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segunda-feira, setembro 01, 2014

AS REGRAS DO JOGO- Fernando Gabeira 01/09/2014

A morte de Eduardo Campos inaugurou uma nova realidade na campanha eleitoral. Mas é uma ilusão pensar que tudo mudou.
Há elementos que permanecem, como, por exemplo, a força eleitoral do governo federal, baseada na sensação de que os tempos de prosperidade e crescimento econômico não acabaram. Para muitas pessoas, a crise ainda não é um fato. Na verdade, ela é um conjunto de índices e perspectivas sombrias que somente os mais atentos conseguem captar.
Dilma Rousseff, por exemplo, deixou de negar a crise e espantar os urubus que rondam o seu discurso triunfal. Agora admite sua existência e ressalta: “Mantivemos empregos e salários”. Ela se dirige precisamente àqueles que ainda não sentiram a crise. Seu ministro do Trabalho disse que, em termos de emprego, o Brasil tinha chegado ao fundo do poço. Depois desmentiu: o buraco não seria tão fundo como a sua frase dera a entender.
Isso se parece com aquela piada do Millôr, a de um homem caindo de um décimo andar que, ao passar pelo oitavo, diz: “Até aqui, tudo bem”.
O cara da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, parece ter decidido pela delação premiada. Ele é o cara porque articulava tudo, tinha milhões de dólares na Suíça. Antes ele havia dito, na cadeia, que não poderia abrir a boca porque, caso falasse o que sabe, não haveria eleições no País. É uma força de expressão. As eleições brasileiras podem renascer, como após o desastre que matou Eduardo Campos. Não importa o que Paulo Roberto diga, elas vão ser realizadas no dia 5 de outubro.
A morte de Campos e a entrada de Marina Silva na disputa pela Presidência reafirmaram a tendência de segundo turno. Mas ela não é novidade. O PT, com Lula ou Dilma, sempre ganhou no segundo turno.
A novidade é que a oposição pode triunfar. Para isso é preciso que demonstre, com clareza, que a sua proposta é a que melhor protege salários e empregos. Ela precisa encontrar uma unidade entre sua proposta econômica e a disposição de combater o fisiologismo e reduzir a corrupção no Brasil a níveis administráveis.
Não acredito em longos programas de governo, embora esteja sempre disposto a discuti-los e a sintetizá-los, como fiz com o seminário de três dias realizado pelo PPS em Brasília. O ideal seria fixar em alguns pontos comuns. Isso é possível. Basta analisar o discurso dos candidatos de oposição para perceber que convergem em várias questões essenciais.
Eduardo Campos e Aécio Neves tinham uma relação cordial, trocavam ideias constantemente. Isso não impediu que procurassem singularizar-se na campanha eleitoral, marcando suas diferenças.
Essa troca de ideias é fundamental. É uma ilusão supor que se governa um país tão complexo como o Brasil sem criar uma base de sustentação técnica e política.
A maioria das pessoas quer mudança. Mas ainda não está muito claro que mudanças querem. Suponho, pela constância das denúncias, que se queira estancar a corrupção. E, naturalmente, a julgar pelas manifestações de junho de 2013, melhores serviços públicos.
Tão amplo desejo de mudança exige clareza de ideias, mas, sobretudo, humildade. Segundo as pesquisas, metade dos eleitores de Dilma também quer mudança. Isso significa que, potencialmente, eles podem abandonar a candidatura dela se as propostas de mudanças forem diretas. E se o bloco que disputar com o PT, no segundo turno, der claras indicações de que a governabilidade não estará ameaçada.
Todos esses palpites são de um simples eleitor. Não estou dentro das eleições, não conheço seus bastidores, não me informei sobre afetos e rancores que as movem neste instante.
Muitos analistas reclamam que o quadro está confuso. Lamentam que as decisões possam ser tomadas num clima emocional. Ao longo destes anos vimos o processo político degradar-se, o abismo se abrindo entre instituições e eleitores. Mesmo as eleições de 2010, marcadas por fortes votações em candidatos folclóricos, como Tiririca, já eram inquietantes. Depois disso vieram as manifestações de 2013, mostrando mais claramente como o povo estava insatisfeito com o governo, com a oposição e com todo o sistema político.
Observo apenas a contradição de alguns setores que não se importaram em degradar a política e afastá-la do povo, na crença de que a máquina de governo e a propaganda tudo resolvem. Agora clamam por racionalidade, frieza e um roteiro seguro para dirigir o País.
Não creio que Marina vá subir nos fios e fazer milagres, como aquela santa no filme de Pasolini. Mas terá a oportunidade de apresentar suas ideias, responder às questões mais delicadas, enfim, oferecer também uma base racional para ser aceita ou rejeitada.
Tanto para ela como para Aécio, creio, um dos temas centrais é como se relacionar nesse conjunto de candidatos que propõem mudança, querem construir algo diferente do que fizeram o PT e seus aliados nestes 12 anos. A proposta de uma nova política não é esotérica se analisamos o discurso dos candidatos de oposição. Eles condenam o fisiologismo, o toma-lá-dá-cá, o balcão de negócios em que se transformaram governo e Congresso Nacional.
Não se navega nessas águas turvas sem apoio dos políticos. Não é possível discriminá-los, afastando-os do governo. O que é desejável é que se escolham apenas os honestos e que tenham competência específica para o cargo que vão ocupar.
Diante do segundo turno, emerge a possibilidade real de conduzir o País por um caminho mais sólido na crise econômica, menos corrompido na política, mais próximo dos grandes centros tecnológicos nas relações exteriores, mais sério na gestão dos serviços públicos.
Há quem queira disputá-lo sozinho na oposição. Há quem prefira Dilma por achar o PT previsível. Mas assim mesmo teremos um ano de 2015 cheio de surpresas.
Façam o seu jogo.
Fernando Gabeira é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro. Seu blog é no www.gabeira.com.brArtigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo

domingo, novembro 05, 2006

Fernando Gabeira

A roda rodou

Estamos iniciando uma nova etapa, com a eleição indiscutível de Lula. Não só uma grande parte da população pobre decidiu apoiá-lo como também amplos setores da classe média, estes valorizando a solidariedade expressa nas políticas sociais.O debate foi meio estranho pois aparentemente opunha social ao crescimento econômico. Agora é hora de acertar essas variáveis num só todo. Será que o país está mesmo preparado para crescer.Lula reluta em falar em cortes. Segundo ele, sempre que se fala em cortar, isto significa cortar empregos e salários. É compreensível que pense assim, pois como líder sindical enfrentou inúmeras batalhas onde os cortes eram direcionados para os lucros da empresa.O erro é transpor esse modelo para o estado. Na máquina pública os cortes significam que você pode direcionar melhor o dinheiro, inclusive para melhorar a vida das pessoas.Alguns temores de que setores menos preparados iam entender a vitória como uma carta branca e partiriam de forma truculenta contra opositores e mídia podem ter cido confirmados com a disposição de atacar a imprensa, na festa da chegada de Lula a Brasília.No entanto, esses temores, creio eu, são tênues pois os dirigentes do partido convidaram a imprensa a uma auto-reflexão, distanciando-se das agressões.Auto-reflexão é algo bom para todos, embora o calor da vitória sempre empreste aos vencedores uma aura de infalibilidade e certeza. Vejo esses filmes de quatro em quatro janeiros e já no meio do ano, as coisas tendem a ficar mais claras, mais reais.A vitória de Lula representa também um momento em que a chamada oposição precisa reavaliar sua atuação. Nesse campanha, Lula venceu mas a oposição também perdeu, pois sua atuação foi muito hesitante, cheia de idas e vindas.Voltaremos ao tema.

Fonte:www.gabeira.com.br

Fernando gabeira


Coisas impossíveis antes do café

NO SEU diálogo com a Rainha Branca, Alice, a personagem de Lewis Carroll, acha ridícula a idéia de que, para desejar coisas impossíveis, basta respirar fundo e fechar os olhos. A Rainha diz que Alice não tem prática e que o melhor exercício diário para ganhá-la é pensar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã.Esse diálogo de Alice com a Rainha Branca é o ponto de partida para um belo livro de Lewis Wolpert sobre a origem evolucionária das crenças. Ele se concentra mais em idéias do tipo "leite com manga faz mal", "não se pode abrir sombrinha num lugar fechado nem passar por baixo de escadas".Nesse momento em que alguns grupos tentam arrastar o Brasil para as brumas da Guerra Fria, talvez fosse interessante mostrar como suas crenças inviabilizam a idéia de diálogo e esforço conjunto para resolver os problemas do país.Não é possível mais acreditar que a liberdade de imprensa é apenas um valor burguês, uma típica luta de direita. Por que conferir esse charme à direita?Trabalhei em dois jornais que foram empastelados: o "Binômio", de José Maria Rabelo e Euro Arantes, e o "Panfleto", de Brizola. Eram de esquerda. Quando menino, vi um filme de John Ford e um personagem dizia para um homem chamado Liberty: não tome liberdades com a liberdade de imprensa.É espantoso, sobretudo para quem vive no Rio de Janeiro, classificar a crítica a certas políticas sociais como reação de direita. Ajudar aos pobres, sim, mas crescer também para que essa ajuda seja sustentável. Além disso, o Prêmio Nobel da Paz está para mostrar que, em Bangladesh, a era mais do que dar dinheiro; passava por despertar o enorme potencial produtivo dos indivíduos.É no mínimo surpreendente atribuir à direita a proposta de cortes de gastos na máquina estatal. Lula afirmou que os cortes sempre significam supressão de empregos e corte de salários. Mas ele vem de uma longa experiência sindical.As multi reduzem custos para se tornarem mais competitivas, ampliarem lucros. No caso do Estado, cada centavo de economia pode ser redirecionado para o bem. Para manter a segurança de vôos, por exemplo.Tornei-me um grande "direitista" por defender a quebra do monopólio nas comunicações. Milhões de telefones foram vendidos. Entendi como um processo de redistribuição de renda. Antigamente, um prestador de serviço usava telefone de recado. Ainda bem que meus eleitores, diante do aparelho concreto, compreenderam bem os argumentos.Outra crença interessante é a de que, com a ajuda do governo, vai florescer uma imprensa alternativa. Essa premissa já a faz nascer com um pecado mortal. Será que não se percebeu ainda que essa revolução já aconteceu e que não depende dos trocadinhos do governo? A está aí possibilitando o blog próprio, tevê e rádio próprias.O próprio PT, através de seus simpatizantes, fez um uso maciço e um pouco atemorizante da rede. Eu mesmo recebi mensagens dizendo que era um traidor do povo brasileiro e que, junto com Caetano Veloso, iria para a lata de da história. Desconheço o abrigo atual de Caetano. No meu caso, já fui condenado, há anos, à lata de da história. Que corrente me tirou de lá? E agora, por que me condenam de novo?Sinceramente, pensei que estavam alegres com a vitória eleitoral e que iam se dedicar aos projetos que possam realizar as expectativas da maioria que os consagrou. Em vez disso, resolvem ajustar suas contas com a imprensa.Aqui de Ipanema, a única mensagem das ruas, pelo menos da Vinicius de Moraes, é esta: é melhor ser alegre do que triste. Em 2002, os vencedores sorriam para o amanhã. Hoje, parecem ressentidos e, para azar de todos, aterrissaram no maior apagão aéreo dos últimos anos.As diferenças esquerda-direita, dramatizadas na campanha, lembram-me um pouco daquele soldado japonês que passou anos ignorando que a guerra havia acabado. Os dois pólos sobrevivem em toda parte. Mas se a esquerda chilena desembarcasse por aqui, ou mesmo a direita sueca, estariam arriscadas a sofrer críticas de seu próprio campo.Objetivamente, há um enorme espaço para se entender. Na cabeça, ainda estamos divididos, hostilizando-nos mutuamente.Talvez a saída seja mesmo a da Rainha Branca: fechar os olhos, respirar fundo e pensar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã.

Fonte:www.gabeira.com.br

domingo, junho 04, 2006

Fernando Gabeira

Ninguém sai vivo daqui

Às vezes, acho que estou sonhando: o Brasil não é isto que está aí. Dolorosa pergunta me traz de novo ao chão: se o Brasil não é isto que está aí, porque isto que está aí continua?Vou livrá-los de toda a sociologia, amén, e relatar simplesmente uma experiência. Milhões foram desviados na compra de ambulâncias. Resolvemos investigar, recolhemos assinaturas e a CPI foi sepultada.Os coveiros têm argumentos razoáveis, Copa do Mundo, eleições, o próprio de terra arrasada depois do escândalo do mensalão. Não pedimos jamais que se afastassem de sua sensatez. Queríamos apenas anexar a ela o reconhecimento de que a minoria tinha obtido apoio necessário e, portanto, com uma causa definida, tinha direitos constitucionais.Começa a peregrinação por justiça. No senado, eles tomam chá e detestam qualquer coisa que possa deteriorar as relações internas. Nada de tensão. O que importa é manter tudo no mais alto nível, preservar o cordial.Saio duvidando da parte final da frase de Darci Ribeiro: o senado é o céu e ainda não morremos. Passam os vampiros, surgem os sanguessugas e amanhã, talvez, os traficantes de órgãos humanos. Mas é preciso que a cordialidade jamais abandone o tremor de nossas xícaras de chá.Resta a oposição na Câmara. Ela não responde. Amarelou? Os que têm medo não são tantos. Guimarães Rosa me socorre: eles não têm medo, apenas perderam a vontade de ter coragem, o tempo é curto, Copa do Mundo, eleições...Volto para casa e me pergunto: o que fazer quando passam um trator nos seus direitos constitucionais? A resposta é recorrer à justiça.Mas a imagem de um coquetel molotov emerge com a nitidez flamejante torrando todos os resquícios do bom mocismo. Não fui educado na Suíça, nem temo que a lama respingue nos punhos de renda. Tenho vontade de cantar os versos celebrizados pelos The Doors: Ninguém sai vivo daqui.Existe um limite para o pacifismo. O espaço público em que nos movemos está dominado por uma aliança delicada: quase todos desviam dinheiro, alguns têm a missão de sepultar CPIs. De forma literária: uns queimam os ônibus e retiram as pessoas, outros queimam com todo mundo lá dentro.A facção do PMDB que está na aliança queima ônibus com gente dentro. Descendo à terra: sepultam CPIs e só cedem quando forçados pelo Supremo.Não dão importância aos fatos, nem à opinião pública. O líder na Câmara indica a mulher que controla o esquema das ambulâncias, o ministro contrata, o líder no Senado apresenta emendas e o presidente do Congresso sepulta a CPI. Um verdadeiro quarteto mágico. Todos do PMDB.Nos tempos de luta armada, era necessário saber desmontar fuzis no escuro. Hoje sua arma é luminosa e aparece no lado esquerdo da tela: o Google.Grande parte dos bandidos no Congresso podem ser abatidos com o Google. Como isso que aí está deve ser isto que aí estará, nos próximos anos, é preciso usar todas as táticas para derrotá-los, sem perder energia para as coisas positivas que ainda podem ser feitas.Aqui meu poeta, que, no momento, corre o Brasil e constata, de novo, que há lugares e gente maravilhosa, não se trata apenas de perguntar onde é que você estava quando os persas vieram. Aqui, vou ter que responder onde estava, no tempo do irresistível avanço do exército acaju.Tudo isto, supondo que alguém perguntará por esse tempo, alguém terá estômago para revivê-lo. Pode ser um fim da história. Nesse caso, responderemos com a história em quadrinhos.Nos anos 60, a história com grandes nomes iluminava um futuro brilhante. O presente era um recheio modesto no sanduíche de epopéias passadas e os amanhãs que cantam.Hoje, caímos no abismo do aqui e agora. Multiplicaram-se os prazeres, poeta, mas como doem nossas retinas. A digital é a única revolução que nos resta. Vamos armar com ela as principais trincheiras contra a invasão dos bárbaros.Vamos morrer atirando bytes e pixels, alguma tinta e papel, que tanto manejamos no passado. É a minha modesta previsão do futuro. Você mesmo é testemunha, poeta, de quantas vezes me enganei de futuro. Acostumei.

Fonte:www.gabeira.com.br

sábado, junho 03, 2006

Gabeira e suas Brigas

Brigar com Gabeira é rabeira pura.

Renan não perde por esperar.Gabeira descobriu o Buani do presidente do Senado.Trata-se de seu sobrinho.Enrolado até o pescoço com os sanguessugas.

Fonte:www.minutopolitico.com.br

terça-feira, maio 30, 2006

Fernando Gabeira

Os bandidos na mesa do café
Fernando Gabeira (FS, 20/05/06)

