Nos dez anos de políticas fracassadas que se seguiram ao 11 de Setembro, os EUA não avançaram em nada na promoção da liberdade religiosa no mundo, uma causa polêmica que o ex-diplomata e historiador Thomas Farr diz ser preciso abraçar em nome da segurança nacional.
Farr, pesquisador do Berkley Center, em Washington, foi de 1999 a 2003 o primeiro diretor do escritório do Departamento de Estado americano para Liberdade Religiosa Internacional, que foi criado após aprovação de lei sobre o tema.
À Folha ele afirmou que o 11 de Setembro poderia não ter acontecido se a Arábia Saudita --origem de vários dos terroristas que participaram dos ataques-- permitisse a exposição de várias versões do islamismo e de outras formas de pensamento em pé de igualdade. "A liberdade religiosa tem que ser considerada uma medida profilática contra o terrorismo", disse.
Farr defende que religiosos devem ser tratados como qualquer outro grupo de interesses, com liberdade para discutir e fazer lobby por suas visões na esfera política --desde que respeitados limites relacionados a violência e coerção.
FOLHA - A Lei de Liberdade Religiosa Internacional (IRF) foi aprovada em 1998. Poderia ter sido usada de alguma forma para evitar o 11 de Setembro?
THOMAS FARR- Não por meio da lei em si, pois ela era muito nova e liberdade religiosa não é algo que pode ser imposto ou que se desenvolva rapidamente.
Mas é possível argumentar que Osama bin Laden teria tido menos motivação para partir para o terrorismo se tivesse crescido em uma Arábia Saudita com liberdade religiosa. Em vez de ter sido exposto exclusivamente ao wahhabismo e aos estudos de Sayyid Qutb [um dos pais do funtamentalismo islâmico moderno], ele teria tido também acesso a outras visões islâmicas mais moderadas, a visões não islâmicas, ao pensamento liberal e etc na mesma proporção. É isso que liberdade religiosa significa, igualdade sob a lei para todas as idéias e atores religiosos, dentro de limites. Bin Laden poderia ter se tornardo profundamente religioso, mas talvez sem o sentido de obrigação religiosa que comandava ataques.
Então podemos argumentar que liberdade religiosa é uma medida profilática contra o extremismo, a violência e o terrorismo de bases religiosas. A política americana não pode impor isso a ninguém. Mas pode encorajar os países que já veem o valor da liberdade religiosa a se aprofundarem nesse caminho.
O sr. defende que grupos religiosos devem ter a chance de expor e defender suas visões na esfera pública como qualquer outro grupo de interesses. Isso pode tirar violência de grupos mais extremistas e transforma-la em ação política?
Podemos ter visões religiosas e políticas violentas também. Mas em um ambiente aberto e democrático há limites à defesa de interesses. Não posso exigir que minha mulher seja queimada e enterrada comigo quando eu morrer em nome da religião, seria fundamentalmente antidemocrático. Há limites, em geral relacionados a violência e coerção. A questão é que ao receber ideias e grupos religiosos na esfera pública, tende-se a oferecer vantagens a aspectos menos radicais, mais democráticos e mais pró-direitos humanos, porque esses argumentos são bem sucedidos e angariam apoio fora do grupo religioso. É benéfico ter participação de grupos religiosos na política, inclusive com lobby.
Quais as consequência do 11 de Setembro para a visão da religião na política externa americana?
Inicialmente, houve um crescimento enorme da atenção ao tema. Antes, era comum considerar religião um assunto privado, difícil demais, e ela foi de certa forma "exilada". A atenção em si é positiva. O problema é que em vez de aumentar, em muitos lugares a liberdade religiosa diminuiu. Na China, por exemplo, passou o governo a acusar os uigures islâmicos do norte de terrorismo, de forma a oprimi-los. Pequim se aproveitou do fato de que uigures foram capturados lutando contra forças ocidentais no Afeganistão para incrementar uma política já existente de repressão.
Muitos islâmicos nos EUA afirmam que a perseguição religiosa aqui também aumentou, e com razão. Isso é incrível, porque essas pessoas são na verdade a maior razão pela qual não tivemos outro ataque aqui.
Tomamos o caminho inverso --em vez de promover liberdade religiosa, passamos a oprimi-la em nome da luta contra o terrorismo. E o resultado da opressão religiosa é justamente o extremismo.
Passados dez anos, as coisas melhoraram?
Não. As coisas não estão melhores, pois muito poucos membros do governo veem a promoção da liberdade religiosa como prevenção ao terrorismo. O argumento está começando a ser aceito, mas palavras não são suficientes, e não vemos ação. Há alguma defesa contra a perseguição religiosa, mas com fundamentos de direitos humanos. Isso não é negativo, mas não funciona como uma política em si.
Desde o 11 de Setembro os EUA teve governos de direita e de esquerda. Houve diferenças no tratamento da religião lá fora?
Todos os governos até agora fracassaram em promover liberdade religiosa. De certa forma, [o ex-presidente George W.] Bush foi uma decepção maior, pois ele tinha uma devoção pessoal à religião e falava do assunto constantemente.
[Mas] a direita rejeita grupos religiosos [islâmicos] porque teme que sejam terroristas ou porque querem favorecer a visão cristã, e a esquerda quer esvaziar completamente a política de qualquer visão religiosa porque argumenta que a questão é muito divisiva e pouco democrática.
Houve muito trabalho, há relatórios, há gente envolvida, mas não há nenhuma ação política como resultado desses governos.
A Primavera Árabe renovou a importância da liberdade religiosa de alguma forma?
O fato de que religião é importante está se tornando cada vez mais parte do diálogo sobre a Primavera Árabe. Inicialmente, julgaram o movimento no Egito secularista, partindo de jovens insatisfeitos mas desassociados da religião. Mas descartar o fator religioso foi uma besteira, como sempre é.
Sou otimista em relação ao Egito. Acho que o desenvolvimento da democracia vai impor limites à Irmandade Muçulmana, assim como a outros grupos mais liberais do que eles. Mas se os egípcios não levarem em conta a questão da religião no Estado da forma correta, vão fracassar. O mesmo pode ser dito sobre a Líbia, a Síria e todos os outros.
Parte da hesitação dos EUA na resposta inicial aos movimentos se deveu ao medo do fator religioso. Os EUA tendem a dizer que religião é assunto interno e não querem se envolver. Isso é absurdo.
Mas os outros governos também acham que é assunto interno e rejeitam envolvimento americano...
É claro que temos que ser cuidadosos quando outros países não querem nosso envolvimento. Mas acredito que podemos convencer os egípcios de que queremos estar envolvidos de forma positiva, ajudando a desenvolver os aspectos religiosos da sociedade civil. Todo país precisa disso para ser bem sucedido como democracia. Portanto, temos que superar a resistência ao envolvimento nos assuntos internos dos outros com o argumento de que é do interesse de seu governo e de seus atores políticos contar com nossa ajuda. Os egípcios costumam receber US$ 2 bilhões por ano dos EUA, e não consideram isso uma interferência indevida. Só temos que distribuir esse montante com mais sabedoria.
Fonte: folha online
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário