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terça-feira, maio 22, 2012

O roubo do chá da China

No século XIX, um distinto botânico escocês chamado Roberto Fortune partiu em uma arriscada missão para desvendar os segredos da bebida. Essa aventura foi o início de um negócio extremamente lucrativo para a Inglaterra, com o plantio intensivo na Índia


por Eric Pincas

No número 9 da Gilston Road, em Londres, uma placa azul avisa que ali morreu o botânico Robert Fortune, em 1880. Um ilustre desconhecido até mesmo no país do five o’clock tea, o chá das 5, em que perto de 70% da população bebe diariamente uma xícara do líquido aromático. Poucos conhecem a extraordinária aventura desse homem que, na metade do século XIX, roubou, na cara dos chineses, os segredos de seu chá. Foi o início de um negócio extremamente lucrativo para os britânicos: cerca de 900 bilhões de xícaras são consumidas anualmente no mundo todo.
Até hoje nenhum historiador se debruçou sobre a arriscada missão empreendida por Robert Fortune. Coube a Willy Perelsztejn, amante de chás, jurista de formação e produtor de documentários, o mérito de ter desvendado esse episódio importante da história econômica e cultural do ex-Império Britânico. Em 1996, depois de ter lido A rota do chá e das flores, o diário de viagem de Robert Fortune, ele suspeitou que a narrativa romanceada escondia um roteiro bem diferente. Ele então se associou à irmã, Diane, cineasta, e a Joëlle Kilimnik, sua colaboradora, e pesquisou durante quatro anos até conseguir as provas de que a aventura de Fortune se tratava, de fato, de uma espionagem industrial.
Nos anos 1840, a China era o principal produtor e fornecedor de chá no mundo, apesar das tentativas de concorrência das plantações de Assam no nordeste da Índia, cultivadas pelos irmãos Bruce nos anos 1830. Infelizmente para os ingleses, a qualidade desse chá se revelou bem fraca para quem esperava rivalizar com os produtores chineses. Em 1834, a Companhia das Índias Orientais, a serviço da Coroa britânica desde 1599, perdeu seu monopólio sobre a importação do chá em benefício de comerciantes independentes. A autoprodução se tornou, assim, o principal objetivo desse gigante mercantil que controlava, em seu apogeu, no final do século XVIII, um quarto do comércio mundial.
Dependente da China, a Companhia das Índias Orientais fez de tudo para se apropriar de amostras de chá chinês e transplantá-las nas montanhas do Himalaia. Mas ainda faltava encontrar um especialista que conseguisse decifrar os segredos cuidadosamente guardados do know-how chinês. E, ainda, se aventurar em uma área além dos 45 km dos portos abertos aos estrangeiros nas terras da China proibida. Tudo isso parecia muito audacioso.

Em 1848, os olhares se voltaram para Robert Fortune. Ele conhecia a China – tinha vivido lá entre 1842 e 1845, trabalhando para a Sociedade de Horticultura de Londres –, falava chinês, que aprendeu durante essa viagem, já havia se iniciado nos hábitos do Extremo Oriente e levado para a Europa uma centena de plantas desconhecidas dos ocidentais – entre elas o famoso bonsai.
Fortune já era um nome controverso na comunidade científica, por sustentar a opinião de que o chá verde e o preto faziam parte de uma mesma espécie. A afirmação era considerada uma heresia para os ocidentais. Nomeado conservador do Chelsea Physic Garden em 1845, ele parecia ser o homem ideal para realizar o projeto da Companhia das Índias Orientais. Assim, no dia 20 de junho de 1848, ele deixou Southampton em direção a Hong Kong. Ainda não sabia qual era o objetivo de sua missão.
Diane Perelsztejn e Joëlle Kilimnik encontraram nos arquivos da ilustre companhia comercial, conservados na Biblioteca Britânica, a ordem de missão endereçada a Fortune em 3 de julho de 1848 pelo governador das Índias Orientais, o marquês de Dalhousie, seguindo os conselhos do doutor Jameson, botânico encarregado das plantações experimentais no Himalaia: “Você deve selecionar plantas e grãos das melhores espécies de chá verde vindos das principais regiões produtoras e, depois, transportá-los, sob sua responsabilidade, da China a Calcutá e, de lá, até o Himalaia. Você deve também voltar todos os seus esforços para contratar produtores de chá experientes e bons fabricantes, sem os quais não poderemos desenvolver nossas plantações no Himalaia”.
Fortune endossou o papel de espião designado em sua missão sem hesitar. Tanto pelo gosto por aventura como pelo atrativo econômico: a Coroa britânica ofereceu-lhe 550 libras por ano por essa missão que deveria durar 24 meses, enquanto ele recebia 100 libras por ano no Chelsea Physic Garden.

Em setembro de 1848, Fortune já estava em Xangai, então um pequeno porto de comércio considerado o “paraíso dos aventureiros”, aberto a estrangeiros desde o Tratado de Nanquim, assinado em 1842. Um tratado que pôs fim à primeira Guerra do Ópio e representou importantes concessões aos britânicos. Desde 1838, quando o imperador chinês promulgou um édito proibindo seus súditos de fumar ópio, o produto, vindo da Índia, entrava clandestinamente no país. Na época da proibição, cerca de 2 milhões de chineses já tinham se tornado viciados em ópio. Uma desgraça para os homens, mas uma glória para os mercadores britânicos que encontravam nesse sumo de papoula uma moeda de troca que lhes permitia preservar os lingotes de prata da Coroa.
Nesse contexto tenso e hostil aos europeus, Robert Fortune teve de ser astucioso para se misturar à população local sem ser notado. E isso não era uma tarefa fácil, já que ele media cerca de 1,80 metro e tinha um tom de pele cor-de-rosa que entregava sua origem escocesa. Mas Fortune passou a se vestir como os chineses e raspou a cabeça, deixando uma trança como a que tinha usado em sua primeira viagem ao país. Restava torcer para que os camponeses do interior, que nunca haviam visto um europeu, não o identificassem. Acompanhado por dois homens originários da região do chá verde – Wang, empregado doméstico, e um coolie (trabalhador braçal), que aceitaram ajudar o botânico mediante pagamento – Fortune, rebatizado Sing Wah, iniciou seu périplo em direção aos montes Huangshan, região repu-tada por seus chás verdes, passando por Hangzhou e o rio Verde.
A missão se mostrava extrema-mente perigosa. Fortune foi o primeiro, depois dos portugueses, a ousar penetrar na China proibida. Se fosse pego pelos guardas do imperador, certamente seria punido com a pena de morte. Também tinha de escapar dos vários piratas que infestavam a região, lutar contra as correntes de vários rios e encontrar seu caminho a partir de mapas portugueses cheios de erros. Sem falar nos riscos de doenças. Mas Fortune, longe de se desestabilizar, estava, pelo contrário, excitado por se arriscar dessa forma. Como afirmou Willy Perelsztejn: “Foi um brilhante britânico, por ser aventureiro”.

Ao longo de sua expedição, Fortune se entusiasmou diante da diversidade de culturas: pêssegos, ameixas e laranjas à profusão. Uma paisagem montanhosa e cheia de vales que abrigava verdejantes plantações de chá. A cada etapa da viagem, o botânico fazia anotações, que enviava ao jornal Botanical Chronical. Os Perelsztejn encontraram 14 desses artigos.
Acordando bem cedo de manhã para observar a flora, Fortune sabia como os grãos de chá eram venerados nessas terras longínquas. Cada pequena folha verde remetia a uma história de muitos milênios. Ao longo de suas peregrinações na região do chá verde, Fortune constatou que o clima brumoso e a terra rica em prata favoreciam as plantações de chás medicinais. Assim, conseguiu determinar quais eram o clima e o solo ideais para um bom chá. Na região de Ningbo, ele recolheu vários grãos. Frequentemente, seus anfitriões, impressionados pelo porte de seu convidado e suas boas maneiras, ofereciam-lhe seu melhor chá para agradecer a visita. No dia 15 de dezembro de 1848, Fortune escreveu ao governador das Índias: “Tenho o prazer de informar-lhe que consegui uma grande quantidade de grãos e de mudas que, espero, chegarão intactas até a Índia. Estimo que todas pertençam à espécie Thea viridis. (...) Mandei plantar uma boa parte dos grãos coletados durante os dois últimos meses aqui nos jardins com a intenção de enviá-los posteriormente para a Índia”. Os jardins em questão eram os dos consulados e dos negociantes ingleses utilizados por Fortune como laboratório. Tudo o que enviava a Calcutá era dividido em três navios para minimizar os riscos de perda de carga.
Em 12 de fevereiro de 1849, de passagem por Hong Kong, ele comunicou ao governador das Índias seu desejo de prospectar na região dos montes Wuyi Shan, hoje Jiangxi, a dos famosos chás pretos. No caminho, fez uma escala nos templos budistas. Cada um deles ficava ao lado de uma plantação. Vem daí a dimensão espiritual dessa bebida venerada pelos monges – que confiaram a Fortune alguns dos segredos do chá, principal-mente a importância da qualidade da água, condição sine qua non para que as folhas exalem todo seu sabor.

Na região do chá preto, vestido de mandarim da Tartária, ele compreendeu o que faz as folhas de chá verde ficarem marrons ou pretas: a fermentação. Ela é que dá ao chá sua cor escura. O chá Oolong é semifermentado, e o verde não passa por esse processo. Os europeus da época bebiam na maioria das vezes o chá preto, pois ele fermentava durante o transporte no navio. No final de alguns meses, Fortune soube que os primeiros grãos enviados apodreceram durante a viagem.
Ele resolveu, então, adotar as caixas de Ward, que levam o nome do botânico que as inventou no começo do século XIX. São pequenas estufas portáteis, com um fundo de argila, completamente herméticas e que, mesmo expostas à luz, conservam a umidade necessária para a germinação. Mas, antes de voltar para a Índia, Fortune devia convencer alguns fabricantes chineses a acompanhá-los, já que eram os únicos capazes de transmitir seu conhecimento aos produtores indianos. Por intermédio dos compradores – os conselheiros chineses dos negociadores ocidentais –, ele recrutou oito trabalhadores, seis fabricantes e dois produtores de caixas de chá por três anos. Ele conseguiu a garantia do governador da Índia de que eles seriam bem recebidos. O sucesso da operação dependia dessa integração. A partida dos chineses para as Índias não levantava suspeitas. Em 1851, muitos deles deixavam seu império, então em ruínas, indo principalmente para são Francisco e o Eldorado californiano.
Em 16 de março de 1851, Fortune e seus trabalhadores chegavam a Calcutá a bordo de verdadeiros “jardins flutuantes” repletos de caixas de Ward. Mais de 20 mil pés foram plantados nas montanhas do Himalaia. Depois de três anos, Fortune acabou conseguindo fechar o ciclo, adquirindo o conhecimento agronômico indispensável aos produtores indianos para que pudessem fazer concorrência aos chineses.

Fortune deu sugestões para melhorar a cultura do chá: “cultivar no flanco de colinas”, tipo de terreno que havia de sobra no Himalaia; conseguir “um bom terreno com grau de umidade natural”. Também alertou: “Na China o chá nunca é colhido antes do terceiro ou quarto ano; é preciso adaptar as colheitas ao clima (...)”. Willy Perelsztejn insiste no fato de que “as inovações de Fortune em termos de transporte das mudas de chá e os preparadores chineses que selecionou permitiram desenvolver a cultura intensiva do chá na Índia”.
Robert Fortune tinha consciência do valor do segredo de mais de 5 mil anos que tinha acabado de roubar dos Filhos do Céu. Mas não mediu a catástrofe econômica que geraria, no fim do século XIX, para os produtores chineses. Fortune agiu essencialmente pela curiosidade científica, mesmo se a atraente remuneração em troca de seus serviços não o tenha deixado indiferente. Obedecendo, sem pestanejar, às ordens da Companhia das Índias Orientais, ele exprimiu sua mais profunda devoção à Coroa britânica.
De retorno à Inglaterra, o botânico publicou o relato de sua viagem e tomou o cuidado de eliminar todos os detalhes relativos à sua missão de espionagem, tirando certo proveito disso. Ele partiria novamente para a China de 1853 a 1856 para aprimorar seus conhecimentos sobre os chás perfumados e envolver outros fabricantes para o cultivo em grande escala na Índia. Fortune passaria o resto de sua vida na discrição. Não recebeu nenhuma distinção honorífica da Coroa britânica nem porcentagem sobre a mina de ouro que conseguiu descobrir para seu país. Contudo, ele não passaria necessidade em seus últimos dias, o que já era uma oportunidade e tanto para um botânico.

Ao mesmo tempo, nas colinas enevoadas no Himalaia, e principalmente nos hoje célebres jardins de Darjeeling, conhecidos por produzir o “champanhe dos chás”, a produção estava em aumento constante. Em 1866, 4% do chá consumido pelos ingleses vinha das Índias. Em 1903, esse número passou a 59%. Os chineses, que não compreendiam como os segredos do chá pudessem ter escapado, representavam apenas 10% das vendas aos ocidentais. Com o tempo, a China recuperou parte das vendas e hoje é o segundo produtor mundial, com 19%, depois da Índia (34%).
Hoje, o Centro de pesquisa do Chá de Hangzhou, o jardim do Éden onde se cultiva o chá verde, é o único local, na China, onde se podem encontrar os livros de Robert Fortune. Entretanto, ninguém sabe – ainda – que ele atuou como espião a serviço de sua Majestade.
Fonte: Revista Historia Viva-

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Tripulação de Colombo levou sífilis para Europa, diz estudo-29/12/2011

Nova pesquisa afirma que não há evidências para afirmar que a doença surgiu no Velho Mundo, como defende uma corrente de pesquisadores.
Cristóvão Colombo e sua tripulação descobriram a América em 1492. A partir de então, civilizações locais, como incas e astecas, foram dizimadas. Além do poder militar superior, os espanhóis contaram com uma arma biológica imbatível: doenças como sarampo e varíola, que matavam os indígenas sem anticorpos para combater os males europeus. Com a sífilis, porém, pode ter ocorrido o contrário. A bactéria que causou uma das primeiras epidemias globais, com milhares de mortes por todo o Velho Mundo na Idade Média, a partir do século 15, partiu da América para a Europa nos porões dos navios de Colombo. É o que diz um extenso estudo de esqueletos de vítimas, publicado na revista especializada Yearbook of Physical Anthropology. Outra teoria, mais antiga, defende uma origem europeia para a doença, o que é improvável segundo os pesquisadores.

A nova pesquisa analisou 54 outros estudos que apontavam casos de sífilis descobertas na Europa antes de Colombo chegar à América. Segundo os cientistas que participaram do levantamento, todos estes estudos estão incorretos. Nenhum deles resiste, garantem os pesquisadores, a uma análise padronizada de diagnóstico e idade das amostras; que são esqueletos de pessoas que tiveram a doença. A maioria, segundo eles, são casos de diagnósticos errados dos restos mortais. A sífilis deixa marcas nos ossos das vítimas, mas outras doenças podem fazer o mesmo. Em outros casos, diz a estudo, os cientistas encontraram vítimas reais da doença, mas erraram no cálculo da idade dos ossos ao apontarem períodos anteriores à viagem do explorador italiano.

Mariscos e o velho carbono — Os críticos da nova teoria defendem que a bactéria já estava na Europa há milhares de anos e tomou a forma moderna por meio de mutações através das gerações. Mas os poucos esqueletos que passam por uma análise apurada, afirma a pesquisa, são provenientes de áreas costeiras, onde os mariscos eram parte importante da dieta da população.
Nesses casos, os cientistas apontam o chamado "efeito reservatório marinho", causado pela ingestão de frutos do mar com "carbono velho", proveniente do fundo do oceano. Isso, afirmam, "engana" os testes de datação por carbono, utilizados para descobrir a idade das ossadas. "Uma vez que ajustamos o teste para descartar o carbono marinho, todos os esqueletos que mostram sinais claros da presença de treponema parecem datar de uma época posterior à viagem de Colombo", explica Kristin Harper, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, que participou do estudo.
"É a primeira vez que todos esses casos são estudados sistematicamente", afirma o cientista George Armelagos, da Universidade Emory, nos EUA. "São claras as evidências de que a sífilis foi levada da América à Europa pela tripulação de Colombo e que rapidamente evoluiu para a doença venérea que se mantém até hoje", completa.
Risos — Na década de 1980, quando ouviu pela primeira vez a teoria de Colombo para a sífilis, Armelagos não levou à sério. "Eu ri da ideia de que um pequeno grupo de marinheiros pudesse trazer a causa de uma epidemia dessa magnitude", disse. Nas décadas seguintes, porém, ele se aprofundou no estudo da doença e chegou à conclusão de que essa é a origem mais provável para a doença.
A família de bactérias treponema causa a sífilis e outras doenças, com tipos diferentes de contágio. Bouba e bejel, duas das doenças causadas por esse tipo de bactéria, eram comuns entre as populações indígenas do Novo Mundo no século 14, mas sua transmissão acontecia pelo contato com a pele ou saliva dos doentes. Já a sífilis é transmitida sexualmente.
Uma das hipóteses lançadas pelo estudo é a de que as bactérias sofreram mutações ao chegar na Europa. Mais tarde, os exploradores europeus levaram uma variação nova e mortal da bactéria para a terra de seus ancestrais, a América. Outra possibilidade é a de que os espanhóis tenham chegado ao continente americano quando a sífilis se encontrava em estágio inicial, com poucos indivíduos contaminados. Alguns marinheiros, então, podem ter levado a bactéria para a Europa, onde a maior densidade populacional foi fator determinante para seu desenvolvimento.
Para Molly Zuckerman, da Universidade do Estado do Mississippi, outro autor da nova pesquisa, as evidências parecem definitivas. "Mas não devemos fechar o livro e dizer que esgotamos o assunto. A melhor coisa da ciência é sermos capazes de entender as coisas sob uma nova luz constantemente", disse.
Saiba mais

SÍFILIS
É uma doença infecciosa causada pela bactéria Treponema pallidum. Causa feridas na pele e nas mucosas. Se não tratada, pode atingir o cérebro e o coração, levando o paciente à morte.
Tem três estágios. No primeiro, após o contágio, aparece uma ferida chamada "cancro duro" na parte do corpo exposta à bactéria, normalmente o pênis, a vagina, o ânus ou a boca, já que a doença é sexualmente transmissível. A contaminação placentária ou por transfusão de sangue são formas raras de contágio.
O tratamento é feito à base de antibióticos, como a penicilina
Fonte: veja.com

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Povoando o Brasil- Historia

Torre do Tombo é o local onde se guardam todos os documentos antigos. Está situada em Lisboa, junto à Cidade Universitária.
Sentença de 1587 - Trancoso, Portugal[agora vem o melhor:]


Arquivo Nacional da Torre do Tombo

SENTENÇA PROFERIDA EM 1587 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO
(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço 7)

"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres". Não satisfeito tal apetite, o malfadado prior, dormia ainda com um escravo adolescente de nome Joaquim Bento, que o acusou de abusar em seu vaso nefando noites seguidas quando não lá estavam as mulheres. Acusam-lhe ainda dois ajudantes de missa, infantes menores que lhe foram obrigados a servir de pecados orais, completos e nefandos, pelos quais se culpam em defeso de seus vasos intocados, apesar da malícia exigente do malfadado prior.




"El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos dezessete dias do mês de Março de 1587, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e, em proveito de sua real fazenda, o condena ao degredo em terras de Santa Cruz, para onde segue a viver na vila da Baía de Salvador como colaborador de povoamento português. El-rei ordena ainda guardar no Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo".

domingo, fevereiro 15, 2009

História


Gerónimo

Em 16 de Junho de 1829 nasce Gerónimo, guerreiro apache.

