Os jogadores do Santos, o técnico Muricy Ramalho e a maior parte da crônica esportiva aprenderam a lição errada, ao tomar a aula de futebol do Barça (mais uma) como o modelo a seguir.
Não que o Barça não deva ser imitado, em especial no cuidado que dedica a sua "cantera", como os espanhois chamam a escola de formação de jogadores. Mas o futebol que despertou tanta admiração no domingo não é alcançável pelos mortais comuns, porque só em parte é resultado de cuidar da base, incluindo nesse cuidado uma cultura de jogo admirável. Sim, o futebol que o Barça joga não é só tática, não é só filosofia, é uma cultura futebolística inculcada desde que meninos como Messi, por exemplo, aportam a La Masía, o centro de formação dos blaugrana (azul e grená).
Mas tudo isso só resulta em um futebol de outro planeta, para usar a expressão de Maurício Noriega (Sportv) durante a transmissão da partida, porque coincidiram no tempo três atletas absolutamente excepcionais, Messi, Xavi e Iniesta.
Ousaria até dizer que, se Messi é o engolidor de fogo, o trapezista, o palhaço, enfim o artista que monopoliza os aplausos no circo, Xavi é o pau de sustentação da lona do circo. Sem ele ou com ele jogando mal, o Barça continua sendo grande, mas não é de outro mundo. Prova-o o fato de que, na seleção argentina, que não conta com Xavi ou Iniesta, Messi tem sido um jogador acima da média, mas não o ser extraordinário do Barça.
Ora, "fabricar" três craques mais ou menos contemporâneos é virtualmente impossível. Eu sigo o Barça, fanaticamente, faz mais de 20 anos. Em todos esses anos, o cuidado com a "cantera" foi o mesmo, o time de fato tornou-se um grande no mundo todo, mas o seu futebol, mesmo nas melhores épocas, era deste planeta, não de qualquer outro.
Tornou-se o que se está vendo quando as três amadureceram e se encaixaram à perfeição, com o inestimável auxílio de Pep Guardiola, o técnico cujo grande mérito é o de não querer ser mais astro do que seus astros.
Tudo somado, a aula que os brasileiros têm a aprender não é comparar o Barça com o Santos. A comparação --e as lições decorrentes-- deveria ser com, por exemplo, Corinthians x Palmeiras e Roma x Napoli ou Valencia x Málaga, para ficar em apenas dois jogos de times intermediários deste fim de semana nos campeonatos italiano e espanhol.
Quem viu o clássico paulista sem olhos de torcedor apaixonado, ficou horrorizado com a mediocridade dos dois times. Chutões para qualquer lado, quantidade industrial de passes errados, faltas em penca, raros lances de perigo nas duas áreas. O contrário do que aconteceu nos dois jogos citados do italiano e do espanhol, que nem clássicos são.
Não nego que o Brasileirão foi muito mais emocionante do que o Espanhol, limitado a duas equipes, embora ambas espetaculares. Mas a qualidade que antes tínhamos mudou-se para a Europa, junto com nossos melhores jogadores. O que há a aprender não é, portanto, tratar de imitar o inimitável, mas fazer a lição de casa, o que o Santos começou a fazer ao segurar Neymar. Ou os nossos clubes voltam a se rechear de bons jogadores e meia dúzia de craques ou o melhor futebol brasileiro continuará disponível apenas nos torneios europeus com os emigrados da bola.
Ah, não adianta rechear os clubes com retornados tipo Adriano, Ronaldinho etc. Em vez de campeonato, vira cemitério dos elefantes.
CLOVIS ROSSI
fONTE: FOLHA ONLINE
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segunda-feira, dezembro 19, 2011
domingo, setembro 25, 2011
O mundo mudou, falta mudar o mundo, diz Dilma -21/09/2011-Clovis Rossi
O foco do discurso da presidente Dilma Rousseff foi direto e claro. Poderia ser resumido em uma frase: o mundo mudou, continua mudando mas a governança global não acompanhou essa mudança.
No âmbito político e institucional, a presidente reclamou, com razão, que faz 18 anos que se discute a reforma das Nações Unidas, sem que se tenha avançado.
Dilma foi clara: "O mundo precisa de um Conselho de Segurança que venha a refletir a realidade contemporânea; um Conselho que incorpore novos membros permanentes e não-permanentes, em especial representantes dos países em desenvolvimento".
