sábado, setembro 17, 2011

Pão e circo, literalmente-16/09/2011

DE WASHINGTON, por Luciana Coelho

Esta não é minha primeira eleição nos EUA. Eu cobri Bush X Kerry, em 2004, e parecia que aquela campanha tão deprimente não seria superada. A do ano que vem, no entanto, pode mostrar que no fundo do poço existe um alçapão para descer mais um pouquinho.
Para começar, o debate político nos EUA, como comentaram leitores aqui, se estreitou. Muito. Culpa de Obama e culpa da oposição _da oposição porque está empenhada na bandeira única e inflexível de cortar programas sociais e impostos, e de Obama por ser um banana e se deixar levar. A instituição governo passou a ser demonizada, ao invés de ser discutida. Não se debate como modernizá-la, e sim como eliminá-la, o que me parece bastante bizarro em um país que se considera um dos berços da democracia moderna.
Mas o que me incomoda mais é a espetacularização da campanha _e isso porque faltam 14 meses para os americanos votarem. Para quem está aqui, salta aos olhos o contraste entre o desânimo do eleitor em geral (sim, a situação da economia e o desemprego aumentou o índice de depressão) e o bombardeio de discursos, comícios, debates e comerciais acalorados, sobretudo na TV.
O presidente parece mais preocupado em fazer campanha do que em governar, enquanto a oposição parece estrelar um reality show bizarro, no qual ganha mais quem apelar aos instintos mais grotescos do eleitor (a plateia aplaudindo o número de execuções no Texas foi algo surreal - nem para quem é a favor da pena de morte faria sentido apoiar um alto número de execuções, já que ele implicaria em um alto número de crimes; isso para não falar dos erros da Justiça).
Exemplos? É literalmente pão e circo.
A campanha de Obama está RIFANDO um jantar com Obama. Pensei e repensei em todos os políticos populistas da América Latina, juro que não consegui lembrar de movimento semelhante. Rifando. Você doa US$ 10 para ajudar na campanha, e aí eles sortearão 4 felizardos (ou não) que jantarão com o presidente em Chicago, Washington ou "onde ele estiver no dia".
No email que recebi da campanha (eu estou inscrita nos sites de todos os candidatos principais), o assessor diz: "O Presidente obviamente tem superpouco tempo para gastar com qualquer coisa relacionada à campanha. E é assim que ele escolheu gastá-lo, com conversas reais e profundas com pessoas como você." Ok, é válido ouvir o eleitor, mas isso não disfarça o fato de ser uma rifa. E sobre ter pouco tempo para gastar com campanha... Não parece. A sucessão de discursos que ele tem feito pelo país são um ato de governo tão válido quanto nossos políticos brasileiros comparecendo à inauguração de qualquer obra meia-boca em período eleitoral.
Já do outro lado... Eu havia comentado sobre a abertura do debate da última semana, que parecia de um reality show. Incrível os pré-candidatos se prestarem a isso. Agora achei o vídeo, quero postá-lo para vocês, com os devidos pedidos pela falta de legendas. Se alguém fizer questão da tradução, eu posto mais tarde. Ah sim, os colegas resolveram mandar Rick Perry para o paredão. O problema (para eles) é que o público parece querer salvá-lo.
Fonte: folha online

Nenhum comentário: