na semana passada ele anunciou algumas ações que supostamente injetariam ânimo na economia. Mas acho que é justo dizer que todo o mundo que tem alguma familiaridade com a situação vê essas ações como sendo pateticamente inadequadas --o mínimo absoluto que o Fed poderia fazer para afastar as acusações de não estar fazendo nada.
Por que o Fed não quer agir? Meu palpite é que o banco está sendo intimidado por aqueles parlamentares republicanos; que tem medo de fazer qualquer coisa que possa ser vista como sendo uma ajuda política a Obama, ou seja, qualquer coisa que possa ajudar a economia. Talvez exista alguma outra explicação, mas o fato é que o Fed, assim como o Banco Central Europeu, assim como o Congresso dos Estados Unidos e como o governo da Alemanha, decidiu que evitar o desastre econômico é responsabilidade de outros.
Nada disso deveria estar acontecendo. Assim como em 1931, os países ocidentais possuem os recursos de que precisam para evitar a catástrofe e até mesmo para recuperar a prosperidade; e nós contamos com a vantagem adicional de saber muito mais do que sabiam nossos bisavôs sobre como ocorrem depressões e como pôr fim a elas. Mas conhecimentos e recursos de nada adiantam se aqueles que os possuem se recusam a usá-los.
E é isso o que parece estar acontecendo. As questões fundamentais da economia mundial não são tão assustadoras assim, por si sós; é a quase universal renúncia à responsabilidade que infunde medo crescente a mim e a muitos outros economistas.
Tradução de Clara Allain
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do jornal "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados. Escreve às segundas, no site da Folha, e aos sábados, na versão impressa de "Mundo".
Fonte: folha online

sábado, dezembro 24, 2011

Nostalgia do Inimigo-08/122011

O desafio de uma geração sem bode expiatório

08 de Dezembro de 2011 às 11:54

André Cunha
As gerações passadas lutavam contra inimigos reais, fossem cruéis ideologias políticas, como nazismo, fascismo ou comunismo, ou sinistras formas de governo, como a ditadura militar. Saber quem era O Outro ajudava a saber quem a própria pessoa era: sou aquela que luta contra Aquilo. A leitura política do mundo fica muito mais simples quando o inimigo tem um plano, uma plataforma e um braço armado pra lidar com quem ousa criticá-lo.
É recorrente entre os seres humanos da geração dos baby boomers (aqueles nascidos logo depois da Segunda Guerra Mundial) a idéia de que “naquele tempo as coisas eram diferentes” e que a juventude de hoje está “despolitizada.” Tudo parecia mesmo eletrizante nos anos 60: lutava-se contra a caretice da geração passada, contra os militares, contra o imperialismo soviético e norte americano. Até durante a “década perdida” (os anos 80) lutava-se contra inimigos igualmente discerníveis: a inflação e, pior ainda, a dívida externa.
Não é que tenhamos chegado ao “fim da história” como sugeriu o sociólogo Francis Fukuyama ao especular sobre as conseqüências do final da Guerra Fria. Mas sem dúvida hoje a banda toca em outro ritmo: Europa e Estados Unidos, em crise econômica e com altos índices de desemprego, passaram de vilões a coitadinhos. O “choque de gerações” já passou, e hoje minorias e desviantes estão na moda. Por fim, o Brasil quitou a dívida externa e, pra botar banca, ainda virou credor do fundo. A democracia voltou pra ficar. Cadê os vilões, agora?
O que seria senão quixotismo e nostalgia do conflito o ato de sair na rua pra fazer Marcha Contra a Corrupção, assim, de modo genérico? Uma coisa é a luta contra o corruptor e o corrompido. Outra é ser contra o conceito abstrato. Marchar contra isso tem algum efeito prático na sociedade?
Outra fantasia recorrente é defenestrar o Sistema, com S maiúsculo, ou, pior ainda, o Sistema Político. Descontentes com “tudo isso” estudantes invadem reitorias. Numa aula pública, um filósofo tenta psicanalizar o impsicanalisável: “Fala-se que movimentos dessa natureza não têm proposta. Eu posso citar pra vocês pelo menos umas cinco propostas extremamente precisas e claras.” E aí defende “investimentos na educação”, “mais impostos pros ricos, mais benefícios pros pobres”, “politização das decisões econômicas”, “estado do bem estar social” e outras pautas inéditas, além de criticar o sistema educacional chileno e o preço dos aluguéis em Tel Aviv.
Não são ideias novas. Assim como nenhuma pessoa razoável seria a favor da corrupção, nenhum mortal dotado de discernimento poderia atacar os postulados do Estado do Bem Estar Social e os benefícios que ele proporciona pra todos. Mais do que uma idéia, é um processo que vai evoluindo aos poucos. E vai continuar a evoluir, mesmo que a “direita troglodita do agronegócio”, outro bode expiatório pra todas as mazelas brasileiras, continue a sabotá-lo.
Como disse Lula, está todo mundo ganhando dinheiro no Brasil. Nessa altura do campeonato, não parece razoável levantar ressentimentos ou fazer proselitismo a favor dos pobres, que querem cada vez mais capitalismo (carro, geladeira, computador), e não o contrário. Mas não deixa de ser curioso ver o ministro dos esportes, comunista de carteirinha, organizar um evento que é a celebração e a apoteose da economia de mercado.
Essa falta de identificação com grandes bandeiras e ideologias já foi tema de certos estudos sociológicos, como os de Stuart Hall e seus correligionários. O sujeito “pós-moderno” ou que vive na “modernidade tardia”, como queiram, é antes de tudo um cínico e um desiludido. Vê com ceticismo os discursos populistas de ambos os espectros políticos e sabe que o “centro” acaba sendo o ponto de inflexão de vários vetores contraditórios.
Ainda assim, a vontade de ter um inimigo não desaparece. Talvez por isso, junto com a prosperidade econômica, venha a overdose de esporte a que estamos submetidos. Jovens espancam e são espancados em nome de um time de futebol, por exemplo. E há outros motivos ainda mais inusitados.
Fonte:Brasil 247