Quando nasceu chamaram-lhe Goyathlay (O Que Boceja). Era uma curandeiro ou feiticeiro apache que, embora nunca tenha sido chefe tinha uma influência enorme sobre os seus compatriopas. Foi admitido no Conselho de Guerra dos Apaches Chiricahuas em 1846. Participou em inúmeros ataques contra os colonizadores mexicanos e americanos.Depois do assassinato da sua mãe, mulher e três filhos pelo exército mexicano, começa a fazer incursões de represália em território mexicano. Vingou a sua família no massacre de Kas-ki-yeh, no dia 30 de Setembro de 1859, dia de São Jerónimo.Conta-se que os gritos dos mexicanos invocando a protecção de São Jerónimo (Jerónimo! Jerónimo) o inspiraram a tomar como seu o nome de Gerónimo, com que ficou para a história.

terça-feira, janeiro 27, 2009

História- GUERRA DE TRÓIA

A GUERRA SEM FIM

A guerra de Tróia talvez nem tenha acontecido. Se aconteceu, a causa pode não ter sido o rapto de Helena. Como pode não ter existido o famoso cavalo de madeira que iludiu os troianos: quem sabe os gregos atacaram pelo mar.
"Quando a lenda fica mais interessante do que a realidade, publique-se a lenda". (John Ford, cineasta americano, pela boca do jornalista personagem do seu clássico O Homem que Matou o Facínora). Melhor exemplo dessa verdade não existe do que a Guerra de Tróia. Com seu cavalo fantástico, o rapto de Helena pelo apaixonado Páris, o herói Aquiles e seu calcanhar vulnerável, os deuses e as deusas do Olimpo assanhadíssimos, divididos entre gregos e troianos e fazendo, periodicamente, com que a sorte favorecesse um ou outro lado graças aos seus poderes divinos. Tudo isso está contado na Ilíada, poema épico de Homero, escrito aí pelo século IX a.C. Mais recente e quase tão fantasiosa quanto a lenda que pretende conferir, é a batalha travada há bem uns cem anos por historiadores e arqueólogos em torno do que haveria de verdade nos episódios narrados por Homero. A lenda conta que a guerra foi provocada pelo rapto de Helena, a filha de Tíndaro, o rei de Esparta. Helena era tão bonita, tinha tantos pretendentes, que seu pai já previa alguma coisa desse tipo, tanto que promoveu uma grande reunião de todos os interessados e obteve deles um compromisso: qualquer que fosse o escolhido por Helena, os demais se comprometiam a defender o casal contra as ofensas que pudesse sofrer.
Helena escolheu Menelau, que graças a essa preferência tornou-se, além de seu marido, rei de Esparta. E a vida correu feliz e serena até o dia em que Páris, filho do rei de Tróia, Príamo, conheceu Helena e por ela se apaixonou. Páris não tinha sido um dos pretendentes preferidos, não estava amarrado ao compromisso por Tíndaro, e fez o que era muito comum na época: raptou Helena e levou-a para Tróia. O gregos até que tentaram negociar e esquecer o episódio, mas os troianos não aceitaram. Assim, Agamenon, irmão do ofendido Menelau, convocou todos os antigos pretendentes à mão de Helena, lembrou-lhes o pacto de fidelidade e organizou a primeira expedição contra Tróia. Foram dez longos anos de luta em que a sorte ora pendeu para um lado, ora para outro. E acabou sendo Ulisses, um guerreiro grego sem nenhum poder extraordinário, a não ser uma cabeça fértil para inventar truques e expedientes, quem pensou no estratagema que os levaria à vitória: construir um grande cavalo de madeira, capaz de abrigar, em seu interior, alguns guerreiros.
Os troianos, que consideravam o cavalo um animal sagrado, recolheram o presente deixado diante do portão de suas muralhas, acreditando ser um reconhecimento da derrota por parte dos gregos, e passaram a noite comemorando a vitória. Os soldados escondidos dentro do cavalo aproveitaram a festa para sair, abriram os portões e Tróia foi invadida e destruída. Nasceu aí a expressão presente de grego. Essa é a lenda, em linhas bem gerais. Em 1870 o negociante alemão Heinrich Schliemann, autodidata e arqueólogo amador, após estudar detidamente os textos de Homero, lançou-se à localização de Tróia, fazendo escavações por conta própria. Detevesse na colina de Hissarlik, na entrada do estreito de Dardanelos, atual Turquia. Em companhia da mulher, Sofia, e de outros colaboradores, descobriu vasos de ouro, jarras de prata, braceletes e colares cuidadosamente fabricados. Deduziu, então, que teriam pertencido a um rico e poderoso senhor: seria o tesouro de Príamo, rei de Tróia e pai de Páris. Mas a declaração de Schliemann, de que havia encontrado Tróia e seu famoso tesouro, não resistiu aos ataques dos historiadores especializados.
Hoje, a maioria dos arqueólogos afirma que o tesouro apresentado por Schliemann não passava de um conjunto de peças isoladas recolhidas durante as escavações. O grande mérito do pesquisador alemão foi descobrir que na colina de Hissarlik existiram várias Tróias, cada uma construída sobre as ruínas da outra, e que a região estava habitada desde a Idade do Bronze, por volta de 3.000 a.C, até o ano 400 da nossa era. Ao todo existiram nove Tróias. As primeiras de Tróia I a V, correspondem à Idade do Bronze egeu; Tróia VI, ao Bronze médio e final; Tróia VII teria sido habitada por um povo diferente que deixou o local cerca de 700 a.C, época que corresponde ao início de Tróia VIII; e, por fim, Tróia IX, que era a cidade romana de Ilium Novum.
Como foi possível fazer de uma montanha a base de várias cidades? Especialistas explicam que Tróia I estava sobre a base e ali se levantaram casas feitas de pedra, terra, adobe, madeira e palha; pouco resistentes, eram sujeitas a incêndios que rapidamente as destruíam por estarem, além do mais, muito próximas umas das outras. Na época do cobre e do bronze, as cidades apenas começavam a se desenvolver. Se ocorria um terremoto ou um incêndio, tirava-se o que era aproveitável das ruínas, aplainava-se o que restara e construíam-se novas casas em cima. Assim, uma cidade se edificava sobre a outra. Era costume naquela época jogar no chão desde restos de comida até utensílios quebrados. Mas, a partir de determinado momento, ficava insuportável conviver com a sujeira e então cobria-se o chão com uma espécie de capa de barro e tudo ficava novo e limpo.
O pouco recomendável costume dos troianos teve pelo menos uma serventia: ajudou os arqueólogos a descobrir se as casas das quais, na maioria das vezes, só ficavam os muros, foram habitadas por muito ou pouco tempo. Para Schliemann, a Tróia de Príamo era a Tróia II. Depois de sua morte, em 1890, outro pesquisador, o arqueólogo Wilhelm Dörpfeld, também alemão, prosseguiu as escavações em 1892 e 1893 e estabeleceu que Tróia VI tinha sido o cenário da guerra. No entanto, pesquisadores da universidade norte-americana de Cincinatti, que ali realizaram escavações de 1932 a 1938, concluíram que Tróia VII era a Tróia de Príamo. A chave para se saber qual era a Tróia da guerra era provar a existência do inimigo, isto é, dos gregos do final da Idade do Bronze, a época de Tróia VII.
Tudo estaria esclarecido não fosse por uma questão: embora Homero diga que Tróia foi destruída por um incêndio, as últimas escavações provam que o que houve ali foi um terremoto e que depois os assentamentos continuaram. Diante disso, o historiador inglês Moses Finley, falecido em 1986, abriu fogo: "Não há uma só prova consistente de que a colina de Hissarlik coincida com a Tróia da Idade do Bronze que Homero descreve, nem de que a guerra entre troianos e gregos tenha alguma vez existido. Propomos tirar definitivamente a guerra de Tróia dos livros de História". Entretanto, uma descoberta do lingüista Calvert Watkins, professor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, desmontou um dos principais argumentos dos críticos de Homero.
Ao examinar primitivos documentos escritos em uma extinta língua da antiga Anatólia, na região orienta do que hoje é a Turquia, Watkins encontrou o seguinte fragmento de texto: "... quando vinham os alcantilado de Wilusa...". Para ele, o fragmento seria parte de uma primitiva Ilíada escrita em hitita, a língua dos troianos. Os alcantilados de Wilusa (que significam rochas escarpadas de Wilusa) são, segundo Watkins, os que aparecem na Ilíada como "os 'alcantilado' de Ilíon". Tróia era também chamada de Ilíon. Tal descoberta derrubava a teoria de que uma cidade grande e poderosa como Tróia, que apoiava o império hitita, não constava dos testemunhos escritos sobre aquele povo. Os críticos de Homero também duvidavam da descrição dos funerais de Pátroclo, grande amigo do guerreiro Aquiles, mencionados no final da Ilíada. O poema diz que ele foi cremado. Os céticos afirmavam que naquela época não era costume cremar os mortos.
Recentemente, porém, arqueólogos alemães, que há três anos realizam escavações no porto de Tróia, na baía de Besica, sob o comando do professor Manfred Körfmann, da Universidade de Tübigen, descobriram vestígios de piras onde os mortos eram cremados. Mas se Tróia existiu, será que isso quer dizer necessariamente que houve também a guerra de Tróia? Como e por que ela se deu? Ao que parece, os motivos foram mais banais do que o resgate da honra de Menelau e, sua mulher, Helena. Como a corrente marítima na parte mais estreita dos Dardanelos é muito mais forte, um barco mercante da Idade do Bronze só poderia chegar ao Mar Negro se contasse com bons ventos a seu favor. Mas, à excessão de uns poucos dias do ano, o vento sopra na direção oposta, de Leste a Oeste. Por isso, os gregos preferiam desembarcar suas mercadorias no porto de Tróia para que fossem transportadas até o Mar de Mármara, a meio caminho entre o estreito e o Mar Negro, através da planície troiana.
Mesmo que resolvessem esperar pelos ventos favoráveis os gregos dependiam dos troianos. E estes certamente cobravam pelos serviços prestados, tais como estadia na baía, abastecimento de água e alimentos, transporte de mercadorias por terra, etc. É possível até que os troianos cobrassem pedágio ou saqueassem um barco de vez em quando. Do ponto de vista arqueológico não há nada que prove que Tróia fosse um covil de ladrões, mas é cabível que uma cidade situada no eixo do comércio entre o Mar Egeu e o Mar Negro representasse um problema para os gregos. Logo, qualquer pretexto servia para liquidar aqueles que tanto atrapalhavam seus negócios.
O historiador Francisco Murari Pires, professor de História Antiga da Universidade de São Paulo, acha provável que um evento como a guerra de Tróia tenha existido, embora o conjunto de documentos descobertos não permita uma afirmação exata, precisa. O que a lenda quer preservar, diz ele é que o fim da Idade do Bronze e o inicio da Idade do Ferro correspondem a um período de desestruturação do império hitita. Havia uma situação de conflito permanente entre hititas e gregos. Ambos disputavam o controle sobre os reinos que apoiavam tradicionalmente o império hitita e que, em conseqüência da atuação do gregos, começaram a se desestabilizar.
Com base nos conhecimentos históricos e arqueológicos disponíveis, arqueólogo alemão Franz Stephan reconstituiu o que em sua opinião pode ter sido a guerra de Tróia: os troianos, enfraquecidos por causa de um terremoto, não estavam preparados para enfrentar uma guerra. Os gregos, sabendo disso, atracaram no porto inimigo um veleiro com aparência de barco mercante; só que, em vez de mercadorias, transportava uma tropa de elite. Durante a noite o comando grego tomou a cidade. Nessa versão, não há lugar para o Cavalo de Tróia. O professor Murari Pires diz que é impossível resolver essa questão. Mas, verdade histórica ou não, a lenda é importante por fixar o principio de que uma guerra não se decide só pela força. "Tanto o valor da astúcia, da manobra enganosa", observa Murari, "quanto o valor do guerreiro propriamente dito estão em pé de igualdade." Por mais que historiadores e arqueólogos tentem demonstrar a veracidade do episódio, o que parece prevalecer na memória do homem comum é a imagem poética da lenda, que tem contornos muito mais fortes do que a realidade. Por mais pesquisas que se façam, é pouco provável que um dia essa situação seja invertida.
Fonte: Revita superinteressante online

quinta-feira, dezembro 25, 2008

História- JESUS VIII

Este homem chamado Jesus

Os Evangelhos
Quase tudo o que sabemos da vida de Jesus vêm de narrativas conhecidas como evangelhos (palavra de origem grega que significa boa nova). A veracidade desses textos chegou a ser contestada por historiadores tão influentes quanto Ernest Renan (1823-1892) e teólogos tão importantes quanto Rudolf Bultmann (1884-1976).
De fato, vários evangelhos seguem a estrutura de um gênero literário muito apreciado na Antigüidade: os relatos sobre a vida de homens ilustres. Seus autores não tinham a preocupação de documentar rigorosamente os acontecimentos narrados. E misturavam, com muita liberdade, ingredientes históricos, lendários e doutrinários. É esse tempero peculiar que confere às obras seu sabor inconfundível.

As influências
São evidentes nos evangelhos as influências de antigas tradições judaicas, de mitologias pagãs (greco-romana e orientais) e de correntes esotéricas do século 1 d.C.. Mas isso não diminui sua confiabilidade como fontes de informação factual. Ultrapassando as objeções de Renan e Bultmann, os pesquisadores da atualidade tendem a valorizá-los cada vez mais.
Há um grande número de evangelhos. Apenas quatro são aceitos por todas as igrejas cristãs: os chamados canônicos (de acordo com a regra), atribuídos aos redatores Marcos, Mateus, Lucas e João. Os demais foram considerados apócrifos (não-autênticos). Porém, alguns deles vêm despertando grande interesse entre os estudiosos. É o caso do Evangelho de Tomé, redescoberto em Nag Hammadi, no Egito, em 1945.
O evangelho mais antigo, o de Marcos, deve ter sido redigido em sua forma final entre os anos 66 e 68 d.C. (certamente antes de 70 d.C.), data da destruição de Jerusalém pelos romanos, pois não há nele qualquer alusão a esse importante acontecimento. Na década de 80 d.C., apareceram, na forma como os conhecemos hoje, os evangelhos de Mateus e Lucas. Entre 90 e 110 d.C., concluiu-se a redação do evangelho de João. Na mesma época ou pouco depois, foi finalizado o Evangelho de Tomé.

Os evangelhos são narrativas confiáveis?
Um dos argumentos levantados contra a credibilidade dos evangelhos são as datas relativamente tardias de sua composição. Afirma-se que eles foram escritos várias décadas depois dos fatos narrados, quando a memória dos acontecimentos já estava deturpada. Mas esse ponto de vista é rejeitado hoje pelos especialistas. Pois cada evangelho passou por uma longa e complexa elaboração antes de chegar ao texto final. Para se ter uma idéia, o evangelho canônico mais recente, o de João, levou quatro décadas até alcançar sua forma definitiva. Isso já deslocaria a versão original dos anos 90-110 para os anos 50-70. É pouco provável que qualquer um dos evangelhos citados seja obra de um único homem. A análise textual indica que eles correram de mão em mão antes de assumirem o formato que conhecemos hoje.

Tudo começou com o Querigma
Os pesquisadores acreditam que, antes de qualquer registro escrito, se consolidou, muito cedo, uma tradição oral acerca da vida e da mensagem de Jesus. Seu núcleo era o querigma (palavra grega que significa anúncio). O querigma era uma fórmula curta, de forte impacto emocional, utilizada pelos discípulos para converter os ouvintes. Em torno dele, juntaram-se frases e parábolas atribuídas a Jesus e um relato mais detalhado de sua morte e ressurreição. À medida que as testemunhas oculares dos acontecimentos começaram a morrer, as comunidades cristãs sentiram a necessidade de fixar essa tradição por escrito. Os textos primitivos passaram, depois, por sucessivas reelaborações, nas quais o material original recebeu acréscimos, sofreu cortes ou foi adaptado às concepções do grupo a que pertenciam os redatores.

Por que sinóticos?
Em sua forma final, os quatro evangelhos canônicos aparecem redigidos em grego, o idioma falado pelos judeus que viviam fora da Palestina. O texto atribuído a Tomé é a versão em língua copta de um original grego. Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas apresentam tantas semelhanças que era costume colocá-los em colunas paralelas, de modo que pudessem ser abarcados com um só olhar. Daí serem chamados de sinóticos. Eles possuem 330 versículos em comum. Acredita-se que sua redação passou por três etapas: a arcaica, a intermediária e a final. Ao longo dessas etapas, os redatores teriam se influenciado uns aos outros. E também utilizado materiais retirados de documentos independentes, jamais localizados.
Essa hipótese, baseada numa análise crítica dos textos finais, recebeu, em 1992, um reforço espetacular. Foi a descoberta, numa das grutas do sítio arqueológico de Qumran, na região do Mar Morto, em Israel, de um fragmento de papiro, datado do ano 50 d.C., onde se pode ler, em caracteres gregos, trechos de dois versículos do evangelho de Marcos. É impossível saber se o fragmento corresponde ao próprio evangelho ou a algum documento perdido, que o redator utilizou como fonte. De qualquer modo, o achado desmente a idéia de uma composição tardia e, portanto, pouco confiável das narrativas evangélicas. Duas décadas depois da morte de Jesus, sua história já estava sendo escrita.

A época em que Jesus viveu
Na época em que Jesus nasceu, os territórios que correspondem hoje a Israel e à Palestina se encontravam sob domínio romano. Antes disso, desde o século 6 a.C., a região fora conquistada sucessivamente por babilônios, persas e gregos. Roma consolidou sua ocupação em 63 a.C.. E, no ano 40 a.C., o estrangeiro Herodes foi proclamado rei da Judéia pelo senado romano. Seu pai, Antípatro, ocupara a função de procurador na administração romana - cargo cuja principal tarefa consistia em supervisionar a cobrança de impostos. Com muita habilidade política e nenhum escrúpulo, um exército de mercenários e as bênçãos de Roma, Herodes impôs seu reinado sobre um território que se estendia da Síria ao Egito. Foi chamado o Grande graças a um fabuloso programa de obras urbanísticas e arquitetônicas.

O governo de Herodes
Em seu governo, Jerusalém e muitas outras cidades foram reurbanizadas à moda romana: cortadas de ponta a ponta por grandes avenidas (o cardo máximo), subdivididas por ruas formando ângulos retos e embelezadas com palácios, anfiteatros, hipódromos, piscinas e jardins. Acima de todas as obras, destacou-se a suntuosa reconstrução do Templo de Jerusalém, com a qual o rei esperava conquistar a simpatia dos judeus, que o odiavam. O preço desse frenesi de edificações foi a extorsão e a opressão ilimitadas do povo. Constantemente amedrontado pela idéia de perder o poder, Herodes recorreu a todo tipo de crime, inclusive o assassinato de membros de sua própria família. Quando ele enfim morreu, no ano 4 a.C., o reino foi dividido entre seus filhos Arquelau, Filipe e Herodes Antipas, que, sem possuírem o talento do pai, seguiram fielmente seu figurino político.
Jesus nasceu ainda no reinado de Herodes, viveu em territórios governados por seus filhos e morreu sob o poder do romano Pôncio Pilatos, procurador da Judéia entre 26 e 36 d.C.. Foi um período excepcionalmente conturbado na história do povo judeu. A cobrança de impostos, a opressão política e a ingerência estrangeira em assuntos religiosos despertavam exaltada oposição popular e geravam um clima de revolução iminente. Na década de 60 d.C., 30 anos depois da morte de Jesus, o país explodiu em levantes generalizados contra o domínio romano. A repressão a esse movimento insurrecional culminou, em 70 d.C., com a destruição de Jerusalém pelas legiões comandadas por Tito, futuro imperador de Roma.

História- JESUS VII

Jesus: O Nascimento

Você sabia que Jesus nasceu antes do que costumamos chamar de era cristã?Descubra aqui por que os historiadores ainda discutem detalhes dessahistória que marcou o início do cristianismo.

A data
O nascimento de Jesus é o episódio que supostamente assinala o início da era cristã. Mas, devido a um erro de cálculo, cometido no século 6 d.C. pelo monge Dionísio, o Pequeno, as duas datas não coincidem. Sabe-se hoje que Jesus nasceu antes do ano 1 - entre 8 e 6 a.C. Pode-se afirmar isso com razoável segurança, graças a uma passagem muito precisa do evangelho de Lucas. Segundo o evangelista, o fato aconteceu na época do recenseamento ordenado pelo imperador romano César Augusto. Esse censo, o primeiro realizado na Palestina, tinha por objetivo regularizar a cobrança de impostos. E os historiadores estão de acordo em situá-lo no período que vai de 8 e 6 a.C.
Nesse triênio, o ano mais provável é 7 a.C. Pois nele se deu um evento astronômico que poderia explicar uma outra passagem da narrativa evangélica: a estrela natalina mencionada por Mateus. Trata-se da conjunção dos planetas Júpiter e Saturno, que produziu no céu um ponto de brilho excepcional. Se o astro de Mateus for mais do que um enfeite mitológico, ele deve corresponder a tal fenômeno, que certamente impressionou os astrônomos da época. Esses sábios, atraídos a Jerusalém pelo movimento aparente do ponto luminoso, seriam os magos do Oriente, de que fala o evangelista. Com o recenseamento de Lucas e a estrela citada por Mateus, conseguimos chegar o mais perto possível do ano do nascimento. O mês e o dia continuam, porém, em aberto.

Festival Pagão X Festa de Natal
O 25 de dezembro é obviamente uma data simbólica. Nesse dia, ocorria em Roma o festival pagão do Solis Invictus (Sol Invencível). Realizado logo depois do solstício de inverno - quando o percurso aparente do Sol ocupa sua posição mais baixa no céu - o evento celebrava o triunfo do astro, que voltava a ascender no firmamento. Muito cedo, os cristãos associaram as virtudes solares a Jesus, atribuindo-lhe várias qualidades do deus Apolo. Não surpreende que acabassem por transformar o festival pagão na sua festa de Natal. Isso aconteceu por volta do ano 330 d.C.

A ascendência do Messias
Mateus, seguido por Lucas, afirma que Jesus nasceu em Belém - hoje em território palestino. Essa afirmação chegou a ser contestada por alguns estudiosos contemporâneos. Pois Belém era a cidade de Davi e, segundo a tradição, o Messias esperado deveria surgir entre a descendência desse antigo rei de Israel.
Situar o nascimento em Belém - dizem os contestadores - era uma forma de legitimar Jesus na condição de Messias. Embora interessante, esse raciocínio crítico não se apóia em nenhuma prova convincente. Lucas, ao contrário, oferece um bom argumento a favor de Belém: José, o esposo de Maria, futura mãe de Jesus, pertencia a uma família originária daquela cidade e a regra do recenseamento exigia que cada indivíduo se alistasse em sua localidade de origem. Por isso, a maioria dos especialistas aceita Belém sem reservas.

O lugar onde Jesus nasceu
De passagem por essa cidade, José e Maria procuraram onde se alojar. Mas, segundo Lucas, "não havia um lugar para eles na sala". A palavra sala (katalyma, em grego) tanto pode designar uma pousada como a casa de algum parente de José. Estando o local cheio, devido ao grande número de pessoas vindas de outras regiões para o recenseamento, o casal teve que se acomodar do lado de fora, talvez sob um alpendre, junto à manjedoura dos animais. Foi aí que Maria deu à luz.
O nascimento de Jesus nesse local humilde, rejeitado pelas "pessoas de bem", possui um profundo significado teológico. Ele repete a saga de grandes personagens mitológicos, como o deus indiano Skanda-Murugan (correspondente ao Dioniso dos gregos), que nasceu entre os caniços do pântano. E anuncia a trajetória futura daquele que seria a mais perfeita expressão da figura arquetípica do Servo de Deus.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

História- JESUS VI

Jesus: os anos de aprendizado

A infância e a juventude de Jesus não devem ter sido muito diferentes dade qualquer menino judeu da Galiléia naquela época. Aqui você mergulha na infância do Menino Jesus.

As primeiras letras
No tempo de Jesus, o analfabetismo era muito raro entre os judeus do sexo masculino. Pois, ao completar 13 anos, os meninos deviam comparecer à sinagoga e ler uma passagem da Torá (as Sagradas Escrituras judaicas, constituídas pelos cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Era o Bar-Mitzvá, um rito de passagem no qual o jovem se tornava responsável por todos os seus atos. Por força dessa tradição, todos os garotos recebiam uma instrução elementar, que compreendia a leitura, a escrita, a história do povo judeu e o conhecimento dos principais salmos da Bíblia, adotados como orações.
Jesus teve certamente acesso a essa educação básica. E a famosa passagem de Lucas, na qual o menino Jesus debate com os doutores do Templo, é interpretada por alguns especialistas como sendo sua cerimônia de Bar-Mitzvá.

Teria sua instrução se interrompido nesse estágio?
Durante muito tempo, acreditou-se que a pobreza da família impedira seu acesso à educação superior. Tal suposição parecia concordar com certas passagens dos evangelhos - como um trecho de João no qual os ouvintes se admiram com seus ensinamentos, dizendo: "Como pode ser ele versado nas Escrituras, sem as ter estudado. Mas a opinião dos pesquisadores começou a mudar nos últimos anos".
Um estudo mais profundo das narrativas evangélicas e principalmente uma nova compreensão da sociedade judaica da época, parece indicar que nem sua família era tão pobre nem sua instrução parou no nível elementar. Na verdade, os especialistas se inclinam cada vez mais a encará-lo como um rabino, altamente versado na cultura tradicional de seu povo. Rabino, aliás, é o título pelo qual seus interlocutores o tratam em inúmeras passagens dos evangelhos.

Jesus seria um rabino?
Uma das formas de se obter essa educação superior era participar dos círculos de discípulos de rabinos ilustres. Paulo - que inicialmente perseguiu os seguidores de Jesus e depois se tornou o principal teórico e propagandista do cristianismo - recebeu esse tipo de instrução junto ao rabino Gamaliel, um dos maiores mestres da época. Teria Jesus vivido uma experiência parecida? É possível. Porém os evangelhos não fornecem nenhuma informação a respeito. Marcos e João começam seu relato com Jesus prestes a iniciar sua missão, aos 30 ou, mais provavelmente, 33 anos de idade. Mateus e Lucas traçam um brevíssimo retrato da infância e, daí, pulam para a idade adulta. Alguns apócrifos apresentam outras cenas infantis, mas são narrativas tardias e tão fantasiosas que não despertam confiança. O resultado de tudo isso é uma lacuna de cerca de 20 anos na "biografia" do Homem.
Essa omissão de dados deu margem a todo tipo de especulação. Alguns autores associaram Jesus à comunidade dos essênios - conjectura totalmente descartada pelas pesquisas mais recentes. Outros o fizeram viajar à Índia, em busca de conhecimentos esotéricos. Não há nenhuma prova a favor ou contra essa hipótese. De qualquer modo, apesar de fascinante, ela é desnecessária, pois a sabedoria oculta estava disponível na Palestina. O Antigo Testamento menciona explicitamente a existência de confrarias místicas no tempo dos profetas Elias e Eliseu. Elas certamente continuavam a existir, e até com maior expressão, no século 1 d.C., quando o judaísmo se encontrava dividido num sem número de partidos e seitas.
A eventual participação do jovem Jesus num desses círculos iniciáticos é assunto polêmico. Mas poderia explicar as peculiaridades de alguns de seus ensinamentos, certas passagens obscuras de sua vida, e até mesmo a maneira como estruturou seu próprio grupo de discípulos.

O jovem trabalhador
A tradição cristã diz que José, o esposo de Maria, exercia a profissão de carpinteiro. O evangelho de Marcos vai além. E afirma que o próprio Jesus seguia esse ofício: "Não é este o carpinteiro, o filho de Maria (...)?", perguntam seus ouvintes, admirados com a profundidade dos ensinamentos que acabara de proferir na sinagoga.
Esse dado é muito verossímil, pois, na época, as profissões passavam de pai para filho. Mas a tradução não faz inteira justiça ao texto grego do evangelista. Pois a palavra tékton, utilizada por Marcos, possui um significado mais amplo, e se aplica tanto à função de carpinteiro quanto às de pedreiro e serralheiro.
O mais provável, portanto, é que Jesus fosse um trabalhador autônomo, capaz de exercer essas diferentes habilidades profissionais, de acordo com a demanda dos clientes. Tal interpretação converge com o que escreveu o autor cristão Justino de Roma, no ano 150 d.C.. Esse escritor, que nasceu na Galiléia, a região onde Jesus viveu, afirma que ele fazia cangas para bois e arados.

A língua do Mestre
O idioma usado por Jesus no dia-a-dia era o aramaico. Pois, em sua época, o povo já não falava mais o hebraico. Considerado uma língua sagrada, o hebraico era empregado apenas na composição de obras eruditas e nos ritos religiosos.

A língua do povo
Na comunicação cotidiana, desde a época do exílio na Babilônia (586 a.C.- 538 a.C.), só se utilizava o aramaico. Trata-se de um idioma do grupo semítico, originário da Alta Mesopotâmia, falado ainda hoje em círculos restritos. É tão semelhante ao hebraico quanto o espanhol ao português. E, a partir dos últimos reinados assírios e persas, no século 6 a.C., tornou-se uma língua internacional, empregada principalmente no comércio.
Nas sinagogas, as leituras dos textos eram feitas em hebraico. Mas, para que as pessoas comuns pudessem compreendê-las, um servente as traduzia ao aramaico. Como rabino, Jesus estava perfeitamente familiarizado com o idioma sagrado. Isso fica bem claro numa passagem do evangelho de Lucas, na qual ele lê na sinagoga um trecho do livro do profeta Isaías, e depois o comenta para os ouvintes. Segundo os estudiosos, a leitura foi feita em hebraico e o comentário em aramaico.

As línguas estrangeiras
A terceira língua falada na região era o grego, o inglês da época, disseminado por todo o Oriente Médio com as conquistas de Alexandre, o Grande, no século 4 a.C.. O grego era utilizado, principalmente, pelas comunidades judaicas que viviam fora da Palestina. Mas é bem provável que Jesus o conhecesse. Quanto ao latim, o idioma do Império, seu uso se restringia aos quadros da administração romana.

História- JESUS V

Jesus: O Libertador

O povo de Israel esperava um guerreiro que os libertasse dos seus opressores.Jesus pregava o amor irrestrito e o Reino de Deus na Terra. Saiba mais sobre o choque inevitável entre duas visões tão diferentes.

Esperando um guerreiro invencível
No tempo de Jesus, a expectativa em relação à volta do Messias tornou-se extraordinariamente intensa. Era a resposta do imaginário popular frente a um contexto de aguda opressão econômica, social e política e profunda crise dos valores tradicionais. Como enviado de Deus, o Messias deveria liderar uma revolução capaz de enxotar os dominadores romanos e derrubar a corrupta dinastia herodiana, restaurando uma realeza legítima em Israel.
Isso era o que o povo esperava de Jesus. Na condição de Messias, ele foi recebido em triunfo em Jerusalém, no início de sua última semana de vida. Mas a rápida evolução dos acontecimentos frustrou essa expectativa guerreira, nacionalista e monárquica. E a frustração popular foi habilmente explorada pelos inimigos de Jesus (especialmente os saduceus), que o condenaram à morte.