Depois de uma hora de braçadas tranqüilas, saio da piscina e subo numa arquibancada de madeira para tirar a toalha da mochila. Olho para uma edificação baixa de tijolos vermelhos, com uma placa: alameda Paissandu. Diante dela, mesas brancas, cadeiras. Numa delas dorme o gato Amaral. O sacana do Amaral, como o chamamos: gordo, castrado, sonolento, ainda assim faz das suas, encostando-se nas gatas, irritando a torcida do Flamengo, "precisamos acabar com esses gatos no clube".Nesses momentos de contemplação, nuvens desenhando anéis em torno da estátua do Cristo, sinto uma dor por ter dedicado tantos anos à política, com tão escassos resultados. Invade-me uma vontade de mudar de vida, fazer como o narrador do romance "O Enigma da Chegada" (de V.S. Naipaul), que se retira para o interior e passa apenas a observar e escrever o que está na sua frente.Segunda-feira, auge da crise de violência em São Paulo, parti para Brasília para fazer um discurso de solidariedade e propostas, pensado durante o fim de semana sangrento. Não pude realizá-lo até o fim, embora o plenário estivesse vazio. Minha palavra foi cortada por um presidente ocasional. Ele vem do Norte toda segunda-feira e assume a presidência porque não há ninguém para abrir as sessões. Dá a impressão aos seus eleitores de que é importante, embora já tenha sua prisão preventiva decretada e inúmeras processos. Limitei-me a dizer: "Vossa Excelência é um bandidaço", embora soubesse que até os insultos seriam usados por ele junto aos eleitores como sinal de importância. A um jornal de Brasília, declarou que aqueles que assistem à TV no seu Estado pensam que é o presidente da Câmara.Ele é desse numeroso e sórdido grupo com que, depois de tantos anos de lutas e sonhos, tenho de conviver no café da Câmara: contas fantasmas, entidades fantasmas, ambulâncias superfaturadas, desvios de verbas no hospital do câncer. A própria luz do Planalto atravessando as vidraças e banhando os flocos de poeira que flutuam nos torna também fantasmas, e você olha a mancha de iogurte na mesa do café, duvida se aquilo não é um ectoplasma desses putos que pintam o cabelo e beliscam a bunda das secretárias.Marcola, o líder do PCC, já leu mais livros do que todos eles juntos; os da minha geração, que tiveram uma base político-militar -não no sentido de terem feito ações armadas, mas por terem curiosidade em relação às leis da guerra-, esses praticamente saíram de cena.Fiquei surpreso ao perguntar por um grande nome do Partido Verde alemão, que surgiu nos anos 60, e soube que, ao deixar o governo, está quase aposentado. Lembrei de tantos outros que se voltaram para suas especialidades acadêmicas, dos que morreram, dos que simplesmente deram uma banana para a idéia de transformar o mundo.De uma certa maneira, foram poupados dessa humilhação que sinto todos os dias ao ver que os bandidos estão triunfando na vida pública, que não só tomaram conta de tudo mas também tomam café ao seu lado, riem para você, falam sobre o tempo e reclamam da dureza da vida política.É uma ilusão pensar que o mundo do crime ignora essas variáveis. Marcola já esteve aqui depondo e, nos poucos minutos que passei pela sala, olhou-me com muita freqüência, como se quisesse dizer: com esse tipo de gente me interrogando jamais sairá outra coisa, além do desprezo recíproco.O mundo que está ruindo aos meus pés é muito desconcertante, pois leva consigo toda uma forma de pensar a política que nos reduz ao ridículo de tentar trazer a guerra urbana de São Paulo para o parlamento e ser interrompido por um idiota que está posando de presidente para seus eleitores do Norte.O mundo que está ruindo nos impõe a humilhação de chamar de Congresso brasileiro um lugar onde os dirigentes da mesa estão mergulhados num escândalo e nem sequer pedem licença para serem investigados, um lugar onde o corregedor, num ano eleitoral, foi o primeiro a ser multado pela Justiça por fazer propaganda fora de tempo.Numa semana tão importante, talvez não devesse enfatizar minhas frustrações. Acontece que não estou sendo humilhado sozinho, nem o está a pequena parcela de deputados honestos.Enquanto não se desvendar o elo entre as quadrilhas que queimam ônibus, metralham policiais, fuzilam inocentes e os bandidos que nos cercam, poucos vão sentir a humilhação que sinto. E quando falo de vínculo não me refiro a advogados, emissários ou mesmo um ou outro deputado que possa estar ligado ao crime organizado. Refiro-me ao plano simbólico tão bem expresso na célebre frase carioca: está tudo dominado.O tudo dominado revela-se não apenas em números mas também em encenações falsas, pequenas omissões, um rígido controle da agenda para que venha à tona o debate dos verdadeiros problemas do país.Aqui as matracas, os "treisoitões", as bananas de dinamite transfiguram-se em questões de ordem, permita-me um aparte, regimentos internos. Aqui e ali, no Planalto, onde instalamos um governo destinado precisamente a mudar tudo isso e que, no fim das contas, apenas exacerbou o processo, degradando-se e nos degradando.Só penso em aposentadoria quando vejo o Amaral, gordo, castrado e sacana: divagações à beira da piscina. Não rolei tanto barranco para entregar o ouro aos bandidos. Se há uma boa maneira de viver os últimos dias, essa maneira ainda é o combate.