segunda-feira, dezembro 19, 2011

O sinistro efeito Palo Alto e as ditaduras - 19/12/2011

Será que o Google enfim amadureceu? O cuidado com que a empresa vem tratando a tecnologia de reconhecimento facial parece confirmar essa tese. Basta compará-lo ao Facebook que, tendo apresentado sua tecnologia de reconhecimento facial em junho, se viu apanhado em uma onda mundial de rejeição às suas propostas devido a preocupações com privacidade. No entanto, o Google foi mais afortunado: algumas semanas atrás, a companhia revelou tecnologia para identificar amigos em fotos postadas na sua rede social Google + --e quase ninguém reparou.

As reações diferentes são fáceis de explicar: o Facebook instalou esse recurso para todos os usuários sem pedir sua permissão, enquanto o Google tornou sua ferramenta opcional. O Facebook agora talvez esteja adotando essa abordagem mais polida: o recente acordo entre a empresa e a Comissão Federal do Comércio norte-americana estipula que todas as futuras mudanças nos controles de privacidade existentes requererão autorização dos usuários.
A web parece estar abandonando a mentalidade da opção compulsória, característica dos brutamontes mandões --ou seja, "sabemos que vocês vão adorar esse recurso, e por isso ele será habilitado automaticamente-- em troca da mentalidade de adesão voluntária que caracteriza os diplomatas mais habilidosos --"ei, veja só como é bacana esse novo recurso-- mas só se você estiver interessado". Como demonstra a adesão do Facebook ao "compartilhamento sem fricção", uma coisa é nos forçar a compartilhar aquilo que estamos ouvindo alterando sem nossa permissão os controles de privacidade em nossas páginas; já convencer os usuários de que essa é a coisa certa --e bacana-- a fazer é questão bem diferente. A primeira atitude é uma ofensa. A segunda, uma causa de celebração.
E no entanto, o triunfo da adesão voluntária não é bem o que parece. Embora seja certamente menos coerciva, a adesão voluntária ainda faz com que a tecnologia subjacente --no caso, a de reconhecimento facial-- pareça normal e aceitável. Mas as companhias de tecnologia não reconhecem o fato. "A decisão cabe totalmente aos usuários. O que importa é dar mais controle aos usuários. Não os estamos forçando a nada --as pessoas podem optar por ficar de fora". Essa retórica morna de "dar poder ao usuário" vem sendo a base do evangelho do Vale do Silício há décadas. Tem por base uma crença ingênua em que tecnologias são apenas ferramentas e que seu impacto é instrumental. Assim, se os usuários desejam usar a ferramenta X para executar a tarefa Y, a única coisa que precisa ser debatida é a desejabilidade da tarefa Y. Que a adoção ampla da ferramenta X possa deflagrar um inesperado efeito Z é algo que jamais incomoda aos instrumentalistas, ou se o faz, eles simplesmente descartam o fator como algo de incalculável.
No entanto, esse tipo de raciocínio desconsidera o fato de que as tecnologias, além de servirem a suas funções imediatas, também causam efeitos ecológicos --na verdade, transformam ambientes, ideologias, usuários, relações de poder e outras tecnologias. Assim, embora carros possam ser uma maneira de chegar do Ponto A ao Ponto B, ninguém deveria se concentrar apenas nesse aspecto e desconsiderar o que a cultura do automóvel mais ampla pode estar causando em termos de qualidade e até mesmo modos de vida nas cidades, índices de poluição ou estatísticas de mortalidade. O foco nos usos imediatos de um artefato --quer seja de adesão compulsória ou voluntária- parece ser uma má maneira de resolver o "problema do carro".
Da mesma forma, presumir que uma dada tecnologia não é problemática porque seus usuários podem desativá-la parece pouco sensato. Por que deveríamos descartar a possibilidade de que, assim que número suficiente de pessoas opte por usá-la, a adoção coletiva dessa tecnologia possa transformar dramaticamente o ambiente social, fazendo da opção de não usá-la algo pouco desejável, ou até impossível? Considere os espaços públicos na Califórnia: assim que número suficiente de californianos optaram por usar o carro, algo mudou --tanto em termos de infraestrutura pública quanto de normas- e isso fez da Califórnia um ambiente nada propício a viver sem carro. O carro continua a nos levar do Ponto A ao Ponto B, mas será que nossa qualidade de vida não seria muito melhor se tivéssemos tentado antecipar seus efeitos colaterais e desenvolver uma visão mais multifacetada da tecnologia automobilística?