Por que o povo abandonou Jesus?
No famoso livro Jesus Cristo Libertador, o teólogo brasileiro Leonardo Boff analisa essa contradição entre a atuação do mestre e as ilusões messiânicas de seu tempo. A prática de Jesus, diz Boff, contesta as estruturas da sociedade e da religião da época. Ele não se apresenta como um reformista ascético à maneira dos essênios, nem como observante da tradição como os fariseus, mas como um libertador profético. No entanto, prossegue o teólogo, Jesus não se organizou para a tomada do poder político. Pois sempre considerou o poder político como tentação diabólica, porque implicava uma regionalização do Reino, que é universal.

A revolução de Cristo
A revolução messiânica que muitos aguardavam tinha um caráter imediatista e limitado. Bastava libertar o país da dominação estrangeira, restabelecer a legitimidade política e tudo estaria resolvido. A revolução proposta por Jesus era um processo de longo prazo, incomparavelmente mais amplo e profundo. Ela deveria ocorrer no interior das consciências, exteriorizando-se como transformação radical de toda a existência. Sua meta: realizar o Reino de Deus na Terra. "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância", afirma Jesus, no evangelho de João.

História- JESUS IV

Jesus foi um iniciado?

Muitos estudiosos levantam pistas sobre um período da vida de Jesus no qual eleteria se dedicado ao estudo das religiões esotéricas da época, incluindo a Cabala,a mística judaica. Mergulhe nesse fascinante universo de indagações.

Alguns evangelhos apócrifos (Tomé, Felipe, Pistis Sophia e outros) atribuem a Jesus ensinamentos esotéricos que se aproximam muito do gnosticismo (corrente mística que teve sua maior expressão no século 2 d.C.). A autenticidade das supostas palavras do mestre é duvidosa no Pistis Sophia (Fé e Sabedoria) - um documento tardio, do século 2 ou 3, que apresenta uma doutrina gnóstica extremamente rebuscada. Mas parece bastante plausível em Tomé. Certos especialistas chegam mesmo a afirmar que muitas de suas sentenças são mais confiáveis do que as correspondentes nos evangélicos canônicos. A imagem de Jesus que resulta desses textos é bem mais complexa do que a convencional.
Teria ele transmitido dois corpos complementares de ensinamentos: um, exotérico, adaptado à capacidade de compreensão do grande público; outro, esotérico, destinado a um círculo mais íntimo de discípulos?
Numerosas correntes espirituais, dentro e fora do cristianismo, acreditam que sim. Para umas, ele foi um grande mestre da Cabala, a tradição mística judaica. Para outras, o portador de um conhecimento oculto que vem sendo comunicado à humanidade desde tempos imemoriais - conhecimento cujas origens remontam aos mais antigos iogues indianos e, antes deles, aos xamãs pré-históricos. As duas hipóteses não são contraditórias. E mais algumas poderiam ser acrescentadas.
Nesse terreno movediço das suposições, é muito arriscado fazer qualquer afirmação taxativa. Mas, apenas como subsídio à reflexão, é interessante rever, à luz dessas hipóteses, algumas passagens da história de Jesus:

O batismo
Após um período de aproximadamente 20 anos, do qual nada se sabe, ele iniciou sua atuação pública. Essa nova fase da vida foi precedida por um rito iniciático adotado por várias tradições místicas. Trata-se do batismo. A prática era utilizada pelos essênios. Mas não apenas por eles. Comunidades esotéricas de diferentes épocas, regiões e ambientes culturais recorreram e ainda recorrem ao mesmo ritual. Nele, o aspirante vivencia, de maneira simbólica, um processo de morte e renascimento. Ao ser submerso na água, "morre" para sua antiga existência. Emergindo dela, renasce para uma vida nova.

A prova de fogo do deserto
Depois do batismo, Jesus viveu ainda uma outra experiência iniciática, jejuando durante 40 dias no deserto da Judéia. Provas desse tipo são tão antigas quanto o xamanismo e continuam a ser utilizadas por várias tradições místicas. Sua função é submeter o aspirante a uma condição de isolamento e privação, na qual ele seja levado a confrontar o lado sombrio de si mesmo. Nos evangelhos - especialmente em Mateus - esse domínio obscuro da psique assume a forma do Diabo, que assedia Jesus com três tentações: quebrar o jejum, transformando em pães as pedras do deserto; atirar-se do alto do Templo de Jerusalém, para que os anjos o amparassem; adorar o próprio Diabo, em troca do reinado sobre a Terra. Essas três tentações poderiam ser analisadas à exaustão. Mas basta dizer que elas tinham todas o mesmo objetivo: desviar Jesus de sua missão, levando-o a direcionar seus poderes para metas egoístas. Ele as rejeitou, de maneira soberana.

O círculo hermético
Iniciada a missão, suas ações e palavras passaram a atrair um número cada vez maior de pessoas. Os evangelhos distinguem três tipos de público: a grande massa, à qual ele se dirigia nas sinagogas e outros espaços coletivos; um contingente amplo de discípulos, com os quais se mantinha em freqüente contato; e o grupo mais restrito dos "doze", cujos integrantes tiveram que abandonar seus compromissos profissionais e familiares para segui-lo.
A narrativa de João informa que pelo menos dois dos "doze" haviam sido antes discípulos de João Batista, e deixaram seu mestre para aderir a Jesus. A constituição e estrutura desse círculo talvez fossem bem menos informais do que se supõe, obedecendo a um modelo há muito estabelecido nas comunidades místicas.
Um exemplo típico de ensinamento destinado à multidão é o Sermão da Montanha, ambientado numa colina próxima à cidade de Cafarnaum. Sentenças mais densas, encontradas no evangelho de Tomé, mas também aqui e ali nos canônicos, poderiam conter parte das lições esotéricas transmitidas aos discípulos.

O texto oculto na tabuleta fixada na cruz
Depois de o mestre ter sido julgado e condenado à morte, o procurador romano Pôncio Pilatos escreveu pessoalmente numa tabuleta a frase "Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus". Essa inscrição, redigida em hebraico, grego e latim, foi afixada à cruz. E costuma ser interpretada como um resumo da acusação imputada a Jesus. Porém, à luz das especulações de que estamos tratando, pode ter um significado bem diferente do convencional. Nazareno parece ser o designativo de habitante da cidade de Nazaré, onde ele teria vivido parte de sua existência. Mas poderia se referir também ao status de nazir ou nazireu, indivíduo inteiramente consagrado a Deus, que, entre outras obrigações rituais, devia se abster de cortar os cabelos.
Sansão, um personagem semi-lendário do Antigo Testamento, era nazir e teria perdido temporariamente os poderes sobrenaturais quando seus cabelos foram cortados. Também na Índia, muitos iogues, devotos de Shiva, não cortam os cabelos e a barba, porque acreditam que os pêlos funcionam como antenas, conectando o corpo físico do homem aos seus corpos sutis. Haveria alguma ligação entre a mística judaica e o shivaísmo indiano? Vários indícios apontam nesse sentido. Mas o desenvolvimento do tema é extenso demais para ser exposto aqui.
Outra palavra da inscrição de Pilatos que costuma ser reinterpretada pelas escolas místicas é o termo rei. Ele não se referiria a um cargo político. Mas ao título que, nos círculos esotéricos, era dado ao indivíduo que iniciava os demais adeptos no conhecimento dos mistérios. O filósofo neoplatônico Porfírio (233-305) foi chamado de Malchos, que significa rei em idioma siríaco. E, com essa conotação de mestre iniciático, a palavra foi amplamente utilizada pelos sufis, integrantes de uma tradição mística que teve sua maior expressão no mundo muçulmano.

Os partidos e as seitas que existiam na Galiléia na época de Jesus
Jesus era um judeu, dirigindo-se a interlocutores judeus. E, como tal, contracenou com os diversos grupos político-religiosos que se movimentavam em Israel no seu tempo. Em vários momentos de sua atuação pública, ele divergiu desses partidos e seitas, e criticou duramente seus adeptos. Suas palavras não eram nada suaves nessas ocasiões: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão". Quem eram esses indivíduos que despertavam a indignação do mestre? A que segmentos sociais estavam ligados? Quais suas principais idéias em matéria de política e religião?

Saduceus
Integrantes de um partido constituído por grandes proprietários de terras (anciãos) e membros da elite sacerdotal. O famoso historiador judeu Flávio Josefo (35 d.C. - 111 d.C.) escreveu que os saduceus representavam o poder, a nobreza e a riqueza. Conciliadores em relação ao domínio romano, eles controlavam o Sinédrio (o senado de Israel) e o Templo de Jerusalém. Negavam a imortalidade da alma, rejeitavam o Talmud (conjunto de opiniões e comentários dos antigos rabinos) e aceitavam apenas o que estava escrito na Torá (as Sagradas Escrituras judaicas, constituídas pelos cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), cuja redação era atribuída a Moisés. Mais do que qualquer outro grupo, foram os saduceus os principais responsáveis pela condenação de Jesus (leia o artigo "A morte, os presságios e a ressurreição").

Doutores da Lei (Escribas)
Indivíduos que não estavam ligados a um segmento social específico, nem constituíam uma seita ou partido, na acepção estrita das palavras, porém desfrutavam de enorme autoridade, como intérpretes abalizados das Sagradas Escrituras. Homens de grande erudição, eram consultados em assuntos polêmicos e influenciavam as decisões do Sinédrio, onde estavam representados - por isso, tiveram também sua parte na condenação de Jesus. Ao contrário dos saduceus, cuja atividade religiosa se exercia somente no Templo de Jerusalém, os doutores atuavam também nas sinagogas e escolas rabínicas. Reverenciavam mais do que ninguém a Torá, mas não se prendiam a uma leitura literal do texto sagrado, reconhecendo nele toda uma dimensão esotérica. Muitos doutores pertenciam ao grupo dos fariseus.

Fariseus
Integrantes de um movimento com ramificações em todas as camadas sociais, principalmente nas classes dos artesãos e pequenos comerciantes. Muito religiosos e extremamente formalistas, os fariseus se separavam do resto da comunidade judaica pelo cumprimento ultraminucioso de todas as regras de pureza prescritas na Torá, em especial no livro do Levítico. Daí seu nome, fariseus, que deriva da palavra hebraica perishut (separação). Eram ativos nas sinagogas e, em várias ocasiões, foram admoestados por Jesus, que os criticava por se apegarem aos detalhes epidérmicos da Torá, enquanto negligenciavam seu conteúdo profundo. Dirigindo-se a eles e aos doutores, o mestre os chamou de "condutores cegos, que coais o mosquito e tragais o camelo!" Apesar disso, a doutrina farisaica exerceu forte influência sobre o futuro pensamento cristão, legando-lhe, principalmente, a crença na imortalidade da alma e na ressurreição do corpo. Em política, os fariseus eram nacionalistas, e aguardavam a vinda do Messias, que deveria libertar Israel da dominação romana.

Zelotas
Dissidentes radicais da seita dos fariseus, pretendiam expulsar pelas armas os dominadores pagãos, e cometiam atentados terroristas contra os representantes do Império. Por isso, eram cruelmente perseguidos pelo poder romano. A base social do partido dos Zelotas era formada pelo pequeno campesinato e outros segmentos pobres da sociedade. Sua doutrina era um misto de religiosidade extremada e ultranacionalismo político. Entre os 12 discípulos mais íntimos de Jesus, havia pelo menos dois zelotas: Simão, o Zelota (não confundir com o outro Simão, que o mestre denominou Pedro), e Judas Iscariotes, aquele que o traiu. O termo Iscariotes, acrescentado ao nome de Judas, tanto pode significar que ele fosse originário da cidade de Kariot, foco da rebelião zelota, como derivar da expressão aramaica ish kariot (aquele que porta um punhal), alusão ao fato de os membros dessa seita andarem armados.
Os zelotas parecem ter depositado grandes esperanças na liderança política de Jesus. Porém a amplitude, a profundidade e o longo alcance da mensagem do mestre se chocaram com o caráter restrito, superficial e imediatista do projeto revolucionário zelota. Isso talvez explique a traição de Judas.

Essênios
Puritanos que viviam em comunidades ultrafechadas, como a que se desenvolveu na região de Qumran, às margens do Mar Morto. Muitos essênios eram sacerdotes dissidentes do clero de Jerusalém. Para eles, nem mesmo os fariseus e os zelotas eram suficientemente rigorosos no cumprimento da Lei judaica. Sua confraria - acreditavam - era o único remanescente puro de Israel. Opunham-se à propriedade privada e ao comércio, valorizavam o trabalho na lavoura e levavam uma vida comunal extremamente austera. Praticavam o celibato ou se casavam somente para perpetuar a espécie. Combatiam intransigentemente tanto os romanos quanto o poder concentrado no Templo de Jerusalém, opondo-se ao sacrifício de animais. E aguardavam a vinda do Messias, que deveria liderar uma guerra santa para eliminar os pecadores e instaurar o reino dos justos.
Os essênios cultivavam uma doutrina mística de tipo gnóstico. Seus aspirantes deviam passar por um período de iniciação, que durava três anos e culminava no ritual do batismo. Pesquisas arqueológicas recentes levaram à descoberta de que havia em Jerusalém um bairro essênio, contíguo ao bairro cristão. Certamente ocorreu uma troca de influências entre as duas comunidades. Mas a especulação de que Jesus tenha pertencido a essa seita é totalmente rechaçada pelos estudiosos contemporâneos. Um essênio jamais se sentaria à mesa de um cobrador de impostos ou perdoaria uma mulher adúltera, como fez Jesus. Apegados aos preceitos de pureza e ao seu próprio orgulho, os essênios se afastavam de um mundo supostamente corrompido para não se contaminarem. Jesus, ao contrário, transgredia deliberadamente essas mesmas regras. E mergulhava no mundo para transformá-lo.

História- JESUS III

Jesus: Do confronto a condenação

Uma semana antes de ser executado, Jesus foi recebido como um rei em Jerusalém.Como foi que o grande mestre aclamado por todos se tornou um condenado? Percorra os meandros das manobras políticas que acabaram levando Jesus à morte.

O poder do grande Templo de Jerusalém
Nos tempos antigos, havia vários santuários espalhados pelo país e a prática religiosa estava muito mais próxima da vida cotidiana do povo. Mas, no século 7 a.C., uma reforma violenta, realizada de cima para baixo, modificou profundamente o formato do culto judaico. Ela ocorreu durante o reinado de Josias, que se estendeu de 640 a 609 a.C.
Sob o pretexto de depurar a religião das influências pagãs, herdadas dos povos vizinhos, Josias destruiu os antigos santuários, queimou seus objetos sagrados, massacrou seus sacerdotes e centralizou o culto em Jerusalém.
Por trás de seu furor reformista, havia um inconfessável objetivo político: centralizar o culto e obrigar o povo a acorrer a Jerusalém nas datas estabelecidas era uma forma de unificar o país em torno da casa real de Judá. A centralização do culto fortaleceu a casta sacerdotal e enriqueceu seus integrantes mais ilustres.

A cobrança pelos sacrifícios
Com a desagregação da monarquia, esse alto clero assumiu o controle da vida nacional. As bases econômicas de seu poder eram os sacrifícios diários de animais (bois, carneiros, pombos) e a cobrança de impostos realizados no Templo. Os animais a serem sacrificados passavam por um rigoroso controle de qualidade, baseado nas regras de pureza estabelecidas no livro do Levítico. Essa "peneira fina" barrava os animais trazidos pelos fiéis, que, em seu lugar, deviam comprar outros, vendidos nos pátios do Templo. "Coincidentemente", esses animais aptos eram criados pelas próprias famílias sacerdotais ou por grandes proprietários com elas relacionados.
Os preços flutuavam de acordo com a demanda. E disparavam na época das festas religiosas. Um pombo, o animal mais barato, chegava a custar então cem vezes o seu preço normal, sendo comercializado por um denário (quantia equivalente ao salário pago por um dia de trabalho).
Estudos recentes dão uma idéia da importância econômica dessas transações. Eles informam que, numa única data da vida de Jesus, por ocasião da Páscoa, foram imolados no Templo nada menos do que 250 mil cordeiros!

O comércio religioso
Os altos sacerdotes não lucravam apenas com a venda dos animais. Tiravam proveito também da conversão do dinheiro utilizado no pagamento. Pois as moedas correntes não podiam entrar no Templo. O motivo alegado era que se tratava de dinheiro impuro. Mas a verdadeira causa estava na corrosão de seu valor real devido à inflação. Tanto é que as moedas comuns deviam ser trocadas pela tetradracma tíria, cunhada na cidade de Tiro, na Fenícia, atual Líbano.
Em matéria de pureza ritual, dificilmente poderia ser encontrado algo menos adequado do que esse dinheiro estrangeiro, que trazia, numa das faces, a imagem do deus pagão Melkart, protetor dos tirenses, e, na outra, a águia de Júpiter, principal divindade dos romanos. A diferença é que a tetradracma tíria era uma moeda forte, que não sofreu qualquer desvalorização num período de 300 anos. Pela troca do dinheiro, os cambistas, aliados dos sacerdotes, cobravam um ágio de 8%.
Além dos sacrifícios de animais e do câmbio, a casta sacerdotal locupletava-se ainda com a cobrança do dízimo. Todo judeu do sexo masculino, com mais de 20 anos, era obrigado a pagar. E o Templo possuía o cadastro de cerca de um milhão de contribuintes, dentro e fora da Judéia. Não admira que judeus puritanos, como os essênios, abominassem o sistema econômico-político-religioso estruturado em torno do Templo.
Muitos deles eram ex-sacerdotes, que haviam renunciado à sua proveitosa condição por razões de consciência. Quando Jesus virou as mesas dos cambistas e expulsou os vendedores de animais do Templo, ele se chocou de frente contra essa máquina poderosa. A resposta não se fez esperar. Dias depois, o Sinédrio (o senado de Israel) o condenou à morte.

A condenação
Controlado pelas duas famílias sacerdotais mais poderosas de Israel, as de Anás e Caifás, o Sinédrio - Sanhedrim, em hebraico - era o braço político do sistema de poder estruturado em torno do Templo de Jerusalém. Não por acaso, esse órgão se reunia nas dependências do Templo, na Sala da Pedra Talhada. A ele cabiam todas as decisões de natureza legal ou ritual. E sua autoridade se estendia às populações judaicas que viviam fora da Palestina. Era composto por 70 membros, escolhidos entre os homens mais ilustres da comunidade (saduceus, doutores da lei, fariseus) e presidido pelo sumo sacerdote em exercício. Foi essa instituição, de certo modo semelhante ao senado romano, que condenou Jesus.

A ameaça Jesus
O Sinédrio não se respaldava numa longa tradição. Pois sua existência remontava apenas ao século 2 a.C. e encerrou-se em 66 d.C.. Também não desfrutava de sólida legitimidade política aos olhos da população, devido a sua política de colaboração com os romanos. Por isso, seus chefes se sentiram altamente ameaçados com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Eram suficientemente ardilosos, porém, para tirar vantagem do desapontamento popular causado pela recusa de Jesus em assumir o papel de líder messiânico. Traído pelo zelota Judas quando se encontrava em oração no monte das Oliveiras e preso pelos soldados do sumo sacerdote Caifás, o mestre foi levado a uma masmorra existente na casa deste último e cruelmente espancado.

Por que Pôncio Pilatos lavou as mãos?
Segundo o relato de Mateus, o Sinédrio condenou Jesus à morte sob a acusação de blasfêmia. A instituição não tinha, porém, autoridade para executar o condenado, pois algumas de suas antigas atribuições haviam sido cassadas por Roma. Por isso, Caifás encaminhou Jesus a Pôncio Pilatos. Para a mentalidade pragmática de um procurador romano, a acusação, de caráter religioso, não fazia o menor sentido. Daí a hesitação de Pilatos em ratificar a sentença. Mas, no final, ele acabou cedendo.
Numa época de aguda fermentação política, os romanos crucificavam aos milhares. Somente na repressão ao levante nacionalista do ano 4 d.C., dois mil judeus foram crucificados. Ao seu olhar insensível, Jesus era apenas mais um. Por que se indispor com o Sinédrio por causa dele?

terça-feira, dezembro 23, 2008

História- JESUS II


A morte, os presságios e a ressureição
Conheça aqui os eventos dramáticos da Via Crucis e os acontecimentosinexplicáveis e extraordinários que ocorreram logo após a morte de Jesus.

