terça-feira, abril 18, 2006

Um Poema para Lula

A Morte Absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança duma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos (1940)

Comentário do Blog:
Dedico este poema à Lulalau e tudo que ele representa hoje. Lamento a minha tristeza, como lamento que a aventura pessoal do canalha se transformou na nossa tragédia coletiva.
A Tragédia de uma nação (povo com identida cultural).
Ética e caráter passaram a ter importância e significados voláteis, sem sentido, sem sentimento.
Perdeu-se a noção que valores morais, sejam quais forem, só são reais, concretos e até mesmo palpáveis, quando sínceros transbordo de sentimentos. Frutos do sentir coletivo, da percepção do toque de cada um nessa manifestação sensorial.
Nós aprendemos a não roubar, não matar, nem ser como lula, menos pelas palavras que nossos pais nos dizem, e mas pelo sentimento de aversão à esses atos, manifestado sinceramente pelos´heróicos homens e mulheres abnegados na criação e formação de outros homens e mulheres.

É o sentir da celula familiar. O sentir coletivo que nos tornará mais ou menos tolerantes e até coniventes com faltas e falhas de caráter. Não as nossas, mas as dos outros.
Estamos tão embrionariamente atrofiados na formação moral coletiva, que nos contentamos em sermos individualmente corretos e dignos sozinhos, como quem diz: "Eu sou honesto.Logo sou melhor que os outros".
Como se não tivessemos nada com os outros.
Sem compreender que os outros somos nós.

Ruy Otto, 18.04.2006
Quando voçê relativiza

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