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domingo, novembro 25, 2012

Rose- 25/11/2012- Eliane catanhede

DE BRASÍLIA - Enquanto José Dirceu atiçava a militância do PT para ir "às ruas" defender os condenados do mensalão, a Polícia Federal prendia no escritório da Presidência da República em São Paulo a super Rose, que trabalhou com Dirceu por 12 anos, assessorou o presidente Lula e está metida até a alma em histórias do arco da velha.

É estranho, assustador, como o tempo vem revelando o que estava por trás daquela equipe tão dedicada, meio heroica, que assessorava Dirceu nas CPIs contra Collor e nas alianças com o Ministério Público e a imprensa e nos vazamentos de estatais contra adversários, quaisquer que fossem.
Erenice Guerra se enrolou com tráfico de influência na Casa Civil e deu no que deu. Valdomiro Diniz foi filmado pedindo propina para o bicheiro Carlinhos Cachoeira e virou uma alma penada na vida de Dirceu. Agora essa Rosemary Noronha, cheia de mistérios e de poder.
Secretária, não era uma simples mequetrefe. Promovida a chefe de gabinete, tinha lugar cativo nas viagens de Lula, cobrava plásticas, pacotes em cruzeiros e dinheiro em espécie para dar uma mãozinha em processos. Investia-se -ou era investida- de inexplicável poder.
Como é que uma secretária, ou assistente, ou chefe de gabinete nomeia diretores da ANA, a agência de águas, e da Anac, de aviação civil? Como exige que o Senado aprove alguém rejeitado em duas votações? E será que é mera coincidência justamente esses dois diretores serem presos agora com Rose?
Outro "detalhe" é o emblemático escritório da Presidência da República em São Paulo, onde o ex-presidente Lula e a atual presidente Dilma se reúnem com Antonio Palocci, demitido no governo de um e depois no da outra por histórias nunca muito bem explicadas.
Em todo esse enredo, aplausos para a independência da Polícia Federal e do Ministério da Justiça. Que continuem revelando ao país quem é quem, "duela a quem duela".
Fonte: folha online

terça-feira, outubro 18, 2011

Depoimento de Orlando Silva não muda nada na crise-18/10/2011

O depoimento de Orlando Silva na Câmara dos Deputados não muda muita coisa na crise do Ministério do Esporte, tudo continua dependendo de haver provas e fatos novos, analisa Eliane Cantanhêde, colunista da Folha.

"Por enquanto é a palavra de um contra o outro", diz a jornalista que ainda ressalta que o clima em Brasília é de expectativa com os desdobramentos do caso e que a presidente Dilma Rousseff, mesmo em visita pela África, tem acompanhado de perto o caso.
A colunista sinalia que o desenrolar do processo "vai depender muito do trabalho da imprensa, como nos outros cinco casos de queda de ministros".
ENTENDA O CASO

Dois integrantes de um suposto esquema de desvio de recursos do Ministério do Esporte acusam Silva de participação direta nas fraudes, segundo reportagem publicada pela revista "Veja".
O soldado da Polícia Militar do Distrito Federal João Dias Ferreira e seu funcionário Célio Soares Pereira disseram à revista que o ministro recebeu parte do dinheiro desviado pessoalmente na garagem do ministério.
Localizado anteontem pela Folha, Pereira confirmou a acusação contra o ministro. Orlando Silva afirmou que já acionou o ministro da Justiça para que a Polícia Federal investigue o esquema relatado.

O ministro disse ainda que as acusações podem ser uma reação ao pedido que fez para que o TCU investigue os convênios do ministério com a ONG que pertence ao policial autor das denúncias.
Em nota divulgada anteontem, o Ministério do Esporte disse que João Dias firmou dois convênios com a pasta, em 2005 e 2006, que não foram executados. O ministério pede a devolução de R$ 3,16 milhões dos convênios.
De acordo com o ministro, desde que o TCU foi acionado, integrantes de sua equipe vêm recebendo ameaças.
Fonte: folha online

domingo, setembro 25, 2011

Dilma, forma e conteúdo -21/09/2011

Dilma fez menos o que o Itamaraty gostaria e mais o que ela quis. Assim, a principal parte de seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, foi dedicada à economia e à crise internacional. Em discurso incisivo, ela apontou a responsabilidade dos países desenvolvidos, cobrou participação de todos --emergentes e em desenvolvimento-- na solução e desfilou os sucessos brasileiros, praticamente sugerindo-os como modelo.

A presidente, primeira mulher a abrir a Assembleia Geral na história da ONU (prerrogativa brasileira) fez uma comparação que foi no fígado dos EUA e da Europa: o desemprego. Os desempregados nos EUA já são 14 milhões e, na Europa, 44 milhões, enquanto o Brasil vive fase de praticamente "pleno emprego". Ela admitiu, porém, que a capacidade de resistência do Brasil "não é ilimitada". Leia-se: a crise está chegando.
Em política externa, Dilma fez um apelo veemente para a adaptação do Conselho de Segurança da ONU ao mundo contemporâneo, com a inclusão de novos membros, e disse que o Brasil está plenamente apto a assumir uma vaga permanente, uma velha aspiração.
A presidente também defendeu a criação do Estado palestino, contrapondo-se à posição de Barack Obama, que é contra, mas ela teve o cuidado de falar na importância da paz e nos direitos de Israel. Ainda defendeu as revoluções democráticas no mundo árabe, condenando a repressão arbitrária e feroz de alguns governos, implicitamente condenando a Líbia de Gaddafi.
É claro que boa parte do discurso foi destinado às mulheres, no que ela fez muito bem (olha o meu "corporativismo" aí...). Na forma, estava firme e enfrentou bem o natural nervosismo. Pena que sua assessoria tenha falhado na escolha da roupa, pois blusa azul estampadinho com parede verde confuso no fundo é uma péssima combinação para imagens e distrai o telespectador.
No conteúdo, foi afirmativa, deu seu recado e foi Dilma Rousseff, não mera leitora de discurso pronto.
O discurso não muda nada na ordem das coisas, nem deve ter lá grande repercussão na mídia internacional, que só pensa e tem olhos para Obama e para os líderes de países ricos, mas o importante é a plateia que estava ouvindo atentamente a presidente de um país emergente, pacífico e que está quase completando duas décadas de um círculo virtuoso. O recado dela foi dado.
ELIANE CATANHEDE
Fonte: folha online

quarta-feira, março 11, 2009

Uma atrás da outra

A Folha deu três importantes "furos de reportagem" seguidos, desses de deixar o eleitor definitivamente desanimado com o Congresso Nacional, pensando em mudar de país, ou de planeta.
Primeiro, foi a história do castelo não declarado e nem sequer justificado do deputado Edmar Moreira, que seria não apenas vice-presidente como corregedor da Câmara, veja só!
Depois, foi a do casarão também não declarado e não muito bem justificado do então diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, que entrou no Congresso como datilógrafo e sem concurso, mas fez toda essa fortuna, veja só!
Agora, os repórteres Adriano Ceolin e Andreza Matais informam que o Senado pagou pelo menos R$ 6,2 milhões em horas extras para seus funcionários em... janeiro, quando o Congresso está em recesso, veja só!
Pelo Siafi, que é o sistema de acompanhamento de gastos do governo, seria ainda mais: R$ 8 milhões.
Não bastasse a decisão de dar hora extra durante janeiro, quando não há sessões, votações, decisões, a hora extra do recesso parece ainda mais especial, porque teve um reajustezinho de 111%. O limite, segundo documentos que os repórteres conseguiram, foi de R$ 1.250,00 para R$ 2.641,93.
Isso tudo, castelo, casarão e "hora extra sem hora normal", está dando no quê? Em nada, ou melhor, em espuma. Meias soluções, meia poeira empurrada para debaixo do tapete. E a vida continua.
Edmar Moreira caiu do cavalo, da Vice-Presidência e da Corregedoria, mas continuou no castelo e no mandato. Agaciel renunciou à direção-geral, mas fica no Senado, aguardando uma gorda aposentaria em dois anos. E o presidente do Senado, José Sarney, diz que vai moralizar e manda os funcionários do seu próprio gabinete devolverem a grana, mas ninguém explica, nem justifica como foi tomada a decisão. Aliás, quem, como, onde e por quê?
É assim, com uma atrás da outra, que o descrédito do Congresso está chegando a um ponto insuportável.
Eliane Cantanhêde
Fonte: Folha online- 11/03/2009

sábado, novembro 15, 2008

Eliane Cantanhêde

15/10/2008
Golpe baixo

A campanha de São Paulo enveredou por caminhos surpreendentes -- e preocupantes.
Quando uma psicóloga e sexóloga como Marta Suplicy aceita e avaliza uma insinuação grosseira de homossexualismo contra seu opositor, entra-se numa guerra sem limites éticos, políticos, minimamente civilizados.
Logo ela, Marta, mulher que cresceu na política e se tornou nacionalmente conhecida justamente por defender causas nobres, como a igualdade e o respeito à liberdade de opção sexual. Logo ela, Marta, que tem um comportamento de vanguarda e, por isso, tem sido vítima de preconceito. Como alguém que sofre preconceito pode recorrer a preconceito contra um adversário político? É inaceitável.
Marta deu um exemplo de coragem pessoal e política ao se separar de uma figura admirada como o senador Eduardo Suplicy, já na condição de prefeita da principal capital do país. Foi educativo, uma mensagem clara de que aos políticos devem se cobrar decisões e resultados que visem o bem comum, não decisões de foro íntimo, decisões puramente pessoais.
Se Marta teve essa função educativa como prefeita, agora deseduca e confunde ao fazer justamente o oposto, cobrando de seu opositor, não compromissos e decisões que visem o bem comum, mas explicações sobre sua vida privada, íntima, que a ninguém interessa.
Foi um erro de campanha desses que custam caríssimo, porque o preço não vem apenas nas urnas, nos votos. O preço fica carimbado em biografias para sempre, não nas dos "estrategistas", mas na do candidato, ou da candidata. Campanhas passam, biografias ficam. Será que valeu a pena?
COMO REFLEXÃO: Ok que as maiores potências precisavam, efetivamente, socorrer os seus bancos para evitar um colapso financeiro planetário. Mas a pergunta que não quer calar é: e se essas mesmas potências despejassem os mesmos US$ 2,5 trilhões (mais do dobro do PIB anual do Brasil) em gente? Ou seja, em educação, saúde, saneamento, alimentação? O mundo talvez ficasse muito melhor, e dependendo muito menos dos bancos.

Fonte: folha online

Eliane Cantanhêde

22/10/2008
Caso de polícia, essa polícia

Lindemberg Alves Fernandes, 22, não tinha antecedentes criminais. Mas tinha um revólver, que usou a queima-roupa para matar a ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, com um tiro na cabeça e para acertar a amiga de ambos Nayara Rodrigues da Silva, com outro em pleno rosto.
Roberto Costa Jr., 28, era motorista da família Sendas e filho do motorista pessoal e funcionário de quase três décadas do empresário Arthur Antônio Sendas, 73. Costa Jr. também não tinha antecedentes criminais. Mas, como Lindemberg, tinha um revólver e não titubeou em matar o patrão dele e do pai com um tiro no rosto.
Daniel Pereira de Souza, 22, tinha sido detido por tráfico de drogas e andava armado. Desde que saiu da cadeia, três meses atrás, ele insistia que queria retomar o relacionamento com Camila Silva Araújo, 16, com quem tinha um filho de um ano e meio. Camila foi irredutível. Recebeu um tiro na cabeça e morreu.
Você não acha que foi tudo muito fácil? Lindemberg, Roberto e Daniel foram ali na esquina e compraram suas armas, entraram nas casas de suas vítimas e brincaram com a vida e a morte. Assim, determinarem o destino de famílias inteiras.
Um fator decisivo dessas tragédias é, evidentemente, o perfil frio e descontrolado dos três assassinos. Mas um outro, que não pode passar despercebido, é a facilidade com que qualquer um pode comprar armas neste país, a qualquer hora, por qualquer motivo, a qualquer preço. Ninguém sabe, ninguém viu.
Lindemberg, Roberto e Daniel, entre milhares de outros, são os assassinos que puxaram o gatilho. Mas ninguém pergunta pelos assassinos que lhes venderam as armas. Quem são? Onde estão? Quem serão suas próximas vítimas?
Esse é um típico caso de polícia. Mas com essa polícia que nós temos por aqui...

Fonte: folha online

Cometário do blog:

A articulista, a depeito da fazer uma análise correta numa pespectiva geral, simplifica nossa dram. Armas podem ser compradas, com relativa facilidade, em qualquer lugar do mundo. Nos EUA com a polícia mais eficiente do mundo, o aceso à armas é totalmente facilitado. Nosso drama não são os personagens trágicos por ela citados, é a incompetência crônica e genética da nossa organização policial. Os delitos acima não seriam cometidos se no inconsciente dos agressores houvesse o temor objetivo de que seriam punidos e que seus direitos seriam retirados. O termor da certeza da punição inibe ações, pensamentos e impétos criminósos.
A polícia que nões temos é desorganizada por natureza. Combate o crime dividida. Seleciona oferecendo salários mentirosos, e por isso seleciona`apenas os menos incompetentes, pois quem se preparou não tem qualquer estímulo para ingressar numa carreira que pode lhe tirar a vida sem qualquer recompensa.
Parafresando um certo demágogo, NUNCA ANTES NESTE PAÍS foi tão necessária a óbvia unificação das polícias como agora. Entretanto nada se discute, niguém quer mexer neste vespeiro.
Enquanto isso sigo perguntado, os avanços econômiocos alcançados e capitalizados pelo atual governo, na verdade não passam de consequência da estabilidade da economia desde 1994 ? o que permitiu que as pessoas pudessem planejar suas vidas.
Essa é a nossa realidade. A frouxidão moral que nos abateu desde o mensalão passou a idéia de tudo é permitido, de o jeitinho brasioliero é legítimo, que vale qualquer coisa para levar vantagem.
Pra que estudar, todos se acham merecedores de ganhos sociais e econômicos sem que haja qualquer alusão ao merecimento, a regra é "eu sou pobre, eu mereço".
O governo segue dizendo que as causas da criminalidade são sociais, culpando os pobres pelo crime, como se sendo pobre será um criminoso, ao mesmo tempo preconceituando e legitimando.
Ruy Otto

Eliane Cantanhêde

12/11/2008
O castigo não vem a cavalo

Primeiro, o socorro de trilhões de dólares e euros para os bancos. Agora, a corrida para salvar empresas pelo mundo afora.
O principal alvo são as montadoras de automóveis, que tiveram um boom lá fora e principalmente aqui dentro do Brasil e agora estão com muito estoque no pátio e um medão danado de não ter compradores na mesma proporção.
Quem abre os jornais se depara com uma enxurrada de anúncios de carros, desde as primeiras até as últimas páginas. Praticamente nenhuma editoria passa incólume. E, se no início a propaganda era em cima da qualidade do veículo, agora já é sobre as vantagens do financiamento. Juros zero!
Nos EUA, o republicano Bush e o democrata Obama desenham uma aliança para salvar as montadoras, especialmente a GM, que está mal das pernas --ou melhor, das rodas. Já se fala até --quem diria?!-- em estatizar parte das empresas. O castigo para a ganância do capitalismo sem freios, portanto, não vem a cavalo. Vem a mais de 100 km/h, sobre rodas.
Em São Paulo, o tucano José Serra e o petista Guido Mantega repetem democratas e republicanos e também "somam esforços", nas palavras do governador, para liberar uma linha de crédito de R$ 4 bilhões para financiar a compra de veículos de todo o país. É o mesmo valor que o governo federal botou na praça na semana passada para tentar segurar o efeito da crise financeira na chamada "vida real", ou seja, no setor produtivo, que é o que gera emprego, renda e voto.
Em Minas, Aécio Neves não corre atrás de Serra apenas pela indicação do PSDB para disputar a Presidência em 2010. No mesmo dia do paulista, a última terça-feira, o mineiro colocou R$ 470 milhões à disposição de empréstimos para as empresas, enquanto simultaneamente ampliava o prazo para pagamento de impostos. No alvo, também a construção civil, outro setor que pode desabar.
A crise começou com a inadimplência do setor de imóveis nos EUA, atingiu em cheio os bancos, varou fronteiras e está chegando à economia mundial. É aquela onde se situam as pessoas que produzem, comem, moram, vestem e criam seus filhos para a posteridade. E é aí, portanto, que mora todo o perigo.

Fonte: folha online

sexta-feira, agosto 03, 2007

Eliane Cantahede

01/08/2007
Várias falhas humanas

As gravações das caixas-pretas do Airbus-A320 da TAM confirmam uma combinação explosiva, fatal: pilotos mal treinados, equipamentos falhos, condições precárias da pista, companhias gananciosas e inação do fabricante para corrigir defeitos e normas que já tinham causado acidentes anteriormente. Mais uma vez, o desastre de Congonhas tinha de ter sido evitado, e 199 vidas poderiam ter sido salvas.
O importante "furo" jornalístico de Fernando Rodrigues na Folha de S. Paulo, hoje, com os dados do vôo e as vozes dos pilotos, é um alerta geral de que é preciso mais cuidado, mais eficiência, mais responsabilidade para lidar com aviação. Os aviões são equipamentos fantásticos e seguros. O defeito está nas pessoas que os comandam, que os produzem, que possuem _pilotos,fabricante, donos.
Os dados mostram que o reverso e os "spoilers" (freios aerodinâmmicos) não funcionaram. Nada funcionou. Em vez de desacelerar e parar, o avião continuou acelerando, desgovernado, como se pilotos, manetes e computadores fossem incapazes de se entender.
Como não é a primeira vez que um avião com reverso pinado, ou seja, travado, se acidenta, é fundamental que a Airbus reveja o que está acontecendo com esse equipamento e impedir que aviões possam continuar voando por até dez dias mesmo com um deles inoperante. Já estão confirmados pelo menos dois acidentes, um em Taiwan e outro nas Filipinas, mas já começam a surgir informações sobre outros, um nos EUA e outro no Canadá.
Além disso, a TAM jamais poderia permitir que um avião lotado (aliás, com um passageiro a mais), com tanque cheio, com reverso pinado, ou seja, travado, e com um dos pilotos ainda terminando sua fase de treinamento na companhia pudesse voar numa pista curta, de apenas 1.940 metros, sem área de escape -- e num dia de chuva! Pista curta e escorregadia é sinal amarelo, ainda mais com todas as condições desfavoráveis do próprio avião.
Tudo indica que houve falha humana no manuseio das manetes, que estavam na posição errada, mas para falar de "falha humana" é preciso falar das falhas humanas dos fabricantes, da dona do avião, dos responsáveis pela pista. Uma seqüência de falhas humanas.
Sem contar com um dado fundamental que ainda não está claro: se os computadores "enlouqueceram" porque os pilotos lhe enviaram comandos incompreensíveis ou se sofreram algum tipo de pane. Compete às autoridades aeronáuticas esclarecer. Amanhã haverá reunião delas, inclusive com representantes estrangeiros, para avançar ainda mais nesse ponto crucial.
As causas do acidente vêm se desenhando com uma rapidez fantástica, como se todos, brigadeiros, parlamentares, policiais e jornalistas tivéssemos aprendido enormemente com o choque do Legacy com o Boeing da Gol e tenhamos muito mais capacidade de descobrir e avaliar. Nunca é demais, porém, reforçar que acidentes aeronáuticos são muito complexos. Nunca se podem descartar o surgimento de novos fatores, até formar um conjunto pronto e acabado.
Questão de Justiça
Com a saída de Waldir Pires do Ministério da Defesa, agora querem transformar o presidente da Infraero, brigadeiro J. Carlos Pereira, no vilão número um da crise aérea. Injusto. A Infraero liberou a pista por orientação da reguladora, que é a Anac. Além disso, Pereira conhece o setor e tem sido fundamental para dar satisfações que a opinião pública exige. Enquanto outros se acovardam e calam, ela assume e explica.
Apesar de militar, tem tido mais compromisso com a transparência do que muitos que passaram décadas falando em democracia e agora se trancam mudos em palácios.

fonte:folha online

quarta-feira, março 21, 2007

Eliane Cantanhede

Nunca antes neste país

Estranha a rotina do governo Lula: desde a eleição, lá se vão quantos meses?, o presidente não conseguiu fechar a reforma ministerial nem acabar com o caos aéreo.Na reforma, o Planalto soprava que haveria "grandes nomes" para as principais pastas, mas os interinos foram formalizados numas, o PMDB acabou abocanhando cinco, Lula foi empurrando Marta Suplicy para um canto até acomodá-la no Turismo. Se havia grandes nomes, evaporaram. O grande símbolo da atual "reforma", assim mesmo entre aspas, ficou sendo o vexame do tal deputado Odílio Balbinotti, do PMDB do Paraná, que não resistiu a uns quatro ou cinco dias de reportagens sobre "laranjas" e otras cositas más nas suas empresas. Lula estava pronto para nomeá-lo sem ter a menor idéia de quem se tratava. Não viu, não sabia. E Balbinotti foi ministro sem ser.Agora, depois do vexame maior, a escalada de vexames diários, com uma lista de ministeriáveis do PMDB incapaz de passar pelo crivo da folha corrida. No fim, vai acabar dando na Agricultura o deputado Reynhold Stephanes, ex-ministro da Previdência, por exclusão. Parece ser o único de "ficha limpa".No caso do apagão, a toada é a mesma. Cai o Boeing da Gol, começa um empurra-empurra de culpas e culpados, vem a operação padrão dos controladores, sucedem-se os "apagões" e, na sequência, três panes seguidas no sistema: no rádio do Cindacta-1, de Brasília, depois no próprio sistema do Cindacta-4, de Curitiba, e agora de novo, no de Brasília.Com detalhes, digamos, estranhos: alguém aí já ouviu falar de queda de energia em aeroporto? Pois no domingo passado, simultaneamente à pane no Cindacta-1, o aeroporto de Brasília, um dos mais nevrálgicos do país, sofreu um blecaute. Não funcionavam fingers, esteiras de bagagem, banheiros, mostradores de partidas e chegadas de vôo. Durante horas!Outro detalhe estranho: jaboti não sobe em árvore, mas cachorro invade o aeroporto de Congonhas, instala-se sem cerimônia na pista e causa um pandemônio. Nada disso pode ser sério.E o que Lula faz? Desde outubro, a cada um desses apagões ou panes, ele se reúne com Dilma Rousseff, Waldir Pires, um general daqui, dois ou três brigadeiros dali, e a imprensa registra que o presidente está irritado e quer soluções. Quais? Não se sabe, não se viu.Os controladores são poucos, ganham menos do que deveriam e --o que é pior-- são mal preparados. Eles estão ansiosos, pressionando. E o governo não dá respostas nem para eles nem para nós, os usuários.O que era para ser exceção vira rotina: a reforma ministerial vira assunto e preocupação de todos os dias, durante meses, e o caos aéreo veio para ficar. Como diria Lula, "nunca antes se viu algo assim na história desse país".

Fonte: folha online 21.03.2007

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Eliane Cantanhede

20/12/2006
O suicídio do Congresso

A atual legislatura chega ao fim como começou: mesclando escândalos, impunidade e autoconcessão de benesses. Como diz o ditado, "pau que nasce torto..."O aumento de salários é não apenas escandaloso como um conjunto absurdamente inacreditável de erros, inclusive políticos, de avaliação: 1) o índice de 91% é acima de qualquer razoabilidade. 2) foi decidido pelas Mesas da Câmara e do Senado, sem passar pelo plenário. 3)veio combinado com a discussão sobre o salário mínimo, limitada ao corta-não-corta umas migalhas dos miseráveis. 4)e quando a classe média (que faz opinião pública) anda meio desconfiada e sofrendo os desconfortos da crise dos aeroportos nos feriados e no fim de ano.E, enfim, o aumento dos parlamentares veio num momento de enorme descrédito das instituições políticas, coroando quatro anos de mensalões e sanguessugas, em que o Congresso pagou todo o pato, e Lula foi reeleito com 60% dos votos. Ou seja: o Executivo passou incólume. O desgaste de fazer corresponde ao desgaste de terem de desfazer. O Congresso fez, a opinião pública se rebelou, o Supremo desfez, sob alegações menos morais e mais legais. O que acrescenta um novo erro da cúpula parlamentar: além de absurdo e escandaloso, o aumento foi uma ilegalidade cometida justamente por quem vota as leis --e em seu benefício. Estamos no limite do non-sense.Agora, a lambança se completa com o vota-não-vota o aumento no plenário, com o quando vota, com o fica em 20, fica em 18, fica em 16. E isso não muda nada, muito menos reduz o imenso desgaste.O atual Congresso acaba como começou, e o "novo Congresso" vem aí, sem Sigmaringa, sem Delfim, sem Paulo Delgado, sem Sérgio Miranda, sem Denise Frossard, sem José Thomaz Nonô, sem Greenhalgh, sem Jandira Fegalli... Mas com Clodovil e Maluf.Ou seja: as perspectivas não são exatamente alvissareiras. No mínimo, o Congresso tende a continuar igual. E sempre pode piorar.Mais importante do que o fato é o efeito. Enquanto Lula e seu governo passam ao largo de todos os escândalos e denúncias, o Congresso patina na lama. O resultado é que o cidadão está ficando enojado e cada vez mais irado, mas perdoa ou esquece o Executivo e se concentra no Legislativo, como fica evidente principalmente pelo mais novo e poderoso agente político: a internet. As ruas estão calmas, impassíveis. A internet está fervendo.O que se projeta nesse quadro é um fortalecimento do Poder Executivo, com um presidente que "pode tudo", e um esgarçamento do que resta do Poder Legislativo. Foi exatamente isso que ocorreu na Venezuela, na Bolívia, no Equador. Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa assumiram o poder com uma força popular extraordinária e a primeira coisa que fizeram foi fechar o Congresso na prática, dourando a pílula com a convocação de uma Constituinte. Equivale a dizer: jogando fora o que está "podre" e reinstalando a república com os seus e a seu jeito.Os motivos existem em profusão. As conseqüências é que são preocupantes.


Folha: folha online

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Eliane Catanhêde

06/12/2006
Reage, Lula!

A crise do tráfego aéreo e dos aeroportos deixou de ser um movimento de controladores de vôo, uma responsabilidade da Aeronáutica, um problema do Ministério da Defesa. Trata-se de uma questão de governo. E grave.Lula deve interromper suas conversas com PMDB, PSB, PC do B ou seja lá o que for e dar prioridade absoluta a essa crise, que afeta não só negócios, o trabalho e o conforto de milhares de cidadãos brasileiros às vésperas de Natal e Ano Novo como atinge em cheio a imagem do sistema brasileiro de aviação no mundo todo.O choque no ar entre o jato Legacy e o Boeing da Gol, em 29 de setembro, matando 154 pessoas, foi resultado de uma série de descuidos, falhas materiais e erros operacionais, mas acabou deixando não só a dor das famílias e uma comoção nacional como uma imensa ferida aberta no controle de tráfego aéreo.A imagem de excelência, no nível de Europa e Estados Unidos, ruiu de repente, tão de repente quanto o choque das asas do Legacy e do Boeing sobre os céus de Mato Grosso. Os operadores deflagraram uma operação-padrão, típica de movimentos sindicais civis, quando são em grande maioria militares. O governo se dividiu. O ministro da Defesa, Waldir Pires, tomou as dores dos manifestantes. A Aeronáutica decretou prontidão.Nisso tudo, Lula mais uma vez não viu, não sabia. A diferença é que, mesmo com a crise parando nas manchetes, continuou não vendo, não sabendo. Até o último lance: a pane de ontem, terça-feira, no sistema de rádio do Cindacta-1, o centro de controle de tráfego aéreo sediado em Brasília. Foi uma pane inédita, num sistema italiano que tem apenas seis anos de uso e é considerado dos mais modernos do mundo. E justamente num momento de crise e de insubordinação. Não é demais, convenhamos, admitir a hipótese de sabotagem. Aliás, não foi por outro motivo que a Aeronáutica chamou a Polícia Federal para participar das investigações.E como conviver com essa hipótese num sistema literalmente vital? Vital para as pessoas, para a aviação civil, para a economia e para a imagem externa do país?A situação é gravíssima. Sabemos todos o quanto o PMDB está sedento por poder e o quanto Lula está disposto a ceder. Mas devem esperar. Porque, como bumerangue, a crise vai mais cedo ou mais tarde bater direto na testa deles. Alguém tem que assumir a responsabilidade e dar um basta nesse caos.

Fonte: folha online

domingo, novembro 19, 2006

Eliane Cantanhêde

15/11/2006
Entre (e pós) atos

Quem fez o documentário Entreatos vai ter que refazer tudo. E quem viu vai ter que ver tudo de novo. Porque Lula mudou e todos os homens de Lula mudaram. Ou se mudaram.João Moreira Salles filmou Lula na campanha de 2002 com José Dirceu, Antonio Palocci, Luiz Gushiken, Duda Mendonça, o jornalista boa praça Ricardo Kotscho e com um personagem que me chamou muita atenção no filme: Gilberto Carvalho.Enquanto Dirceu parecia arredio, independente, e Palocci excessivamente prestativo, forçadamente íntimo, Gilberto Carvalho passou a sensação de ser, esse sim, muito próximo de Lula, leal e com aquela troca de olhares dos que convivem com uma real intimidade.Pois esses homens do presidente foram todos caindo, um a um, como castelo de cartas. Gushiken parecia o último deles, com sua boa entrevista à Folha no domingo e sua "carta-testamento" de segunda-feira. Pois não foi.Agora, também Gilberto Carvalho entra na fila dos que saem, ou, pelo menos, saem do Palácio do Planalto para um outro cargo qualquer no governo. Ele já pediu. Resta saber se Lula vai aceitar. Mas, cá pra nós, nunca vi alguém tão próximo anunciar pela imprensa que está saindo e depois acabar ficando. Bem, é só aguardar.É assim que o primeiro mandato vai se encerrando, com Lula deixando um rastro enorme de velhos companheiros pela estrada e entrando no segundo mandato com uma equipe novinha em folha. Há, portanto, a perspectiva de um "Entreatos" também novinho em folha.Para se imaginar quem vem por aí no novo documentário, seja como ministro, seja como candidato a ter influência, um bom caminho é ficar de olho na agenda de Lula, por onde vêm desfilando Delfim Neto, Luciano Coutinho, Jorge Viana, Jorge Gerdau, Blairo Maggi.Outra dica: não desprezar aqueles que ajudam Lula a compor bem o tabuleiro político-partidário no Congresso Nacional. Sarney, por exemplo, foi lulista todo o tempo, puxou o PMDB para a campanha da reeleição e não quer ser ministro, mas tem um forte candidato. Aliás, uma candidata -- a filha Roseana, que já foi cotada para uma coordenação política congressual lá pelo segundo ano do governo.E há aqueles nomes que aparecem sempre nessas horas, em qualquer governo. Como o de Nelson Jobim, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e ex-ministro da Justiça do governo FHC. Voltar à Justiça ele diz que não quer. Mas, depois da implosão implacável do "Entreatos", vaga importante é o que não falta.Desde que não seja a de Dilma Rousseff, porque essa está forte. E também não estava no "Entreatos".

Fonte: folha online

quarta-feira, novembro 01, 2006

Eliane Cantanhêde

01/11/2006
O desgaste do poder
O PT perdeu no segundo turno para o PSDB no Rio Grande do Sul, enquanto o PSDB perdeu para o PT no Pará. Esses dois exemplos opostos são um bom retrato e contêm boas lições das eleições de 2006:

1 - A polaridade entre PT e PSDB, nacional e nos Estados. No final das contas, o PT ganhou a reeleição para a Presidência com Lula e conquistou os governos de 5 Estados (Pará, Bahia, Sergipe, Piauí e Acre), mas o PSDB venceu, entre outros, em São Paulo e Minas e vai administrar 51% do PIB. Um bom equilíbrio.

2 - Rio Grande do Sul e Pará confirmam o quanto o poder desgasta. As campanhas políticas muito caras, a necessidade de base de apoio parlamentar, as alianças heterodoxas com antigos adversários, as imensas demandas estruturais e sociais combinadas à falta crônica de recursos. Não há santo que resista a muitos anos de poder. Muito menos políticos, por mais capazes e bem intencionados.

O PT gaúcho dominou a Prefeitura de Porto Alegre durante 16 anos e elegeu o governador do Estado em 1998, que se tornou forte reduto petista. Mas o partido perdeu a prefeitura em 2004 e tem a segunda derrota consecutiva para o governo (2002 e 2006).

O PSDB paraense mandou no Estado durante 12 anos, com os governadores Almir Gabriel e Simão Jatene. Gabriel tentou um terceiro mandato e perdeu. O povo cansou dos tucanos, com uma forcinha adicional: o senador Jader Barbalho, do PMDB, foi decisivo cabo eleitoral de Lula e do PT no Estado.

3 - Como curiosidade, nos dois casos as vencedoras são mulheres: a economista tucana Yeda Crusius no Rio Grande do Sul e a senadora petista Ana Júlia no Pará. A terceira eleita é Wilma de Faria, no Rio Grande do Norte.

4 - Um outro movimento nos dois Estados foi a renovação de quadros, que implicou derrotas surpreendentes do velho caciquismo brasileiro na Bahia e no Maranhão.

O grupo de ACM tinha quatro mandatos consecutivos no governo, a máquina, a mão forte e um bom candidato, o governador Paulo Souto, mas perdeu já no primeiro turno para o petista Jaques Wagner na Bahia.

E o grupo Sarney tinha as mesmas condições no Maranhão, mas Roseana, que foi uma governadora bem avaliada e disputava o terceiro mandato, acabou derrotada no segundo turno para Jackson Lago.

Sugere exaustão. Os eleitores cansaram das décadas de poder de ACM na Bahia e do eterno Sarney (40 anos de mando) no Maranhão.

5 - Agora, é torcer para que os novatos em administração Yeda Crusius, Ana Júlia e Jaques Wagner, além do ex-prefeito de São Luiz Jackson Lago (que tem 72 anos), façam um ótimo trabalho. E consigam mostrar que não só o país avança para além de suas oligarquias regionais como vale muito a pena renovar.

E torcer, claro, para que Lula tenha um bom novo governo, apesar da regra de que o segundo mandato é sempre mais difícil, mais desgastante e até mais cruel do que o primeiro.