A cruz
Ela não era alta e imponente como imaginaram os pintores renascentistas e os cineastas americanos. Era baixa, acanhada, quase insignificante em sua crueldade. Fabricada a partir de uma árvore de pequeno porte, a oliveira palestinense, a cruz não excedia a altura de um homem. Para acomodar-se nela, a vítima devia ser pregada com os joelhos dobrados. Havia três categorias de cruzes. A mais simples não ia além da própria árvore, com os galhos aparados. A intermediária utilizava o tronco ainda enraizado da oliveira, ao qual se amarrava com cordas uma barra horizontal, conduzida ao local de execução pelo próprio condenado. A mais sofisticada consistia num poste rústico, feito a partir do tronco e permanentemente fixado no chão; nele, a barra era encaixada por meio de uma fenda. Nos três casos, um pequeno suporte horizontal permitia à vitima sentar-se, impedindo que seus pulsos rompessem devido à ação do peso e prolongando-lhe a agonia.

Os ferimentos
Apesar de Jesus não ter carregado a cruz inteira, como supôs a piedosa imaginação popular, a barra horizontal era suficientemente pesada para lhe ter provocado grandes hematomas nas costas. Ao menos, é o que se depreende da dramática imagem do Santo Sudário. Ainda mais impressionantes são os sinais de 90 a 120 ferimentos, causados pelo açoite. E 72 perfurações na cabeça, produzidas pela coroa de espinhos. Os pregos, de cerca de 18 centímetros, não lhe foram afixados nos meios das mãos, como se acreditou durante muito tempo. Mas numa parte do pulso conhecida pelos anatomistas como espaço de Destot, entre os ossos rádio e una. Se o traspassamento tivesse ocorrido nas mãos, estas teriam rasgado com o peso do corpo. No espaço de Destot, a introdução dos pregos assegurava uma firme sustentação na cruz. Um terceiro prego, juntando os dois pés, completava a fixação.

Morte por asfixia
Na cruz, os braços altos dificultavam a respiração do condenado; os líquidos se acumulavam nos pulmões; e a morte sobrevinha por asfixia. Para tomar fôlego durante a longa agonia, as vítimas erguiam-se várias vezes de seus assentos, sustentando-se nos três pregos. Por isso, após várias horas de suplício, suas pernas eram quebradas, de modo a acelerar a morte. A análise do Sudário mostra que esse procedimento de rotina não ocorreu no caso do homem cuja imagem ficou gravada no tecido - o que concorda com a narrativa dos evangelhos, segundo a qual não foi quebrado nenhum dos ossos de Jesus.
A estocada de lança, um golpe de misericórdia, perfurou o peito do homem quando ele já se encontrava morto. Um forte jato de hemácias (a parte vermelha do sangue) seguido de um fluxo de plasma (a parte clara) prova que grande quantidade de sangue se acumulara e decantara no pericárdio. E essa informação outra vez converge com o texto bíblico, que fala "num jorro de sangue e água".

Presságios e acontecimentos extraordinários
Era comum os crucificados sobreviverem por até três dias. Talvez devido às terríveis torturas que sofreu na casa de Caifás e entre os soldados romanos, Jesus morreu em apenas seis horas.
Os evangelhos narram diversos acontecimentos, que teriam pontuado essas horas dramáticas. A narrativa mais detalhada, a de Mateus, diz que "desde a hora sexta até a hora nona, isto é, do meio dia as três da tarde, houve treva em toda a terra".
Quando Jesus exalou o último suspiro, o véu do Santuário se rasgou em duas partes, de cima a baixo, a terra tremeu e as rochas se fenderam. Se as trevas mencionadas pelo evangelista corresponderem a um eclipse, a morte de Jesus deve ter ocorrido no ano 30 d.C., quando se deu um evento dessa natureza. Considerando que Jesus nasceu entre os anos 8 e 6 a.C., ele deve ter vivido então de 36 a 38 anos, e não 33 conforme fixou a antiga tradição cristã.

A ressurreição
Para os discípulos e outros que acreditaram nele, a morte de Jesus deve ter sido um golpe demolidor. Surpresos com a rapidez dos acontecimentos, aturdidos com um desfecho que contrariava suas expectativas, amedrontados com o possível alargamento da repressão, eles certamente sentiram o chão ceder debaixo dos pés. Que perplexidade, que angústia, que desalento! No entanto, toda a sua perspectiva se refez com a notícia da ressurreição. Manipulação? Metáfora? Milagre? Como interpretar esse derradeiro mistério?

O sepulcro vazio
Segundo o teólogo Leonardo Boff, a análise crítica dos evangelhos sugere que se constituíram inicialmente dois relatos independentes acerca da ressurreição: o do sepulcro vazio, visto pelas mulheres que foram visitá-lo na manhã do terceiro dia após a morte; e o da aparição do mestre ressuscitado aos discípulos.

O Mestre em carne e osso
Mais tarde esses dois retalhos da tradição oral foram costurados na composição dos evangelhos. A narrativa resultante é muito sumária em Marcos e Mateus e bem mais extensa e inspiradora em Lucas e João. O texto dos Atos dos Apóstolos, uma obra também atribuída ao evangelista Lucas, fixa em 40 dias o tempo de permanência de Jesus ressuscitado na Terra. O evangelho gnóstico Pistis Sophia prolonga a estadia para 11 meses e apresenta os ensinamentos esotéricos supostamente comunicados durante esse período. Os canônicos afirmam que os discípulos não reconhe-ceram Jesus num primeiro momento. E o fazem aparecer e desaparecer de cena misteriosamente. Certas correntes do cristianismo primitivo interpretaram esses dados como indícios de que o mestre voltara à Terra num corpo sutil. No entanto, em Lucas, o próprio Jesus insiste na materialidade de seu corpo: "Vede minhas mãos e meus pés: Sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho".

A ressurreição à luz das religiões orientais
O mistério da ressurreição certamente escapa à capacidade interpretativa da ciência atual. Mas a idéia da transmutação do corpo físico e da conquista da imortalidade não é estranha à antigas tradições espirituais como o shivaísmo indiano e o taoísmo chinês. Embora extrema-mente rara - dizem - essa possibilidade estaria no horizonte de todo ser humano. E teria sido alcançada pelos siddhas (perfeitos): homens e mulheres que, pela devoção integral a Deus, pelo exercício sistemático da auto-observação e pela prática intensiva das diversas disciplinas da yoga, supostamente atingiram um estágio supremo de desenvolvimento, realizando a essência divina em todos os planos da existência. Essa hipótese permite-nos enxergar Jesus por mais um ângulo. E acrescenta uma nova configuração a sua imagem caleidoscópica.


História- JESUS I

O verdadeiro rosto de Jesus
Sabe aquela imagem de Jesus, de cabelos alourados e traços bem europeus?Estudos mais recentes comprovam que esse pode não ser o rosto verdadeiro do Mestre. Acompanhe aqui as tentativas de desvendar a real face de Cristo.

O Cristo Pantocrator
Os evangelhos canônicos nada dizem sobre a aparência de Jesus. E as primeiras imagens cristãs, produzidas sob influência da arte romana, o mostravam como um jovem imberbe, de cabelos frisados. Tal forma de representação sofreu uma brusca mudança no século VI d.C. Foi quando os religiosos do mosteiro de Santa Catarina, no Egito, produziram um magnífico ícone, que apresenta Jesus de barba, longos cabelos repartidos ao meio, e feições muito próximas do tipo semítico. Esse ícone - o Cristo Pantocrator do Sinai - tornou-se um modelo para a posteridade e ainda impressiona pelo realismo, beleza e majestade. Que fator teria provocado essa mudança na representação de Jesus?

O desafio do Santo Sudário
Utilizando uma sofisticada técnica de superposição de imagens, o pesquisador americano Alan Whanger, da Universidade de Durham, na Carolina do Norte, obteve nada menos do que 170 pontos de congruência entre a face desse ícone e a figura impressa no Santo Sudário - um tecido de linho, que, segundo a tradição, teria sido o lençol mortuário de Jesus.
A autenticidade do Santo Sudário é um assunto extremamente polêmico. Nenhum objeto foi tão estudado quanto essa relíquia, guardada na catedral de Turim, Itália. E dezenas de livros e artigos foram escritos a favor ou contra a tradição de que ele tenha envolvido o corpo de Jesus morto.
Uma datação feita em 1988, com base no método do carbono 14, fixou como período de fabricação do tecido os anos compreendidos entre 1260 e 1390. Concluiu-se então, apressadamente, que o lençol seria uma fraude medieval. Porém a qualidade desse teste foi contestada por especialistas com as melhores credenciais científicas. E Harry Grove, principal responsável pela datação, admitiu que a grande contaminação que o pano sofreu ao longo dos séculos pode ter falseado seus resultados.
A questão continua em aberto. Não se trata de desenvolvê-la aqui. Mas vale lembrar a opinião de vários pesquisadores que associam o Sudário ao Mandylion de Edessa, uma relíquia venerada em território bizantino desde o século VI d.C. e desaparecida durante o saque de Constantinopla pelos cruzados, em 1204. Se for verdadeira, a hipótese de que o Mandylion era o Sudário restabelece a conexão entre o lençol de Turim e os primeiros tempos do cristianismo. E fortalece a opinião de que esse pano tenha sido utilizado no sepultamento de Jesus.

Retrato de Jesus
Nesse caso, o estudo da imagem do Sudário forneceria informações detalhadas de como teria sido a aparência de Jesus:
Ele teria aproximadamente 79 kg de peso e 1,80 m de altura - pouco mais do que a estatura média dos judeus adultos do século 1, estimada em 1,77 ou 1,78 m;
Seria um homem musculoso - o que converge com a informação dos evangelhos de que exercia a profissão de carpinteiro e fazia longas viagens a pé;
Possuiria barba e cabelos longos, trançados abaixo do pescoço - uma moda comum entre os homens judeus de sua época;
Seus traços faciais seriam característicos do grupo racial semita - o que diverge dos retratos convencionais, inspirados pela arte renascentista européia, que o mostram com olhos azuis e cabelos ruivos.
Fonte:www.spectrumghotic.com.br