terça-feira, setembro 13, 2011

Cinco mitos sobre o 11/09-05/09/2011

WASHINGTON - Todos nós lembramos onde estávamos em 11 de setembro de 2001 quando a al-Qaeda lançou seus terríveis ataques sobre os Estados Unidos. Na década desde então, nem um monte de comissões, livros, filmes e reportagens foi capaz de encerrar equívocos sobre o que o 11/09 significou, a resposta dos EUA e a natureza da contínua ameaça. Como o aniversário se aproxima, vamos enfrentar alguns dos mitos mais persistentes.
1 - O 11 de Setembro era inimaginável

Em 2002, a Casa Branca descreveu o 11/09 como um "novo tipo de ataque que não foi previsto. Um compreensível resposta ao ser pego de surpresa, talvez - mas o ato é que a possibilidade de aviões seqüestrados colidirem com prédios não era nem inimaginável, nem não imaginada. A ideia data de pelo menos 1972, quando seqüestradores, durante um incidente doméstico, balearam o copiloto de um voo da Southern Airways e ameaçaram lançar o avião contra uma instalação nuclear em Oak Ridge, no Tennessee.
Depois da explosão no World Trade Center em 1993, uma equipe de consultores (eu inclusive) contratada pelo centro para explorar futuras ameaças ao local indentificou um avião colidindo com uma das torres como um cenário possível. Em 1994, seqüestradores de um jato da Air France teriam considerado lançar a aeronave contra a Torre Eiffel. E um plano terrorista descoberto em 1995 envolvendo Ramzi Youssef, um dos mentores do ataque ao World Trade Center em 1993, e Khalid Sheik Mohammed, o auto-descrito arquiteto do 11/09, pensaram em lançar um avião carregado de explosivos na sede da CIA. No entanto, os ataque de 11/09 transformaram nossas percepções sobre plausibilidade. Cenários terroristas considerados absurdos até 11 de setembro de 2001 se tornaram presumíveis um dia depois; mesmo uma chance de 1% de algo acontecer era motivo suficiente para levar a possibilidade a sério. Esse ambiente sem ceticismo multiplicou os medos públicos e os gastos com segurança. Enquanto isso, terroristas realizaram mais ataques previsíveis de baixa tecnologia em trens de passageiros e metrôs.
2 - Os ataques foram um êxito estratégico da al-Qaeda

Um ataque audacioso e sem precedentes, o 11/09 certamente foi um êxito tático. Mas foi também um erro de cálculo estratégico.
Aos olhos de Osama bin Laden, os Estados Unidos eram uma potência vazia. Apesar da aparente força militar da nação, na sua visão, os americanos não tinham estômago para derrotas, e um ataque terrorista devastador no território dos EUA levaria os americanos a saírem do Oriente Médio. Em sua fatwa de 1996 declarando guerra aos EUA, Bin Laden mencionou que os EUA retirou suas forças do Líbano depois do ataque de 1983 ao quartel da Marinha em Beirute. E em 1993, após 18 soldados terem sido mortos em um único dia em Mogadíscio num ataque pelo qual a al-Qaeda reivindicou crédito, os Estados Unidos apressadamente saíram da Somália.
Muitos dos comandantes da al-Qaeda descordaram, prevendo que um raivoso país concentraria sua fúria no grupo terrorista e em seus aliados, mas Bin Laden seguiu adiante. Quando os EUA fizeram exatamente o que os outros temiam, Bin Laden mudou o disco, afirmando que ele sempre teve a intenção de provocar os EUA a entrar em uma guerra que galvanizaria todo o Islã contra ela. Isso também não aconteceu.
3 -Washington exagerou na reação

Na década depois do 11 de Setembro, os EUA foram alvo de muito menos ataques terroristas do que qualquer década voltando até os anos 60 - tornando fácil agora ver o 11/09 como um golpe de sorte dos terroristas e a resposta americana como excessiva.
Naquele momento, porém, ninguém sabia quantos outros ataques estavam a caminho. Uma ação imediata era necessária para destruir a iniciativa terrorista responsável pelo 11/09; nenhum governo, republicano ou democrata, poderia ter esperado para ver se os ataque foram uma anomalia. Isso significava melhorar a inteligência, fortalecer a segurança em casa e usando a força militar no exterior - única maneira pela qual os EUA poderiam rapidamente destruir os campos de treinamento da al-Qaeda e interromper planos futuros.
A invasão do Iraque pelos EUA não foi, a rigor, uma reação exagerada ao 11/09. A guerra do Iraque foi uma decisão estratégica do governo Bush de tirar um governo hostil e uma possível ameaça. O fato de que a invasão foi retratada como parte da guerra global ao terrorismo - em um esforço para ganhar apoio político doméstico - não a faz ser isso. Na realidade, a guerra foi um enorme desvio de recursos para os EUA e um incentivo para o recrutamento da al-Qaeda.
4 - Um ataque terrorista nuclear é quase inevitável

Pouco depois dos ataques de 11 de setembro, uma fonte da CIA chamada de Dragonfire disse que terroristas da al-Qaeda tinham contrabandeado armas nucleares para Nova York. A fonte terminou se mostrando enganada, mas nas sombras do 11/09 a capacidade nuclear da al-Qaeda se tornou uma obsessão. Apesar da demonstração da Coreia do Norte de que possuia armas nucleares e do suposto programa de armas nucleares do Irã, em 2008 o então diretor da CIA Michael Hayden identificou a al-Qaeda como a "preocupação nuclear número 1" da agência.
Embora todo mundo concorde que os líderes da al-Qaeda têm aspirações militares, não há evidências de que a organização tenha tido alguma vez qualquer capacidade nuclear. O medo fez da al-Qaeda a maior potência nuclear terrorista, mesmo sem que ela possua sequer uma ogiva. É uma lição sobre como o terrorismo funciona.
5 - As liberdades civis nos EUA foram dizimadas após os ataques

Defensores das liberdades civis temeram, compreensivamente, que o 11/09 levasse a restrições típicas de Estados-policiais sobre as liberdades individuais nos EUA. Ao contrário, a Constituição foi respeitada já que o governo soube traçar um caminho intermediário.
A detenção preventiva de suspeitos de terrorismo, procedimento comum em vários países democráticos, foi rejeitada. O governo prendeu Jose Padilla, um cidadão americano e membro da al-Qaeda, como "combatente inimigo", mas esse caso terminou sendo levado aos tribunais. E esforços domésticos de inteligência foram aprimorados, mas o Congresso rejeitou a ideia de um serviço doméstico de inteligência separado - um MI5 americano.
Ainda assim, autoridades nacionais foram empurrados para a ação preventiva contra o terrorismo em vez de uma abordagem tradicional de aplicação da lei. Às autoridades federais foi garantida maior discrição na abertura de casos relacionados a terrorismo, e o FBI deu início a milhares de investigações. Não é surpreendente que apenas um pequeno percentual tenha resultado em processos. Os ataques de 11/09 levaram sim a uma expansão da autoridade do Executivo, mais notadamente ao passar por cima de procedimentos estabelecidos em 1978 para assegurar que o monitoramento eletrônico fosse autorizado judicialmente. O Congresso em 2008 restaurou a vigilância judicial, mas não de forma tão poderosa quanto antes.
Onde os valores americanos não prevaleceram foi no tratamento de combatentes estrangeiros e suspeitos detidos no exterior que foram mantidos em prisões secretas, mandados para países onde enfrentaram a tortura ou, em alguns casos, submetidos a interrogatórios coercivos equivalentes a tortura nas mãos de americanos.
* Brian Michael Jenkins é assessor do presidente da Rand Corporation e co-editor do livro "The Long Shadow of 9/11: America's Response to Terrorism" e escreveu este artigo para o Washington Post
Fonte: oglobo online

Nenhum comentário: