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sábado, fevereiro 25, 2012

Dilma enfrenta o Congresso -24/02/2012

No início de seu governo, Luiz Inácio Lula da Silva era acusado de ser avesso aos políticos. Do Congresso, choviam queixas de desatenção. Lula assumiu o governo vetando um acordo com o PMDB. Esse arranjo político foi uma das causas do mensalão.

Agora, na gestão Dilma Rousseff, há reclamações parecidas. A Folha revelou na quinta (23/02) que a presidente fez apenas 11 reuniões partidárias em 14 meses de governo. No mesmo período, Lula havia realizado 27. Pessoas importantes do governo começam a achar arriscado a forma como Dilma lida com os politicos. Temem que esteja em gestação uma grande crise.
Será? Há controvérsias.
Quando Lula venceu em 2002, havia o fantasma do fracasso a rondá-lo. Ele conseguiria governar o Brasil? A política econômica do PT destruiria o Plano Real? O novo presidente faria alianças suficientes para aprovar reformas constitucionais no Congresso?
Lula viveu uma grande crise, aprendeu com ela, elegeu a sucessora e saiu do governo com aprovação recorde. A foto histórica é de um grande presidente.
Dilma não é Lula, mas tem algumas vantagens: menos amarras e menos compromissos. Ela tem compromisso com todos os brasileiros, não apenas com aqueles que a elegeram. Também deve satisfação à própria biografia. No entanto, Dilma só tem compromisso político de verdade com uma pessoa: Lula.
Nesse sentido, Dilma é mais livre para lidar com os politicos. Com menos amarras na política e na economia, não precisou abraçar uma agenda congressual que demandasse tantos favores e verbas aos aliados. Sua personalidade ajuda a acentuar a distância entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.
É fato que hoje existe um ambiente de tocaia no Legislativo. Passado o Carnaval, começam de fato os trabalhos na Câmara e no Senado. O governo mapeou os inimigos que dormem ao lado.
O PR está para lá de insatisfeito porque Dilma resiste a nomear um deputado para o Ministério dos Transportes. O PDT anda meio chateado, mas é o próprio partido que não chega a um consenso para indicar o novo ministro do Trabalho.
O deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ) é visto como um aliado incômodo. Ele tem atuado na defesa da PEC 300, a proposta de emenda constitucional que prevê um piso salarial único nacional para policiais militares e bombeiros. Essa proposta afetaria as contas públicas dos Estados, que já andam pedindo renegociação de dívida com a União.
Garotinho também é expoente da bancada religiosa, que faz contraponto a medidas positivas do governo, como ter nomeado Eleonora Menicucci para a secretaria das Mulheres.
O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), está contrariado porque perdeu indicados políticos. Candidato a presidente da Câmara para o biênio 2013-2014, Alves desconfia de que o PT possa validar o acordo de rodízio nessa posição desde que o nome seja outro.
Por último, o presidente da Câmara, Marco Maia, do PT do gaucho, está contrariado porque não teve um pedido atendido no Banco do Brasil.
Tramitam no Congresso projetos que preocupam o governo, mas nenhum deles poderia causar um dano político ou econômico irreversível se votado contra a vontade do Planalto ou se engavetado por mais tempo.
Dilma tem conseguido manter parada a PEC 300. Ainda que demore um pouco, conta com a aprovação do fundo de previdência complementar dos servidores públicos. O governo administra a votação final do Código Florestal na Câmara para que ele não fique ainda mais ruralista. Já admite concessões na Lei Geral da Copa, como invalidar na prática o Estatuto do Torcedor para permitir bebidas nos estádios.
Em 2011, a presidente também conviveu com ameaças veladas de seus aliados, prometendo retaliações no Congresso. Pode ser que em 2012 essas ameaças se concretizem2. Mas Dilma parece disposta a trilhar um caminho que talvez traga uma boa e nova herança aos presidentes de plantão. No presidencialismo meio parlamentarista do Brasil, talvez tenha encontrado um caminho para depender menos do jogo de troca de favores que beneficia o conservadorismo. Se essa fórmula para peitar os políticos valer só para ela, já será um ganho para o país.
Kennedy Alencar
Fonte: folha online

sábado, outubro 08, 2011

Kassab e o fator Meirelles

O Datafolha mostrou em setembro que vai mal a imagem de administrador de Gilberto Kassab. O prefeito de São Paulo tem apenas 15% de avaliação ótima ou boa. Para 42% dos paulistanos, ele é um prefeito péssimo ou ruim. E 36% o consideram regular.

Mas, na articulação política, Kassab tem se revelado um craque. Um dos fatos políticos do ano foi a criação do PSD, uma enorme janela de infidelidade que Kassab costurou para deixar o DEM.
O PSD acomoda oposicionistas históricos do PT que desejam aderir ao governo Dilma Rousseff e situacionistas que estão sem espaço em seus partidos.
A última jogada política do prefeito de São Paulo é a filiação ao PSD de Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central. Kassab aposta na candidatura do vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos (PSD), a prefeito da capital. Mas Meirelles é um plano B a ser considerado seriamente, ainda mais numa eleição que promete ter caras novas e que pode ter desfecho surpreendente.
Há quem diga no PSD que Meirelles poderá ser candidato a presidente em 2014. Imodéstia e ambição para isso não faltam ao ex-presidente do Banco Central.
SONHO
Meirelles tem se queixado do governo Dilma. A presidente não o quis no BC, apesar do conselho de Lula para mantê-lo no cargo. Nos projetos que envolvem a Copa e as Olimpíadas, ele tem sido pouco ouvido. Sente-se menosprezado por Dilma.
O ex-presidente do BC nunca escondeu seu desejo de ser candidato a presidente. Em 1997, teve reunião com peemedebistas. Naquele encontro, disse que se só filiaria à legenda com a garantia de concorrer ao Palácio do Planalto no ano seguinte. Claro que as raposas não toparam.
Meirelles sonhou ser candidato à sucessão de Lula em 2010. Teve conversas com empresários de São Paulo a respeito desse projeto. Filiou-se ao PMDB para tentar esse voo. Mas, sem apoio, investiu na possibilidade de ser vice de Dilma. Também não deu certo. Mais uma vez o PMDB lhe disse não. Quem sabe o PSD de Kassab realize seu desejo.
Fonte: folha online

domingo, setembro 11, 2011

Memórias e impressões do 11/9

11/09/2011
Na manhã de 11 de setembro de 2001, o inverno de Brasília e o verão de Nova York tinham em comum um belo céu azul e ensolarado. No caminho para a sucursal da Folha, recebi um telefonema de Eliane Cantanhêde, colunista do jornal. Ela me aconselhou a correr para a redação porque os Estados Unidos estavam sofrendo atentados terroristas.

Na segunda-feira, véspera dos atentados, havia feito uma entrevista exclusiva com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, guardada para publicação no domingo. Mas a conversa com FHC virara notícia velha antes de ser impressa.
Preponderava na redação aquela agitação que marca os grandes acontecimentos, aquela atmosfera que faz do jornalismo a profissão mais interessante do mundo. Marta Salomon, chefe encarregada de distribuir as pautas do dia, estava a mil por hora. Em poucos segundos, entrei no mesmo ritmo.
Para diminuir a ansiedade e sonhando torná-la produtiva, desci do oitavo andar para a lanchonete no térreo. Pedi um copo cheio de uísque. Subi e dividi o caubói com Marta.
Ao longo do dia, as notícias se mostrariam inacreditáveis. A queda da primeira torre e tudo o que aconteceu logo depois entraram para a história. De impulso, disse a Marta e ao diretor da sucursal, Valdo Cruz, que gostaria de ir para o Afeganistão, país que abrigaria os mentores de um ataque ao território dos EUA numa dimensão só vista em Pearl Habor.
Numa primeira impressão, escrevi uma coluna na saudosa Folha Online defendendo que os mulçumanos não fossem demonizados. A Al Qaeda, com suporte do Taleban, já era apontada como a provável responsável. Para minha sorte, o jornal aceitou o pedido que mudaria a minha vida.
Depois do Kosovo e da Sérvia (1999), eu seria enviado especial para uma segunda cobertura de guerra. Foi o trabalho mais intenso, assustador e educativo que tive. Viajei pelo Paquistão e o Afeganistão, com rápidas passagens pelo Irã e o Tadjiquistão. O resultado está no acervo da Folha. De vez em quando, releio o que vivenciei e relatei para acreditar que estive lá mesmo.
No Afeganistão, embalado por uma dose de etnocentrismo e por momentos de dificuldade que me fizeram imaginar que talvez não voltasse para casa, dei graças aos deuses por ter nascido num país da periferia da civilização ocidental.
Os rebeldes da Aliança do Norte eram mais corruptos do que o Taleban e apenas um pouco menos opressores das mulheres. A miséria afegã, diferente mas intensa como a pior em nosso país, era dura de testemunhar ao vivo e a cores. A tirania em relação às mulheres incomodava um repórter que tentava modernizar os valores da criação na tradicional família mineira.
Os sentimentos negativos sobre o Afeganistão foram e ainda são fortes. No entanto, nunca me levaram a considerar acertada a invasão daquele país. Tento compreendê-la no contexto do calor dos acontecimentos. Não encontro, porém, uma justificativa que a torne moralmente defensável. Tampouco acho que seja favorável o balanço da influência planetária do 11 de Setembro.
Os EUA e sua estratégia de combate ao terrorismo mudaram o mundo para pior. Nas guerras do Afeganistão e do Iraque, pelo menos duas centenas de milhares de inocentes se somaram aos milhares de americanos assassinados em 11 de Setembro. Houve regressão no respeito aos direitos humanos. Cresceu o sentimento antiamericano nos cinco continentes. A maior democracia do mundo transformou a tortura numa política de Estado. Ao iniciar duas guerras, Washington gastou cerca de US$ 2 trilhões e descuidou de sua saúde econômica. Certa islamofobia começa a diminuir somente agora, com a Primavera Árabe. Como aconteceu no Iraque, o interesse em reservas de petróleo norteia as decisões dos EUA e da Europa a respeito de quais ditaduras devem receber mais bombas aéreas do que outras.
É honesto reconhecer vitórias pontuais. Por uma década, os EUA evitaram um atentado em seu país, apesar do temor de que novos ataques possam ocorrer. Transferir as batalhas para solo estrangeiro foi uma escolha típica de manual de guerra. Sai em vantagem quem escolhe o terreno da peleja. A morte de Bin Laden serviu como vingança enfim realizada.
Liberto por uma hora e meia do viciante universo online e da útil prisão dos celulares, o que a gente só consegue nos voos que se tornaram mais seguros e mais chatos, decidi fazer uma reflexão sobre o 11 de Setembro sem consulta recente aos arquivos do jornal e às anotações pessoais. Isso traz risco de imprecisões, mas serve como um exercício para garimpar o que a memória achou por bem guardar. É uma tentativa de ver em perspectiva as primeiras impressões e de redescobrir o que aprendi com uma experiência marcante.
O saldo é otimista. Antes que os fatos me contradigam, o mundo vem dando sinais de que voltou a melhorar. Aprendi que os meus problemas de 10 anos atrás não existiam ou eram bem menos importantes do que imaginava. Nem sempre consigo, mas procuro enxergá-los hoje do mesmo jeito. É um bom legado daqueles dias.
Kennedy Alencar
Fonte: folha online

segunda-feira, setembro 28, 2009

Está pintando chapa Dilma-Temer

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), deverá derrotar o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), na batalha pelo apoio do PMDB na sucessão presidencial de 2010. Ela tende a obter o apoio formal da legenda, o que garantirá maior tempo no horário eleitoral gratuito e o suporte de uma máquina partidária enraizada nacionalmente. Serra deverá ficar com dissidentes, que marcharão ao seu lado em alguns Estados contra o acordo nacional PT-PMDB.
O roteiro está traçado com aval da própria Dilma:
O PMDB pretende indicar o presidente da Câmara, federal Michel Temer (SP), para ser o vice da ministra. Na próxima quarta (30/09), Temer viajará com Lula para a Dinamarca, na comitiva brasileira que defenderá a candidatura do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016. Os dois selarão a decisão política sobre a aliança e o nome do vice.
Na volta de Lula ao Brasil, o PT e o PMDB deverão anunciar a pré-aliança formal, já que a oficialização só poderá ser feita legalmente nas convenções de junho do ano que vem.
No grupo governista do PMDB, há ampla maioria para que Temer seja indicado. É remota a chance de ele não vir a ser o vice. Os governistas do PMDB avaliam a possibilidade de realizar uma convenção em dezembro para reeleger Temer presidente do partido. O mandato de Temer está previsto para acabar em março, outra data possível para fazer a convenção. Não será possível prorrogação do mandato da atual direção peemedebista porque já foi feita extensão de um ano.
O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), diz que Dilma deseja a aliança com o PMDB e que o vice será escolha do partido. "Michel [Temer] é a presença institucional do partido na chapa. Não há nome melhor", declara Alves.
O senador Jarbas Vasconcelos (PE), defensor do apoio a Serra, reconhece que a ala governista "está fechada com Temer" para vice. Mas Jarbas defende que o partido adie a decisão política para junho, quando ela terá de ser tomada legalmente.
"Hoje, perderíamos por muito. Somos minoritários. Até junho, podemos, pelo menos, tentar inviabilizar a aliança formal. Não é o mais bonito, mas seria o melhor, cada um para o seu lado", afirma Jarbas. De acordo com ele, a ala governista quer definir o jogo logo "para barganhar espaço nos Estados com o PT".
Publicamente, o discurso do PMDB será de que o nome do vice não está decidido. É uma forma de tentar preservar Temer de advogar em causa própria. Ele é presidente licenciado do PMDB, mas mantém, na prática, o comando do partido.
Apesar de rompido com o PT na Bahia, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, é do grupo de Temer. O deputado federal Jader Barbalho, que tem divergências com o PT no Pará, apoia o presidente da Câmara. Geddel e Jader pediram a Temer que antecipasse a decisão sobre a aliança nacional com o PT, sob a avaliação de que, em nome do jogo nacional, petistas façam concessões nos dois Estados.
O presidente do Senado, José Sarney (AP), e o líder do PMDB na Casa, Renan Calheiros (AL), apoiam Temer para vice. A crise do Senado enfraqueceu os dois, que, apesar de não serem apaixonados pelo presidente da Câmara, tiraram suas restrições a ele em nome da sobrevivência política de todos. O abraço de Lula a Sarney na crise beneficiou Dilma e, por tabela, Temer.
A ideia das cúpulas do PT e do PMDB é fechar a aliança nacional o mais rápido possível, a fim de permitir negociações nos Estados. Lula deverá pedir sacrifícios ao PT. Pragmático, Lula já disse ao partido que não dá para comparar a importância da manutenção do poder central com eleições para governos estaduais. O presidente prefere abrir mão de candidaturas do PT a governador em troca de apoio a candidatos petistas ao Senado. Lula sofre com a maioria instável no Senado e pretende se empenhar para derrotar candidatos da oposição para aquela Casa do Congresso.
O que está se desenhando é uma situação parecida com a de 2002. Na época, Serra obteve o apoio formal do PMDB, mas Lula ficou com dissidentes. Em 2010, Dilma provavelmente inverterá o jogo.
Fonte: folhaonline em 25/09/2009

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

O incerto destino de Ciro Gomes

Insatisfeito com o trabalho de deputado federal, Ciro Gomes (PSB-CE) se escondeu politicamente nos últimos dois anos, mas sobretudo em 2008. Foi um decisão refletida, dizem aliados. Mas teria sido uma decisão errada, repetem os mesmos aliados.
Nesse período, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, reforçou a possibilidade de ser a principal candidata do campo lulista. Hoje, o PT está unido no apoio à ministra.
Nas pesquisas, Ciro ainda ostenta maior intenção de voto do que a ministra. Mas as forças políticas acreditam que ela é mais viável do que ele. O PMDB, por exemplo, tende hoje a fechar com Dilma oficialmente. O partido daria a ela o seu tempo de TV, mas se dividiria nos Estados entre a candidata de Lula e o candidato da oposição.
No próprio PSB, o seu partido, Ciro sofre alguma contestação _sobretudo do governador de Pernambuco e chefe da legenda, Eduardo Campos.
A sucessão de outubro de 2010 está distante. E Ciro poderá reinventar um caminho até lá. Mas não parece tarefa fácil. Ele tem críticas à política econômica. Críticas parecidas com as de Dilma e as dos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), os dois potenciais candidatos do PSDB ao Palácio do Planalto. Todos se queixam dos juros altos.
Ciro foi ministro de Lula durante o primeiro mandato. Teria dificuldade para atacar o governo numa campanha. Tampouco será o escolhido por Lula para representar a sua administração em 2010.
Restaria a Ciro uma aliança com Aécio ou com Dilma, na posição de coadjuvante. Mas isso dependeria de fatos que hoje parecem improváveis.
Se Aécio for o candidato do PSDB, Ciro poderia ser o vice. Se Aécio deixar o PSDB para se filiar ao PMDB, Ciro poderia ser o vice. Se Aécio entrar no PSB, seria um suicídio político do governador mineiro, que não é dado a esse tipo de coisa.
Se o PMDB confirmar uma aliança oficial com o PT, o partido deverá indicar o vice. Se essa união não se confirmar, o PSB poderia nomear o companheiro de chapa. Mas Ciro sofreria competição interna. Eduardo Campos flerta com a possibilidade de ser vice de Dilma se naufragar a tentativa de aliança PT-PMDB.
No PSB, tem gente que diz que Ciro poderia simplesmente desistir da política. É uma saída que não combina com a sua personalidade. Ele é um animal político. Seria lamentável uma saída de cena. Ciro é uma peça importante do quebra-cabeça presidencial, mas não está claro onde se encaixará.

Kennedy Alencar

Fonte: Folha online

domingo, fevereiro 15, 2009

Kennedy Alencar

Os obstáculos para Serra chegar lá
da Folha Online
À primeira vista, o governador de São Paulo, José Serra, vive uma situação confortável como potencial candidato à Presidência da República em 2010. Lidera as pesquisas em todos os cenários sobre a sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. Faz um governo bem-avaliado. Tem dinheiro em caixa para investimentos. Possui laços fortes com o grande empresariado --o que é fundamental para o financiamento de campanha.
Mas esse conforto é apenas aparente. Serra anda tenso. Deseja ser ungido logo o candidato do PSDB, mas o governador de Minas, o tucano Aécio Neves, não aceita fato consumado e quer uma disputa em prévias pelo país. Se a escolha fosse hoje, Serra venceria. Mas a que custo?
Em 2006, ele ficou com medo de concorrer contra Lula, que já se recuperara do escândalo do mensalão (2005). A divisão do partido pesou e alimentou o temor de disputar. Cedeu a vez para o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. A história é conhecida. Lula venceu.
Serra não pode tratorar Aécio. Se o fizer, o governador poderá cruzar os braços no segundo colégio eleitoral do país, a exemplo do que fez em 2002. Principal articulador da candidatura de Serra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deseja que Aécio apoie logo Serra. E deseja mais: que o mineiro seja candidato a vice-presidente na chapa do colega de São Paulo. Por ora, Aécio resiste.
Serra sofre também embaraços externos. Qual será o seu discurso de campanha? Ele se aproximou do presidente, com quem tem tido boa parceria administrativa. Vai falar mal de Lula em 2010? Poderá ouvir do presidente que até outro dia o tucano frequentava o Palácio do Planalto e o elogiava.
A crítica de Serra à política monetária (juros altos) do Banco Central não é unânime nem no seu partido. Ainda que fosse, renderia votos? O que Serra mudaria na política econômica? Essa mudança teria apelo eleitoral? Há fundadas dúvidas a respeito desta última indagação.
Qual será o discurso na área social? Vai manter o Bolsa Família, mas com melhoras, procurando uma "porta de saída", para usar um chavão? Isso o atual governo já promete que fará. Por que o eleitorado confiaria na oposição para melhorar o Bolsa Família e não em um candidato da situação? Enfim, há um monte de perguntas no meio do caminho de Serra.
Enquanto o PSDB está dividido e não tem um discurso de campanha consistente, Lula usa a crise como oportunidade para lançar medidas que podem render dividendos políticos à sua provável candidata, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Nessa toada, o presidente tem boa chance de viabilizar a vitória de Dilma.
Há ainda a contradição de ser um político com cabeça de centro-esquerda com uma base de centro-direita. O DEM, antigo PFL, é o aliado preferencial do governador paulista. Lula e o PT adoram associar o PSDB ao PFL, numa jogada retórica para dizer que se trataria de uma volta ao passado (governo FHC). Quando Serra atribui alguma manifestação dos movimentos sociais a interesses políticos-eleitorais, faz um discurso conservador. Criminalizar os movimentos sociais não combina com um político de centro-esquerda, mas é música aos ouvidos de políticos de centro-direita.
Outro problema: a administração de Gilberto Kassab começa a patinar. Não se sabe se o prefeito paulistano entregará as principais promessas da campanha municipal de 2008. Serra será cobrado pelo desempenho de seu afilhado político.
Por último, vem o famoso temperamento de Serra. O desejo obsessivo de ser presidente ajuda por um lado, mas atrapalha por outro. Ele tem procurado demonstrar mais jogo de cintura. Melhorou a relação com a imprensa. Aproximou-se de desafetos --integrar Geraldo Alckmin ao secretariado e se aliar a Orestes Quércia são exemplos disso. Mas ainda mantém uma certa tendência autoritária a querer controlar o noticiário, a tentar evitar perguntas embaraçosas, a editar jornais, rádios e TVs.
Não faltam obstáculos para o favorito Serra chegar lá.