A presidente deixou claro também que o Brasil está pronto para assumir seu papel como membro permanente.
No âmbito econômico-financeiro, vale o mesmo raciocínio. Disse a presidente que "mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados".
É uma evidente alusão ao fato de que nem o G20, o clubão das maiores economias de que o Brasil faz parte, nem o G7, o já superado grupo dos sete países mais ricos do mundo, nem a União Europeia --nenhuma instituição está conseguindo encontrar o que Dilma chamou de "soluções coletivas, rápidas e verdadeiras" para a crise em curso.
Ela pediu, como no caso do Conselho de Segurança, abrir a discussão, ao dizer que a crise "é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países. Seus governos e bancos centrais continuam com a responsabilidade maior na condução do processo, mas como todos os países sofrem as conseqüências da crise, todos têm o direito de participar das soluções".
A presidente tomou posição também clara no debate entre Estados Unidos e Europa, em que os EUA adotam e pregam políticas de estímulo para vencer a crise, enquanto a Europa coloca todo o foco na austeridade e nos ajustes fiscais. Foi, é verdade, sutil ao tomar o partido dos estímulos, na medida em que não citou a Europa. Mencionou apenas "uma parte do mundo [que] não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais apropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento. Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade".
O ponto fraco do discurso foi a ausência de uma tomada de posição mais firme contra as ditaduras sitiadas no mundo árabe. É um reflexo da cautela excessiva da diplomacia brasileira em se definir, por exemplo, no caso da Líbia. Só reconheceu o novo governo depois de que o mundo quase inteiro o fizera.
Na questão do momento, o Estado palestino, Dilma repetiu a posição de difícil equilibrismo que o Brasil tenta pôr de pé: defender o Estado palestino mas sem que seja afetada a segurança de Israel.
A posição faz todo o sentido, mas como levar a cabo ambas as coisas é uma equação não decifrada para cuja solução o discurso não contribui, o que é compreensível: ninguém até agora conseguiu a quadratura desse círculo.
CLOVIS ROSSI
Fonte: folha online
No âmbito político e institucional, a presidente reclamou, com razão, que faz 18 anos que se discute a reforma das Nações Unidas, sem que se tenha avançado.
Dilma foi clara: "O mundo precisa de um Conselho de Segurança que venha a refletir a realidade contemporânea; um Conselho que incorpore novos membros permanentes e não-permanentes, em especial representantes dos países em desenvolvimento".
A presidente deixou claro também que o Brasil está pronto para assumir seu papel como membro permanente.
No âmbito econômico-financeiro, vale o mesmo raciocínio. Disse a presidente que "mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados".
É uma evidente alusão ao fato de que nem o G20, o clubão das maiores economias de que o Brasil faz parte, nem o G7, o já superado grupo dos sete países mais ricos do mundo, nem a União Europeia --nenhuma instituição está conseguindo encontrar o que Dilma chamou de "soluções coletivas, rápidas e verdadeiras" para a crise em curso.
Ela pediu, como no caso do Conselho de Segurança, abrir a discussão, ao dizer que a crise "é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países. Seus governos e bancos centrais continuam com a responsabilidade maior na condução do processo, mas como todos os países sofrem as conseqüências da crise, todos têm o direito de participar das soluções".
A presidente tomou posição também clara no debate entre Estados Unidos e Europa, em que os EUA adotam e pregam políticas de estímulo para vencer a crise, enquanto a Europa coloca todo o foco na austeridade e nos ajustes fiscais. Foi, é verdade, sutil ao tomar o partido dos estímulos, na medida em que não citou a Europa. Mencionou apenas "uma parte do mundo [que] não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais apropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento. Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade".
O ponto fraco do discurso foi a ausência de uma tomada de posição mais firme contra as ditaduras sitiadas no mundo árabe. É um reflexo da cautela excessiva da diplomacia brasileira em se definir, por exemplo, no caso da Líbia. Só reconheceu o novo governo depois de que o mundo quase inteiro o fizera.
Na questão do momento, o Estado palestino, Dilma repetiu a posição de difícil equilibrismo que o Brasil tenta pôr de pé: defender o Estado palestino mas sem que seja afetada a segurança de Israel.
A posição faz todo o sentido, mas como levar a cabo ambas as coisas é uma equação não decifrada para cuja solução o discurso não contribui, o que é compreensível: ninguém até agora conseguiu a quadratura desse círculo.