Agora, voltando ao tema das tecnologias automatizadas de reconhecimento facial, eis o que sabemos: é fácil usá-las para fins abusivos. Um serviço de busca que identifique nomes de pessoas com base em suas fotos seria muito popular junto aos ditadores, sempre ávidos por reprimir os protestos populares. Também sabemos que a tecnologia de reconhecimento facial já conquistou espaço em muitas áreas. É uma maneira popular de proteger celulares e laptops e evitar uso não autorizado. É usada em muitos consoles de videogame para criar uma experiência de jogo mais personalizada. Também é utilizada para identificar --em tempo real!-- o número de frequentadores de cada sexo em um bar. E a lista é muito mais longa.
Usos aparentente inócuos como esses estimularam o surgimento de uma nova geração de empresas que buscam usos novos para essa tecnologia --nem todos inócuos, e muitos dos quais antevistos por seus críticos. Quando o público geral acordar, a tecnologia terá, é claro, se incorporado de tal forma à nossa cultura que será tarde demais para fazer alguma coisa.
Em certo sentido, estamos lidando com um processo mais sinistro que a noção popular de um "efeito borboleta" --a ideia de que uma borboleta batendo as asas no Brasil pode deflagrar um tornado no Texas. Talvez o melhor nome seja "efeito Palo Alto": um usuário despreocupado em Palo Alto que decida optar pelo uso da tecnologia de reconhecimento facial do Google termina fortalecendo um ditador em Damasco. Por que "sinistro"? Porque o usuário de Palo Alto, ao contrário da borboleta, pode antecipar o que virá --mas prefere não fazê-lo.
O que se pode fazer? Bem, podemos impor essa carga ética aos usuários de Internet e sensibilizá-los quanto às consequências posteriores (ainda que indiretas) de suas escolhas. Existem muitos precedentes quanto a isso. As crescentes preocupações quanto à desigualdade econômica, mudança do clima e mão-de-obra infantil resultaram no movimento de "consumo ético", que tenta levar o consumidor a considerar as ramificações éticas de seu comportamento no mercado.
Da mesma forma, por que não pensar em aplicar conceitos semelhantes ao nosso envolvimento com a Internet? O que seria necessário para uma "navegação ética" ou "rede social ética"? Jamais usar sites que empreguem técnicas de reconhecimento facial? Recusar fazer negócios com empresas de Internet que cooperem com a Agência Nacional de Segurança (NSA), [a organização que cuida da espionagem eletrônica norte-americana]? São escolhas que teremos de fazer se não desejamos que a Internet seja uma área isenta de ética. Afinal, o uso irrefletido da tecnologia, assim como o consumo irrefletido, não cria bons cidadãos.
Mas as companhias de Internet também precisam fazer sua parte. É claro que o Google e o Facebook são diferentes das grandes empresas rapaces que exploram trabalhadores rurais e crianças. Nenhuma delas está criando ferramentas de vigilância que poderiam ser usadas por ditadores. O que elas fazem, porém, é ajudar a criar uma infraestrutura técnica e ideológica para que essa cultura surja de maneira aparentemente natural. Isso não oferece argumentos fortes em favor da regulamentação --mas abre as portas a ativismo cidadão, boicotes e, se tudo mais falhar, desobediência civil.
As companhias de Internet sabem perfeitamente que têm responsabilidades. No começo do ano, Eric Schmidt, presidente do conselho do Google, classificou a tecnologia de reconhecimento facial como "sinistra" e expressou preocupação quanto a ela. Mas sua companhia acaba de endossar essa tecnologia --ainda que com a cláusula de adesão voluntária. O Google imagina que isso o proteja de acusações de comportamento antiético; afinal, a decisão cabe ao usuário. Mas será que nos deixaríamos persuadir se as companhias petroleiras alegassem que, se você se preocupa com a mudança do clima, não deveria dirigir um Humvee? Talvez não. É por fingirem não saber como esse triste filme acaba que as companhias de tecnologia cometem seu maior deslize ético.
TRADUÇÃO DE PAULO MIGLIACCI
Evgeny Morozov é pesquisador-visitante da Universidade Stanford e analista da New America Foundation. É autor de "The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom" (a ilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet). Tem artigos publicados em jornais e revistas como "The New York Times", "The Wall Street Journal", " Financial Times" e "The Economist". Lançará em 2012 o livro "Silicon Democracy" (a democracia do silício). Escreve às segundas-feiras, a cada quatro semanas.
Fonte: folha online

Titanic europeu - 19/12/2011

MADRI/ROMA - Para quem está acostumado ao subdesenvolvimento visualmente feio, sujo e malvado de cidades brasileiras como São Paulo, é difícil perceber o tamanho da crise nas principais capitais europeias.

Mas ela está presente. Latente no cotidiano, nas manchetes dos jornais, na TV, nas conversas, em dezenas de lojas fechadas no centro e em inúmeros cartazes de imóveis à venda.
Ou mais presente ainda, como em um acampamento de "indignados" montado a poucos metros do Coliseu. Ou em cartazes chamando para manifestações em Roma ou Madri.

Mas não seria exagero dizer que o pior, do ponto de vista europeu, ainda está por vir.
O desemprego médio entre os 17 países que usam o euro é de 10,2%. Mas entre os mais jovens ele sobe a 29% na Itália e a 45% na Espanha.
Mesmo na Alemanha (média de 6,9%) a crise entre os jovens só não é explosiva devido aos "minijobs", que permitem a criação de vagas precárias que pagam hoje uma média de 230 euros (R$ 550) por mês. Há 7 milhões de alemães nisso.
Neste exato momento várias economias europeias já entraram ou estão entrando novamente em recessão. E elas nem sentiram ainda todo o custo dos programas de ajuste adotados pelos quatro cantos do continente.

Na Itália, quando totalmente implementado, o ajuste vai tirar 3.160 euros (R$ 7.600) por ano do bolso de uma família média via impostos sobre o consumo e residências.
O governo de Mario Monti persegue uma economia de 33 bilhões de euros (R$ 80 bilhões) para pagar as dívidas estatais. Isso deve custar à Itália, segundo o FMI, cinco pontos a menos de crescimento em três anos.
Visto por alto, o problema central da Europa pode até parecer esse: excesso de dívidas. Logo, a solução é apertar os cintos, atravessar o deserto, e voltar a crescer daqui a alguns anos.
Haveria gordura para queimar, especialmente para quem vê a região, seu Estado de bem estar social, renda e infraestrutura com olhos de subdesenvolvido.

Mas o buraco é mais embaixo. Daí o nervosismo nos mercados e o desconforto da população.
Um breve retrospecto:
1) Já chegou-se à conclusão de que alguns países têm dívidas muito altas; e o mercado passou a exigir juros insustentáveis para rolá-las;
2) Alemanha e França, os dois mais fortes do euro, impuseram ajustes nos gastos dos demais e agora trabalham por um compromisso que leve a punições para quem não andar na linha;
3) Enquanto isso, a Alemanha se recusa a permitir que o BCE (Banco Central Europeu) garanta a rolagem das dívidas dos mais endividados. Por dois motivos: porque os alemães teriam de pagar parte da conta dos demais e porque, assim fazendo (e também se endividando), a Alemanha seria obrigada a pagar juros maiores para ela mesma se financiar (hoje o faz a custo quase zero).
Em resumo, esse é o plano europeu: ajustar os endividados sob a batuta alemã.
Dois problemas: recessões pioram rapidamente o endividamento de qualquer país, pois dívidas são examinadas como proporção do PIB; e a Europa só chegou a isso porque não criou nenhuma outra alternativa.
A Alemanha é o país que mais se beneficiou com a criação do euro e o endividamento dos demais. Ela não só pagou com isso o pesado custo de integrar a ex-Alemanha Oriental nos anos 1990 como se tornou o motor da região, com o grosso de suas exportações voltadas para a Europa.
Com a região embarcando em um pesado ajuste de longo prazo, a Alemanha certamente sofrerá consequências difíceis de manejar.
O pano de fundo de tudo é que o arranjo da chamada Eurolândia dependia do endividamento de alguns para que outros prosperassem, e dessem respaldo aos demais pela via de uma moeda única, o euro.
Funcionou por um tempo, até que as dívidas de alguns começaram a chamar demais a atenção. Daí a ameaça de terem de deixar o euro e a proteção que a moeda oferece.
A alternativa 2.0 (além do euro) seria a Alemanha finalmente concordar com a união fiscal plena na região. Significa que ela compartilharia com os demais o custo da rolagem das dívidas, por meio de eurobônus garantidos pelas 17 economias do euro.
Há quem aposte que a Alemanha esteja primeiro exigindo austeridade dos demais para só depois entrar com seu lastro e passar a garantir as dívidas europeias, aliviando a pressão.
"Frau Nein", como Angela Merkel é chamada, não dá nenhuma indicação de que tomará esse caminho.
Mesmo isso não resolveria o grande problema subterrâneo: há uma disparidade enorme de industrialização, produtividade, benefícios sociais e, em última instância, "filosofias de vida" entre os 17 países da Eurolândia.
O euro foi uma tentativa quase abstrata de aplainar isso. Não está funcionando.
Fernando Canzian
Fonte: folha online

A China vai quebrar?- 19/12/2011

Considere o panorama seguinte: o crescimento recente foi baseado num enorme boom de construção alimentado pela alta dos preços dos imóveis, boom esse que exibe todos os sinais clássicos de uma bolha. Houve um crescimento acelerado do crédito - tendo boa parte desse crescimento se dado não através dos bancos tradicionais, mas por meio de "operações bancárias nas sombras", não regulamentadas, que não são sujeitas a fiscalização governamental, nem contam com garantias governamentais. Agora a bolha está estourando - e existem motivos reais para temer uma crise financeira e econômica.

Estou descrevendo o Japão no final dos anos 1980? Ou a América em 2007? Poderia estar. Mas, neste momento, estou falando da China, que está emergindo como mais um ponto de perigo em uma economia mundial que realmente não precisa disso neste momento.
Venho relutando em me manifestar sobre a situação da China, em parte porque é tão difícil saber o que realmente acontece por lá. Todas as estatísticas econômicas podem ser mais bem vistas como alguma forma especialmente entediante de ficção científica, mas as cifras chinesas são mais fictícias que a maioria. Eu pediria um parecer a especialistas na China, mas parece que não há dois sinólogos que estejam contando a mesma história.
Mesmo assim, até mesmo os dados oficiais são preocupantes - e as notícias recentes são suficientemente dramáticas para fazer soar alarmes.
O que mais chamou a atenção na economia chinesa nos últimos dez anos foi como o consumo doméstico, embora tenha aumentado, estava defasado em relação ao crescimento total. Hoje os gastos dos consumidores representam apenas cerca de 35% do PIB, mais ou menos a metade do nível visto nos Estados Unidos.
Então quem está comprando os bens e serviços que a China produz? Parte da resposta é "nós estamos": à medida que a participação dos consumidores na economia foi caindo, a China foi cada vez mais confiando em superávits comerciais para manter seu setor manufatureiro ativo. Mas a história maior, desde o ponto de vista da China, são os gastos com investimentos, que alcançaram quase metade do PIB.
A pergunta óbvia é: com a demanda dos consumidores relativamente fraca, o que motivou todos esses investimentos? E a resposta é que eles dependeram, em grande medida, da bolha imobiliária sempre crescente. Desde 2000 os investimentos no setor imobiliário mais ou menos dobraram como parcela do PIB, sendo diretamente responsáveis por mais de metade do aumento geral nos investimentos. E, com certeza, boa parte do resto do aumento se deveu a firmas que se expandiram para vender para o setor crescente da construção.
Sabemos com certeza que o crescimento do setor imobiliário foi uma bolha? Ela teve todos os sinais: não apenas a alta dos preços, mas também o tipo de febre especulativa que já conhecemos bem demais de nossas experiências de alguns anos atrás. Pense no litoral da Flórida.
E houve outro paralelo com a experiência americana: enquanto o crédito se expandiu, boa parte dele veio não de bancos, mas de um sistema bancário nas sombras, não supervisionado e não protegido. Houve diferenças enormes nos detalhes: o financiamento nas sombras à moda americana geralmente envolveu firmas de prestígio em Wall Street e instrumentos financeiros complexos, enquanto a versão chinesa tende a passar por bancos clandestinos e até mesmo casas de penhores. Mas as consequências foram semelhantes: na China, assim como aconteceu nos EUA alguns anos atrás, o sistema financeiro pode estar muito mais vulnerável do que revelam os dados sobre os bancos convencionais.
Agora a bolha está estourando visivelmente. Quantos danos vai causar à economia chinesa - e ao mundo?
Alguns comentaristas dizem que não precisamos nos preocupar: que a China tem líderes fortes e inteligentes que farão o que for preciso para lidar com um desaquecimento. O que fica implícito, embora não seja declarado com frequência, é a ideia de que a China poderá fazer o que for preciso porque não precisa preocupar-se com boas maneiras democráticas.
Para mim, porém, isso não soa convincente. Me lembro muito bem de ouvir frases tranquilizadoras semelhantes sobre o Japão nos anos 1980, quando os burocratas brilhantes do Ministério das Finanças supostamente tinham tudo sob controle. E, mais tarde, houve as declarações de que a América jamais repetiria os erros que levaram à década perdida do Japão - sendo que, na realidade, estávamos tendo um desempenho ainda pior que o Japão tinha tido.
Quero registrar que as declarações sobre política econômica feitas por autoridades chinesas não me parecem especialmente lúcidas. Em especial, o modo como a China anda reagindo negativamente a estrangeiros - entre outras coisas, impondo uma tarifa punitiva a automóveis de fabricação americana, algo que não ajudará sua economia em nada mas ajudará a envenenar as relações comerciais - não soa como um governo maduro que sabe o que está fazendo.
E evidências empíricas sugerem que, embora o governo chinês possa não ter sua atuação limitada pelo Estado de direito, essa atuação é limitada pela corrupção ampla, que significa que o que acontece de fato ao nível local pode guardar pouca semelhança com o que é ordenado em Pequim.
Espero que eu esteja sendo desnecessariamente alarmista. Mas é impossível não se preocupar: a história da China soa um pouco parecida demais com as quebras que já testemunhamos em outras regiões. E uma economia mundial que já está sofrendo com o caos na Europa realmente não precisa de um novo epicentro de crise.
TRADUÇÃO DE CLARA ALLAIN
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do jornal "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.
Fonte; folha online

sábado, setembro 17, 2011

Pão e circo, literalmente-16/09/2011

DE WASHINGTON, por Luciana Coelho

Esta não é minha primeira eleição nos EUA. Eu cobri Bush X Kerry, em 2004, e parecia que aquela campanha tão deprimente não seria superada. A do ano que vem, no entanto, pode mostrar que no fundo do poço existe um alçapão para descer mais um pouquinho.
Para começar, o debate político nos EUA, como comentaram leitores aqui, se estreitou. Muito. Culpa de Obama e culpa da oposição _da oposição porque está empenhada na bandeira única e inflexível de cortar programas sociais e impostos, e de Obama por ser um banana e se deixar levar. A instituição governo passou a ser demonizada, ao invés de ser discutida. Não se debate como modernizá-la, e sim como eliminá-la, o que me parece bastante bizarro em um país que se considera um dos berços da democracia moderna.
Mas o que me incomoda mais é a espetacularização da campanha _e isso porque faltam 14 meses para os americanos votarem. Para quem está aqui, salta aos olhos o contraste entre o desânimo do eleitor em geral (sim, a situação da economia e o desemprego aumentou o índice de depressão) e o bombardeio de discursos, comícios, debates e comerciais acalorados, sobretudo na TV.
O presidente parece mais preocupado em fazer campanha do que em governar, enquanto a oposição parece estrelar um reality show bizarro, no qual ganha mais quem apelar aos instintos mais grotescos do eleitor (a plateia aplaudindo o número de execuções no Texas foi algo surreal - nem para quem é a favor da pena de morte faria sentido apoiar um alto número de execuções, já que ele implicaria em um alto número de crimes; isso para não falar dos erros da Justiça).
Exemplos? É literalmente pão e circo.
A campanha de Obama está RIFANDO um jantar com Obama. Pensei e repensei em todos os políticos populistas da América Latina, juro que não consegui lembrar de movimento semelhante. Rifando. Você doa US$ 10 para ajudar na campanha, e aí eles sortearão 4 felizardos (ou não) que jantarão com o presidente em Chicago, Washington ou "onde ele estiver no dia".
No email que recebi da campanha (eu estou inscrita nos sites de todos os candidatos principais), o assessor diz: "O Presidente obviamente tem superpouco tempo para gastar com qualquer coisa relacionada à campanha. E é assim que ele escolheu gastá-lo, com conversas reais e profundas com pessoas como você." Ok, é válido ouvir o eleitor, mas isso não disfarça o fato de ser uma rifa. E sobre ter pouco tempo para gastar com campanha... Não parece. A sucessão de discursos que ele tem feito pelo país são um ato de governo tão válido quanto nossos políticos brasileiros comparecendo à inauguração de qualquer obra meia-boca em período eleitoral.
Já do outro lado... Eu havia comentado sobre a abertura do debate da última semana, que parecia de um reality show. Incrível os pré-candidatos se prestarem a isso. Agora achei o vídeo, quero postá-lo para vocês, com os devidos pedidos pela falta de legendas. Se alguém fizer questão da tradução, eu posto mais tarde. Ah sim, os colegas resolveram mandar Rick Perry para o paredão. O problema (para eles) é que o público parece querer salvá-lo.
Fonte: folha online