Fonte: Folha online

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Minas não é capitania hereditária

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, é um quadro político respeitável. Faz uma boa administração, atestam as pesquisas e a percepção de quem foi ao Estado com certa frequência nos últimos seis anos. Aécio possui credenciais para sonhar com um projeto presidencial em 2010. Mas ele tem cometido erros políticos e lidado mal com alguns percalços na disputa pelo poder.
Um primeiro erro foi avaliar que teria grande chance de derrotar o governador José Serra na disputa interna do PSDB pela candidatura ao Palácio do Planalto. O mineiro achou que seria menos difícil essa empreitada.
Aécio tinha melhor relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que poderia estar para ele como Getúlio esteve para JK. Trocando em miúdos: dar gás a um oposicionista cordato e a quem respeitava. Aécio também tirava vantagem da imagem de político conciliador e sedutor ante a imagem de um Serra desagregador e trator. O mineiro comeria o paulista pelas beiradas, como se faz com mingau quente.
Do final de 2007 para cá, Serra atacou esses pontos fortes de Aécio. Aproximou-se de Lula. Contra boa parte do PSDB, jogou seu peso na derrotada articulação pela prorrogação da CPMF, o antigo imposto do cheque. Fez parcerias administrativas. Azeitou canais políticos, sinalizando uma transição civilizada e nada vingativa no caso de suceder o petista.
Serra engoliu o que parecia uma articulação de gênio de Aécio: a aliança com o PT na eleição municipal de Belo Horizonte para eleger Márcio Lacerda, do PSB de Ciro. Ou seja, três em um (PSDB-PT-PSB). O objetivo, correto, era sinalizar com atos e não com palavras que o governador mineiro seria aquele que poderia unir no futuro PT e PSDB --esses primos da redemocratização brasileira que vivem brigando. Aécio seria o pós-Lula, não o anti-Lula. Mas o namoro não foi engolido por muitos petistas e tucanos.
Serra reagiu. O governador paulista deu o tombo no candidato de seu partido em São Paulo, Geraldo Alckmin, o que só fazia levar água para o moinho da candidatura presidencial de Aécio. Enquanto o governador mineiro pôs fichas em Alckmin, o paulista vitaminou o candidato a prefeito do DEM, Gilberto Kassab, com uma surpreendente aliança com o PMDB quercista.
Aécio tomou um susto em Belo Horizonte, pois seu candidato quase perdeu. Serra reelegeu Kassab, mas parecia que a custo político alto: uma fissura no PSDB paulista. Recentemente, o governador de São Paulo fez um gol de bicicleta. Atraiu Alckmin para o seu secretariado. O antigo aecista passou a defender um acordo político e não mais as prévias como melhor forma de escolha do candidato do PSDB ao Palácio do Planalto. Alckmin tirou fôlego de Aécio.
Hoje, está claro que será tarefa hercúlea Aécio derrotar Serra no PSDB. E parece cada dia mais complicada a possibilidade de o mineiro se filiar ao PMDB ou de criar um partido novo para tentar com o presidenciável Ciro Gomes (PSB) uma terceira via na campanha presidencial de 2010. Na política, é possível surpreender sempre. Essa é uma de suas graças. Mas não será fácil.
Para complicar, Aécio ficou mal acostumado com as vitórias que colecionava desde a conquista da presidência da Câmara em 2001. Ficou algo mimado com o tratamento positivo que recebe da imprensa mineira, certamente fruto do reconhecimento de sua boa administração. Não parece que esse tratamento se deva a algum tipo de pressão econômica e política que o governador e pessoas próximas exercem sobre a mídia mineira.
A falta de hábito com tropeços naturais da política levou o governador a não gostar da publicação na versão impressa da Folha de uma reportagem dando conta de que o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, fora a Belo Horizonte dizer a ele que a maioria do partido preferia Serra como candidato em 2010. Aécio e Guerra negaram, mas foi exatamente o que aconteceu.
Rapidamente, aecistas propalaram uma ameaça. Serra deve tomar cuidado para não ferir o colega de partido. Se passar o rolo compressor, Minas Gerais se vingará. Ora, Aécio é a liderança política mais importante de seu Estado, o segundo maior colégio eleitoral do país. Razoável supor que seu apoio seja fundamental para um projeto presidencial. Mas Minas não parece ser um curral eleitoral ou uma capitania hereditária.
Na eventualidade de Serra virar o candidato tucano, os eleitores de todo o país deverão fazer uma análise racional de suas propostas. Dificilmente o motivo do voto será uma vingança coletiva de Minas na hipótese de eventual derrota de Aécio na disputa tucana. Os eleitores também poderão analisar as propostas da mineira Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil e provável candidata do PT de Lula à Presidência.
O argumento da vingança mineira poderá se voltar contra Aécio. O atual prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, passou maus bocados quando o eleitorado achou que ele era um candidato teleguiado de Aécio e do ex-prefeito e petista Fernando Pimentel. Esse negócio de curral é meio antigo para um político tão jovem como o governador de Minas.

Procura-se Obama
O novo presidente dos Estados Unidos fez uma campanha inovadora porque é um político inovador. Mobilizou a juventude descrente na política. Enxergou na Internet uma arma de campanha poderosa. Teve uma moderação que não se confundiu com conservadorismo.
Aécio e Ciro, políticos jovens, são da mesma geração de Obama, que tem 47 anos. Aécio fará 49 anos em março. Ciro completará 52 em outubro.
Uma pena que não se saiba de uma ação política recente do governador mineiro ou do deputado federal do PSB que possa ser comparada a um ato de Barack Obama. Há uma avenida aberta, mas, até agora, nenhum político brasileiro ousou trilhá-la.
Registro: a candidatura a prefeito de Fernando Gabeira foi um sopro nesse sentido que passou pelo Rio de Janeiro na última primavera.

Olhar petista
Amigo de Aécio, o governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT), tem uma boa frase sobre a atual disputa tucana pela candidatura ao Palácio do Planalto: "Serra, que tinha fama de fazer política como um carcamano com a faca nos dentes, parece hoje um florentino renascentista que dá lances magistrais".

Fonte:Kennedy Alencar folha online

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Opinião

Serra, Dilma, Aécio e Ciro

A sucessão presidencial de outubro de 2010 está distante, mas lances recentes apontaram tendências. O governador de São Paulo, José Serra, e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, consolidam-se a cada dia como prováveis candidatos à Presidência do PSDB e do PT, respectivamente.
Mais fraco no jogo tucano, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, não tem colecionado boas notícias políticas desde as eleições municipais de outubro do ano passado. Aécio recuou algumas casas no jogo de poder presidencial. E parece estar perdendo o bonde de eventual saída do PSDB para uma filiação ao PMDB.
O deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) passa por situação semelhante à de Aécio. Parece que já esteve mais próximo de viabilizar uma candidatura ao Palácio do Planalto com chance real de êxito.
As coisas mudam na política. Atestado de óbito de carreiras ou projetos políticos não são prudentes. No entanto, os passos dados por Serra e Dilma têm sido mais consistentes.
No PT, por exemplo, a única alternativa a Dilma é uma eventual cristianização de Dilma. Ou seja, lançá-la, mas abandoná-la se o projeto não emplacar. Não é esse o sinal dado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele vai colocar a faca no dente para tentar elegê-la. Busca costurar alianças amplas para apoiá-la. E, obviamente, a gerência da crise econômica terá peso decisivo.
No PSDB, a maioria prefere Serra. Isso já foi dito a Aécio. Serra, aliás, tem feito belos lances de articulação política. Aécio, um craque em articulação, está em má fase desde o ano passado. O governador paulista se aproximou de Lula, tirando do colega mineiro o privilégio de oposicionista mais bem relacionado com o presidente.
Serra tenta amarrar setores do PMDB à sua candidatura. Como não há mais verticalização, no pior cenário para o tucano, o PMDB faria aliança nacional com Dilma, mas poderia se aliar a tucanos em disputas estaduais.
As eleições para as presidências da Câmara e do Senado estão mais ligadas aos interesses de Dilma e Serra do que de Aécio e Ciro.
Lula abandonou a candidatura de Tião Viana (PT-AC) ao comando do Senado. Está disposto a bancar acertos políticos que garantam os peemedebistas Michel Temer na presidência da Câmara e José Sarney no comando do Senado. Tudo para tentar atrair o PMDB para a eventual candidatura de Dilma.
Ironicamente, Temer é um peemedebista muito amigo de Serra. E Sarney poderá dever ao PSDB a consolidação de sua vantagem sobre Tião Viana. Serra, portanto, dará uma mão ao ex-presidente, que responsabiliza politicamente o tucano paulista pela operação da Polícia Federal que implodiu a candidatura presidencial de sua filha, Roseana, em 2002. Seria um gesto de aproximação que pode ser útil no futuro, apesar de Sarney ser o maior dilmista do PMDB.
O candidato de Ciro na Câmara é um azarão: Aldo Rebelo (PC do B-SP). A aliança congressual entre PSB, PDT e PC do B, o chamado bloquinho, vem se enfraquecendo.
Aécio já foi convidado por Temer a se filiar ao PMDB em duas ocasiões. Não deu o salto do trapézio sem rede. Barack Obama arriscou e beliscou. Política também é assim: tem de acreditar. Uma filiação de Aécio ao PMDB para tentar concorrer ao Planalto em 2010 fica mais complicada a cada dia.
Uma saída seria criar um novo partido com Ciro, mas é uma opção que pode soar como aventura. Não parece que Aécio vá deixar o PSDB, partido no qual caminha para ser derrotado por Serra. Entrar no pequeno PSB teria uma bela fragilidade: pouco tempo de TV. Grandes alianças políticas não andam disponíveis na praça para contentar quatro potenciais candidatos ao Palácio do Planalto.

Fonte: blog do Kennedy Alencar, folha online

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Kennedy Alencar

21/12/2006
Pacote é tiro no pé

Depois de descer ao inferno político do mensalão e do dossiegate, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reelegeu no segundo turno com votação esmagadora --60,83% dos votos válidos. Pesquisa Datafolha o apontou como o presidente mais bem avaliado da história do país. E o levantamento CNI-Ibope revelou que Lula chegou ao final do primeiro mandato com o melhor índice de avaliação do seu governo.Ora, estava bom demais. Era preciso criar algum fato negativo, tropeçar nas próprias pernas. E Lula não hesitou. Com ajuda do voluntarismo dos defensores do "fim da era Palocci", caiu em duas armadilhas: prometer meta de crescimento de 5% ao ano e elaborar um pacote para "destravar" a economia.Na semana passada, Lula desembarcou dos 5%. Passou a cogitar taxa menor em 2007 para o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas no país em um ano).Na manhã de terça-feira (19/12), Lula manifestou dúvida em relação ao anúncio do pacote na quinta. Achava que algumas coisas não estavam amarradas. Sabia que seria politicamente desgastante o adiamento. Mas, na quarta, adiou mais uma vez o prometido pacote. Avaliou que pior seria vê-lo destruído pela mídia, transformando-se num fato negativo ainda maior neste final de ano.De acordo com ministros, Lula não está convencido de que as medidas destravarão a economia. Acha que poderia sinalizar afrouxamento fiscal em excesso. E julgou que algumas medidas eram apenas idéias (simplesmente não existiam).Menos mal que tenha adiado. Melhor do que anunciar um pacote inconsistente. Intuitivo, Lula bancou um salário mínimo de R$ 380, desautorizando o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Com isso, fica bem com o povão. Reforça seu capital político e ganha tempo para tentar sair da enrascada em que se meteu.Após a recaída voluntarista, Lula redescobriu que foi a sua política econômica, com seus acertos e erros, que lhe permitiu atender aos pobres nos últimos quatro anos e obter a aprovação que obteve nas urnas e nas pesquisas.

Perguntar não ofende
Uma indagação: se a política econômica de Antonio Palocci Filho era tão ruim assim, por que Lula se reelegeu contra tantas dificuldades?

Sem susto
Uma das melhores heranças econômicas do governo FHC foi o fim das mudanças repentinas na economia. O sucesso do Plano Real acabou com os pacotes que apareciam de repente para infernizar a vida dos cidadãos. Essa idéia de pacote para destravar o crescimento no segundo mandato gerou um grau de incerteza econômica que parecia coisa do passado.Também foi um erro político. Bondades devem ser anunciadas aos poucos. E maldades de uma vez. Esse pacote parecia trabalhar com lógica inversa.

Nunca antes neste país
De acordo com um ensinamento político, não existe ministro da Fazenda fraco. No entanto, o governo Lula inovou mais uma vez. Nunca antes neste país houve um ministro da Fazenda tão fraco como Guido Mantega. Lula decidiu mantê-lo. Talvez justamente por isso.O presidente diz que Mantega lhe foi fiel a vida inteira. Nunca o abandonou, especialmente no tempo das vacas magras. E, mais importante, o obedece cegamente, mesmo que tenha de ser fuzilado politicamente. Ok. São pontos "favoráveis" à sua manutenção.Mais uma perguntinha: ele está à altura da tarefa?

Fonte: folha online

domingo, novembro 26, 2006

Kennedy Alencar

26/11/2006
Desafio de Lula é modernização capitalista
KENNEDY ALENCARColunista da Folha Online

Quando disse que ainda não tinha a fórmula, mas que a obteria até o final do ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu que o país não está pronto para crescer 5%. Por isso, ele pressiona a equipe econômica a apresentar um plano que faça o PIB (Produto Interno Bruto) crescer anualmente em torno dessa taxa.Essa discussão é muito boa para o país. Acaba com o falso conflito entre "monetaristas" e "desenvolvimentistas". A agenda passa a ser a discussão sobre um suposto entrave ambiental, gargalos na infra-estrutura, dosagem das políticas monetária e fiscal. Enfim, desfulaniza-se o debate. Detalha-se a discussão.Lula é o político brasileiro com mais condições de realizar uma modernização capitalista para valer do país. Líder carismática, tem cacife político para dizer a setores de sua base social que é preciso reformar a Previdência mais uma vez, reformular parte da legislação trabalhista e cortar gastos em todas as áreas, inclusive na social.Depois de ter feito um primeiro mandato no qual agradou ao mercado, Lula tem credibilidade para dizer que buscará um crescimento sem irresponsabilidade, sem mágica. E cobrar uma fatura da elite. Essa credibilidade, porém, precisa ser cultivada. Um lance meramente demagógico poderia miná-la. Logo, o presidente deve tomar cuidado com o plano econômico que elabora.Seria conveniente que Lula abraçasse uma agenda "liberal", de ingresso mesmo do país no capitalismo. Para isso, a discussão sobre "fim da era Palocci" perde sentido. Talvez a saída seja radicalizar o paloccismo. Lula está disposto a fazê-lo? O presidente tem até o final do ano para encontrar a resposta. Ele já possui as condições políticas e a oportunidade histórica para colocar o dedo na ferida.
Despiste?Auxiliares avaliam que Lula não esticará uma eventual reforma do ministério, deixando para trocar algumas peças apenas em fevereiro. Crêem que foi sinal para diminuir cobranças sobre alterações no primeiro escalão.
TesteO presidente está testando seu ministro da Fazenda ao pedir que apresente propostas de crescimento econômico. Em conversa reservada recentemente, Lula disse: "Acho que vou deixar o Guido [Mantega] na Fazenda". Esse "acho" ainda alimenta a dúvida de alguns membros do governo sobre a confirmação em definitiva de Mantega em seu posto.

Fonte: folha online

sexta-feira, novembro 24, 2006

Kennedy Alencar

30/10/2006
Os riscos do 2º mandato
KENNEDY ALENCARColunista da Folha Online

A votação ainda transcorria, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não estava reeleito, mas dois ministros importantes e que terão força no segundo mandato já prometiam mudanças na política econômica. Mau começo.Tarso Genro (Relações Institucionais) falou em fim da "era Palocci". Dilma Rousseff (Casa Civil) disse que a economia passará para o "segundo momento" porque foi concluído um "conjunto de ajustes".A credibilidade econômica do governo Lula foi conquistada a duras penas. Quando o presidente diz que recebeu o país quebrado em 2002, não reconhece que havia, sim, um temor do mercado em relação às idéias econômicas que implementaria no governo. Era a época do risco-país recorde, da falta de linhas de crédito para exportação etc.No poder, Lula aplicou uma dura ortodoxia fiscal e monetária. Um dos fatores que ajudaram Lula a superar a crise política foi não ter havido uma crise econômica simultaneamente. Mesmo nos piores momentos dos escândalos do mensalão, a economia não foi afetada.Diretores do Banco Central que Lula queria demitir no começo de 2005 (chegou a dar ordem a Palocci nesse sentido) sobreviveram porque os petistas "desenvolvimentistas" tinham de se preocupar com Roberto Jefferson e os desdobramentos de suas entrevistas à Folha.Com o perdão da má poesia, quando José Dirceu falava de economia, o mundo caía. Tarso e Dilma abordam a economia muito mais do que tratam de suas respectivas áreas, articulação política e gerenciamento do governo. Estão fazendo o que o ex-ministro da Casa Civil fazia, a contragosto do presidente: tentar influenciar áreas que não estão diretamente sob comando.Guido Mantega, ministro da Fazenda, virou um espécie de auxiliar da Casa Civil. Tenta se manter no cargo com apoio de Dilma e Tarso, além da fidelidade extrema ao presidente. É curioso e irônico que, no dia da reeleição de Lula, não tenha sido ele a dar a notícia de mudanças na economia.Ora, achar que foi "concluído um período de ajustes" é de uma cegueira econômica tremenda. Houve ampliação dos gastos públicos no ano da reeleição de Lula. A questão fiscal é fundamental.Lula foi ambíguo na sua primeira entrevista após reeleito. Disse que manteria uma forte política fiscal, mas soltou uma frase preocupante: "Conseguimos resolver o problema da macroeconomia". Não é verdade.Lula corre dois riscos. O primeiro é não fazer nada na área fiscal. Fernando Henrique Cardoso cometeu o mesmo erro quando resolveu surfar nas ondas do populismo cambial. Adiou uma desvalorização que aconteceu à sua revelia em 1999, quando o país quebrou. Poderá contratar uma crise futura, ainda em sua gestão.O segundo risco é o mercado começar a acreditar que Dilma e Tarso vão dar as cartas na economia. Se essa versão cola, Lula poderá jogar fora todo o sacrifício que fez nos últimos quatro anos.
BastidoresQuando viu na TV a divulgação do resultado da Justiça Eleitoral que tornava irreversível a sua reeleição, Lula disse: "O povo me fez justiça". Num clima de emoção, um auxiliar muito próximo afirmou: "Essa vitória vai lavar as nossas dores".
Sinal preocupanteNo pronunciamento e na entrevista, Lula foi pouco cordato com a oposição em geral e com Geraldo Alckmin em particular. Sinalizou que deseja um acordo, declarando que pretende conversar com todas as forças políticas até 15 de dezembro. Mas o tom do discurso o traiu.
Fonte: folha online

Kennedy Alencar

12/11/2006
PSDB vive crise de identidade
KENNEDY ALENCARColunista da Folha Online

A disputa entre José Serra e Geraldo Alckmin pela candidatura presidencial do PSDB em 2006 será vista como fichinha perto da contenda que se anuncia para daqui a quatro anos. O duelo entre Serra e o governador eleito de Minas, Aécio Neves, pela candidatura tucana ao Palácio do Planalto em 2010 promete ser mais duro.Serra e Aécio deverão ter posição moderada em relação a Lula nos próximos dois anos, pois dependem de boa convivência administrativa com a União a fim de resolver problemas graves em seus Estados. Serra terá a imensa tarefa de melhorar a segurança pública num Estado atemorizado pelo PCC. E Aécio enfrentará o desafio de virar um nome nacional.Em determinado momento, lá por meados de 2008, Serra deverá incorporar um forte discurso anti-Lula. E Aécio tenderá a apostar numa via de conciliação, um "oposicionista light" que o petista não combateria com unhas e dentes se não tiver um nome competitivo do PT ou do campo aliado para concorrer à sua sucessão.É no contexto dessa disputa que Serra cogita criar uma legenda de centro-esquerda. Difícil? Certamente. Possível "refundar o PSDB"? Talvez. Aproveitar uma estrutura partidária que já existe, inchá-la e dar-lhe outro nome? Pode ser por aí.Apesar de ter dado passos históricos para a modernização capitalista do país, os dois governos presidenciais do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002) são vistos como pragas indefensáveis em eleições pelos candidatos tucanos.Em 2002, Serra foi derrotado por Lula recusando-se a defender o governo que integrava. Alckmin fugiu de FHC como o diabo da cruz, e acabou encurralado pela armadilha das privatizações.O "selo" PSDB estaria fadado ao fracasso? Se não ousar defender a obra de FHC, tucanos candidatos a presidente terão chance de vitória em disputas futuras? Parece que não. E argumentos existem.Num certo sentido, o atual PSDB precisa ser implodido, nem que seja para renascer como uma legenda sem medo do passado.
Estilo ACMSerra negou que esteja pensando em criar um novo partido. Chegou a dizer que foi informado dessas articulações pela Folha Online. O futuro governador de São Paulo tem um método autoritário de se relacionar com a imprensa. Só gosta de ver publicadas versões autorizadas. Terá um tortuoso caminho até a Presidência a continuar com o estilo Antonio Carlos Magalhães de relacionamento com a mídia.
O entrave ambientalLula está contrariado com regras ambientais que dificultariam um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 5% ao ano. Deseja que a ministra Marina Silva (Meio Ambiente) seja mais flexível.Deve ter cuidado com suas cobranças por alguma frouxidão na seara ambiental. Após muitos anos de sucateamento, o Ibama teve sua estrutura reforçada no governo Lula. Marina está aplicando a lei. E, ironia do destino, o baixo crescimento do PIB parece estar salvando parte de nossa flora e fauna.

Fonte: folha online