CLOVIS ROSSI
Fonte: folha online
quarta-feira, março 02, 2011
Clóvis Rossi
O fantasma de Bin Laden
24/02/2011
No desespero por agarrar-se ao poder, o ditador líbio Muammar Gaddafi pôs na roda o fantasma de Bin Laden, culpando-o pela revolta em seu país. Bin Laden estaria colocando pílulas alucinógenas no café da manhã da juventude líbia, para levá-la a rebelar-se contra pais, mães, o próprio Gaddafi, o país.
É claro que se trata de pura loucura de um ditador delirante. Delira faz tempo aliás.
Mas o fantasma é igualmente invocado por personalidades de responsabilidade no mundo que de loucas nada tem, pelo menos que se note.
É o caso, por exemplo, de Franco Frattini, ministro italiano do Exterior, que, em depoimento ao Parlamento, na quarta-feira, disse que estava preocupado com a hipótese do surgimento de "um emirato islâmico" na Líbia oriental, incluindo a região cirenaica, que é o epicentro da rebelião.
"Emirato islâmico" é uma espécie de codinome para não usar a palavra Al Qaeda ou o nome do terrorista mais buscado do planeta.
É razoável imaginar a possibilidade de surgir, às portas da Europa, algo parecido com o que foi o Afeganistão na época dos talebans?
Minha primeira resposta é a mesma de Paul Kennedy, um dos historiadores mais celebrados do planeta e diretor de Estudos de Segurança Internacional da Universidade de Yale: "Realmente não sei o que pensar de tudo isso e qualquer um que acha que conhece de modo indiscutível o futuro do mundo é um charlatão".
De pleno acordo, Paul. Vale, inclusive, para as previsões sobre economia, no Brasil e no mundo.
Feita essa ressalva essencial, saio à busca de outras respostas, de pessoas que não se arrogam o direito de conhecer o futuro, mas estudam determinadas regiões e fazem suposições -- que é tudo o que se pode fazer nesta altura do campeonato.
Uma resposta mais ou menos consensual aponta para o fato de que a Líbia é completamente diferente do Egito. Não tem Forças Armadas com o porte e a experiência das egípcias, não tem uma sociedade civil mais ou menos organizada,, não tem partidos políticos. A rigor, não tem nem história longa, como lembra Elliott Abrams, pesquisador-sênior para Estudos do Oriente Médio do Council on Foreign Relations e ex-funcionário diplomático no governo George Walker Bush.
"Não houve realmente uma Líbia até, digamos, 1951, após a Segunda Guerra Mundial e a declaração de unidade do país pelo rei Idris" [deposto por Gaddafi há quase 42 anos].
Nesse vazio, tudo de fato pode acontecer.
Uma segunda característica líbia é o peso das tribos, sobre o qual, é bom ressalvar, há discordâncias entre os especialistas.
A propósito, o filho de Gaddafi, em seu discurso pela TV, disse que a Líbia não é o Egito e acrescentou: "A Líbia são tribos, clãs e alianças".
O clã Gaddaffi sempre confiou em sua tribo, a Qathathfa, pequena mas que forneceu parte das unidades militares que protegem o ditador.
Não há, de qualquer forma, uma avaliação sobre a penetração do islamismo nessas tribos, em especial na maior delas, a Wafalla, de 1 milhão de membros em um país de apenas 6,5 milhões de habitantes.
No geral, o mais extenso comentário sobre o islamismo radical na Líbia foi feito por Alia Brahimi, investigadora da London School of Economics, para o jornal "El País".
"O movimento islamita radical, que desafiou seriamente Gaddafi nos anos 90, foi esmagado pelo regime", diz ela.
Mas, acrescenta, "o regime tolerou seu trabalho social e, como resultado, a sociedade líbia se islamizou até certo ponto. Mas não creio que tenham uma massa crítica suficiente para que nos preocupemos agora", termina seu teorema.
Convém de todo modo lembrar que centenas de membros de organizações políticas e guerrilheiras islamitas, como o Grupo Islâmico Combatente Líbio, foram libertados nos últimos anos, em um esforço dito de "reconciliação nacional" do clã Gaddafi.
É um grupo mais presente no Oriente, exatamente o pedaço do país que já caiu nas mãos dos rebelados. Mas não é para confundir os rebeldes com os islamitas. "Ao contrário da revolta dos anos 90, que foi perpetrada pelos islamitas, a atual tem um respaldo social muito amplo", diz Brahimi.
Elliott Abrams, como ex-funcionário de um governo que lançou a chamada "guerra ao terror", teria todos os motivos para temer o radicalismo islâmico. Mas ele é o primeiro a dizer, em tele-entrevista coletiva organizada pelo Council on Foreign Relations, que não acha "que haja uma só tribo que se possa dizer que é vinculada a AlQaeda".
Qual a eventual alternativa para preencher o vazio deixado por Gaddafi? Para Abrams, há uma série de embaixadores, cuja competência ele atesta, mais tecnocratas, que poderiam formar a coluna vertebral de um governo de transição.
"O perigo - adverte - é haver dois ou três governos provisiórios, um em Bengasi [a cidade já controlada pelos rebeldes] e outros em Trípoli [a capital, ainda nas mãos de Gaddafi]".
Outro especialista também tem sua hipótese para preencher o vazio: uma coalizão de lideranças tribais, personalidades do Exército e "alguns indíviduos do regime mas de reputação limpa", diz Tim Niblock, professor de Política do Oriente Médio da Universidade britânica de Exeter.
Hipóteses otimistas mas que não convencem o historiador Paul Kennedy.
Escreve ele, sempre para "El País" :
"Que bonito seria pensar que o Oriente Médio poderia, sem grandes convulsões nem derramamento de sangue, mover-se para algo parecido ao Extremo Oriente, politicamente estável, abundantemente próspero. Esse dia poderia chegar, mas, se eu fosse jogador (e sou) apostaria claramente no contrário. A região árabe está mergulhada em um período de turbulências e o Ocidente talvez não escape de suas muitas e não planejadas consequências".
Termina em tom apocalíptico-cinematográfico: "Não pergunte por quem dobram os sinos, porque eles podem tocar por você".
Fonte: folha online
Clóvis Rossi
Democracia tem dono?
01/03/2011
É engraçado (ou triste, dependendo do gosto do freguês): os Estados Unidos e os países europeus ocidentais passaram a vida, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, dando sermões sobre a democracia, seus méritos e sua imperiosa necessidade, para o resto do planeta.
Bom, aí veio a onda de redemocratização na América Latina, nos anos 80. Em seguida, nos 90, na Europa Oriental e até na Rússia, ainda que o teor de democracia na Rússia seja no mínimo discutível.
Ficavam faltando, basicamente, países da Ásia, a África e o Oriente Médio praticamente inteiro, com a exceção de Israel, ainda que também aqui haja polêmica, mas não é o assunto de hoje.
Agora, por fim, países árabes começam a sentir os efeitos de uma gigantesca onda democrática, que já varreu duas ditaduras (Tunísia e Egito), sitiou outra (Líbia) e sopra também em vários países mais.
Logo, você aí, com raciocínio lógico, haverá de pensar que o Ocidente (EUA e Europa Ocidental para ser específico) estão felizes da vida, festejando e assumindo a paternidade da democracia, certo?
Sua lógica é lógica, mas é errada: o Ocidente foge com todo o vigor do patrocínio da democracia.
É o paradoxo, pelo menos em relação à Líbia, que ficou evidente em todas as intervenções na sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU e nas entrevistas coletivas concedidas pelos chanceleres das principais potências ocidentais.
"O Ocidente não tem todas as respostas", disparou, por exemplo, Hillary Clinton. É óbvio mas não é o que os Estados Unidos diziam ainda recentemente, no governo George Walker Bush, por exemplo. Chegaram até a anunciar a invasão do Iraque como exportação da democracia para o mundo árabe.
Reforça o ministro italiano Franco Frattini, até anteontem o maior aliado da Líbia de Gaddafi: "Não pretendemos ditar a mudança [na Líbia]. Queremos, ao contrário, que a democracia seja de total propriedade do povo líbio".
Frattini chega a falar em modelos de democracia, como se o Ocidente admitisse que pode haver mais de um e não apenas o que a esquerda de antigamente chamava de "democracia burguesa".
Não é difícil explicar esse receio de aparecer como donos da "nova Líbia", como a denominou Frattini ou de um eventual "novo Oriente Médio", como se especula que possa emergir da sequência de rebeliões em curso ou já semi-vitoriosas (semi, porque duas ditaduras caíram mas ainda não se estabeleceu a democracia).
Primeiro, há o fato de que o Ocidente adotou a teoria de que só havia duas hipóteses possíveis no Oriente Médio: ou as ditaduras amigas, como a do Egito, ou as ditaduras inimigas, caracterizadas por regimes fundamentalistas islâmicos, tipo Irã. É óbvio que a escolha sempre foi pelas ditaduras amigas.
As Revoltas fizeram ruir essa teoria. Agora, diz Hillary, houve uma convergência entre valores e interesses [dos países ocidentais]. Ficou demonstrado, sempre segundo ela, que "a democracia é mais estável, mais pacífica e, no fim das contas, mais próspera".
Segunda razão: ao atribuir a "propriedade" da mudança aos próprios árabes, o Ocidente coincide com o espírito de recuperação do orgulho árabe que marca as rebeliões. Não têm sido anti-ocidentais mas tampouco seguiram pautas ditadas pelo mundo rico. Não é um terreno fértil para novos sermões.
Fonte: folha online
domingo, junho 25, 2006
Clovis Rossi
A lenda da desigualdade menor
Clóvis Rossi
A queda da desigualdade no Brasil está se tornando verdade absoluta e incontrastável. Queda a conta-gotas, mas queda, de todo modo, a partir da introdução das bolsas-esmola, no governo Fernando Henrique, bastante aumentadas com Lula. Será mesmo verdade? Explico a dúvida: todas as informações sobre a queda na desigualdade provêm de uma única fonte, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios, do IBGE). Não desconfio dos pesquisadores, mas dos pesquisados -de alguns deles pelo menos. Pobre ou beneficiário das bolsas certamente dirá a verdade sobre sua renda. Mas não é preciso ser muito observador para saber que rico, ou quem ganha razoavelmente bem, terá dificuldades em ser franco (medo de seqüestro, de assalto, do fisco etc). Não é esse, no entanto, o ponto principal. O ponto é que, mesmo de boa-fé, quem tem renda financeira, além do salário, dificilmente se lembrará dela na hora em que o pesquisador perguntar quanto o pesquisado ganha. Avalie o seu próprio comportamento nessa situação: mesmo de boa-fé, será que, quando lhe perguntam a renda, lembra de dizer que, além do salário, ganhou uns trocadinhos com a poupança? Imagine então quem, além da poupança, tem investimentos financeiros mais rentáveis. É bom lembrar estimativas de Márcio Pochmann segundo as quais 20 mil famílias faturaram R$ 105 bilhões em 2005 graças aos juros obscenos que o governo paga, ao passo que os 8 milhões de beneficiários das bolsas-esmolas ficaram com apenas R$ 7 bilhões. Não é razoável pensar que, em vez de a desigualdade ter diminuído, aumentou a renda dos sem-renda, que a declaram, ao passo que a renda dos com-juros tende a ser em parte escamoteada?
Clóvis Rossi
A queda da desigualdade no Brasil está se tornando verdade absoluta e incontrastável. Queda a conta-gotas, mas queda, de todo modo, a partir da introdução das bolsas-esmola, no governo Fernando Henrique, bastante aumentadas com Lula. Será mesmo verdade? Explico a dúvida: todas as informações sobre a queda na desigualdade provêm de uma única fonte, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios, do IBGE). Não desconfio dos pesquisadores, mas dos pesquisados -de alguns deles pelo menos. Pobre ou beneficiário das bolsas certamente dirá a verdade sobre sua renda. Mas não é preciso ser muito observador para saber que rico, ou quem ganha razoavelmente bem, terá dificuldades em ser franco (medo de seqüestro, de assalto, do fisco etc). Não é esse, no entanto, o ponto principal. O ponto é que, mesmo de boa-fé, quem tem renda financeira, além do salário, dificilmente se lembrará dela na hora em que o pesquisador perguntar quanto o pesquisado ganha. Avalie o seu próprio comportamento nessa situação: mesmo de boa-fé, será que, quando lhe perguntam a renda, lembra de dizer que, além do salário, ganhou uns trocadinhos com a poupança? Imagine então quem, além da poupança, tem investimentos financeiros mais rentáveis. É bom lembrar estimativas de Márcio Pochmann segundo as quais 20 mil famílias faturaram R$ 105 bilhões em 2005 graças aos juros obscenos que o governo paga, ao passo que os 8 milhões de beneficiários das bolsas-esmolas ficaram com apenas R$ 7 bilhões. Não é razoável pensar que, em vez de a desigualdade ter diminuído, aumentou a renda dos sem-renda, que a declaram, ao passo que a renda dos com-juros tende a ser em parte escamoteada?
quarta-feira, junho 14, 2006
Clovis Rossi
QUANDO SE PERDE A ALMA...
CLÓVIS ROSSI - de PARIS.
Quando você chama Orestes Quércia de ladrão de carrinho de pipoca e depois pede e recebe o apoio dele;
Quando você passa a vida chamando Paulo Salim Maluf de tudo quanto é nome, e depois incorpora o partido dele à sua base de apoio no Congresso;
Quando você inferniza o governo José Sarney e toda a herança dele, inclusive a candidatura de sua filha à Presidência, e depois o transforma em um sábio conselheiro de seu governo;
Quando você diz o diabo de Antonio Carlos Magalhães e depois aceita o apoio dele;
Quando você ataca feroz e vigorosamente a política econômica do seu antecessor, e depois pratica política idêntica;
Quando você sataniza toda a sua vida o Fundo Monetário Internacional e depois aplica condições (não pedidas) ainda mais draconianas para o acordo com o ex-Satã;
Quando você passa a vida ensinando aos outros quais são as políticas sociais certas, e depois não consegue fazer a política social certa, a ponto de ter que demitir, em apenas um ano, dois dos responsáveis por elas;
Quando você se alia aos antigos inimigos e expulsa antigos companheiros cujo único crime foi o de continuar defendendo o que você defendia até a véspera;
Quando você faz campanha eleitoral prometendo mudança e inicia o discurso de posse com uma única palavra (exatamente "mudança") e depois muda muito pouco ou nada;
Quando você faz tudo isso, você rifou seus princípios, vendeu a sua história e tornou-se um ser amorfo, sem alma, sem projeto, a não ser o projeto de permanecer no poder; Enterra o orgulho pela história já vivida, porque não pode permitir que investiguem a sua nova história; Nem você mesmo sabe se existe ou não "conduta irregular" de um funcionário seu, como admite agora até o seu líder no Senado, Aloizio Mercadante;
Enfim, tem de jogar o jogo como quase todos jogaram antes de você. E fracassaram. Temo que seja tarde para voltar atrás e re-reescrever a história e que um filme velho e triste está sendo reencenado com novo elenco.
CLÓVIS ROSSI - de PARIS.
Quando você chama Orestes Quércia de ladrão de carrinho de pipoca e depois pede e recebe o apoio dele;
Quando você passa a vida chamando Paulo Salim Maluf de tudo quanto é nome, e depois incorpora o partido dele à sua base de apoio no Congresso;
Quando você inferniza o governo José Sarney e toda a herança dele, inclusive a candidatura de sua filha à Presidência, e depois o transforma em um sábio conselheiro de seu governo;
Quando você diz o diabo de Antonio Carlos Magalhães e depois aceita o apoio dele;
Quando você ataca feroz e vigorosamente a política econômica do seu antecessor, e depois pratica política idêntica;
Quando você sataniza toda a sua vida o Fundo Monetário Internacional e depois aplica condições (não pedidas) ainda mais draconianas para o acordo com o ex-Satã;
Quando você passa a vida ensinando aos outros quais são as políticas sociais certas, e depois não consegue fazer a política social certa, a ponto de ter que demitir, em apenas um ano, dois dos responsáveis por elas;
Quando você se alia aos antigos inimigos e expulsa antigos companheiros cujo único crime foi o de continuar defendendo o que você defendia até a véspera;
Quando você faz campanha eleitoral prometendo mudança e inicia o discurso de posse com uma única palavra (exatamente "mudança") e depois muda muito pouco ou nada;
Quando você faz tudo isso, você rifou seus princípios, vendeu a sua história e tornou-se um ser amorfo, sem alma, sem projeto, a não ser o projeto de permanecer no poder; Enterra o orgulho pela história já vivida, porque não pode permitir que investiguem a sua nova história; Nem você mesmo sabe se existe ou não "conduta irregular" de um funcionário seu, como admite agora até o seu líder no Senado, Aloizio Mercadante;
Enfim, tem de jogar o jogo como quase todos jogaram antes de você. E fracassaram. Temo que seja tarde para voltar atrás e re-reescrever a história e que um filme velho e triste está sendo reencenado com novo elenco.
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