segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Reinaldo Azevedo

NOSSO ESTIGMA É A ESTUPIDEZ

Há petralhas afirmando que não combater a Suíça no episódio da brasileira supostamente atacada é coisa de quem tem “complexo de vira-lata”. A expressão foi cunhada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues: “Por 'complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Ou ainda: “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima”.
Huuummm. Há coisa mais vira-lata do que fingir-se de pit bull diante dos suíços mesmo quando faltam motivos para isso? Mesmo que tudo tivesse se dado conforme o relato de Paula Oliveira, as generalizações e acusações do governo brasileiro e de alguns jornalistas contra o governo e o povo da Suíça seriam a mais escancarada prova de baixa auto-estima. Foi o sentimento de inferioridade, do escravo permanentemente molestado pelo senhor, que motivou as reações destrambelhadas. No caderno Mais do Estadão deste domingo, escreve Flávia Piovesan:
“Violentada por um grupo de skinheads ou suspeita de autoflagelação, a advogada brasileira Paula Oliveira despiu-se parcialmente diante do fotógrafo da polícia suíça para exibir uma coleção arrepiante de cortes superficiais sobre o corpo. A cena se passou num distrito próximo de Zurique, na noite de segunda-feira. Numa das imagens, viam-se iniciais do partido de ultradireita SVP, Partido do Povo Suíço, ‘gravadas’ nas pernas da jovem, como se fossem, a um só tempo, insígnia e estigma. O SVP, como se sabe, é um notório defensor de políticas anti-imigratórias.”
Flávia tem um currículo robusto: é professora de Direito da PUC/SP, da PUC/PR e da Universidade Pablo de Olavide (Sevilha), procuradora do Estado de São Paulo e membro do Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. A palavra “estigma”, pesquisem, tem sentido religioso. Paula foi transformada numa espécie de mártir de uma causa. É o São Francisco ou a Catarina de Sena da imigração. Nessa perspectiva, pouco importa se o seu relato é falso ou verdadeiro. O que interessa é a causa. O complexo de vira-lata precisa dessa dor.
Qual foi mesmo a justificativa política central do governo brasileiro para conceder refúgio ao terrorista italiano Cesare Battisti? Seria um ato de “soberania nacional”. O governo do Brasil se considera “soberano” para se comportar como corte revisora da Justiça italiana, para duvidar do estado de direito vigentes naquele país e para tecer comentários desairosos sobre uma fase terrível de sua história, que foi vencido nos marcos da democracia.
Ou se rosna inutilmente para o governo democrático de um país rico (diante dos pobres, o lulismo enfia o rabo entre as pernas) ou se exibe as supostas chagas que o Primeiro Mundo grava na pele do Terceiro. Em qualquer dos casos, é um caso de baixa auto-estima: OU SOMOS INJUSTOS OU SOMOS INJUSTIÇADOS. RECUSAMOS SOLENEMENTE O PAPEL DE JUÍZES PONDERADOS. QUEREMOS SER CAVALCANTES OU CAVALGADOS. NEGAMO-NOS A ANDAR SOBRE DUAS PATAS!

Fonte: Blog do Reinaldo Azevedo ( Veja online)

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