quarta-feira, abril 19, 2006

Trecho do artigo de Lilana Pinheiro no primeira leitura

Sobrevivência que depende da desordem
Por Liliana Pinheiro

O governo Lula e o PT para tudo têm uma saída tão primária quanto perigosa para as instituições. Mas nenhuma impensada. Já faz tempo, muita gente desconfia que apostar na confusão se tornou tática de sobrevivência de um grupo que, à luz da ordem, já teria fenecido do ponto de vista político.
Reinventar o “decurso de prazo” dos tempos do regime militar para garantir a aprovação do Orçamento a partir de 2007 foi só a mais nova contribuição a um ambiente em que os grandes temas foram relegados à segunda ordem, e toda a energia é despendida para restabelecer a lógica nossa de cada dia. Sobre o truque da próxima LDO, a edição de hoje traz texto do editor Renato Andrade.
Vamos adiante. A cada discurso do presidente Lula, políticos e analistas correm a colocar os pingos no is: há que se esclarecer que tal passagem não faz sentido, que outra resvala para o populismo, que uma terceira representa risco de desordem institucional e que certo trecho, que poderia sugerir um modo espontâneo de tratar das coisas do Estado, significa deslavada forma de enganar o eleitor. Findo o dia, todos estão contentes com o dever cumprido; eis que cada disparate foi catalogado e guardado no devido lugar.

(...) Nesse ponto, alguém grita que há a direita e há a esquerda, e os bobalhões de ambas as cartilhas se engalfinham trocando os impropérios de sempre. Enquanto isso, o Banco Central autônomo calcula a espessura do colchão da balbúrdia para avaliar se há espaço para ser conservador ou ultraconservador, ambos figurinos excelentes para circular pelo mundo a distribuir poses e idéias cautelosas que valem pelos melhores currículos nos tempos que correm.

O presidente Lula, é claro, é o que mais usufrui do conforto de tantas camadas da baderna política que ele próprio e seu grupo mais próximo criam a partir do Planalto. Vai bem nas pesquisas eleitorais, por exemplo. O PT, de seu lado, vive em estado de emergência, a produzir neblina para encobrir a si mesmo, de tal sorte que não dá conta do dever básico de submeter seus erros e ex-dirigentes ao crivo do próprio estatuto e dos filiados. Segue como agremiação relativamente competitiva, ainda que seja uma sombra do que foi em 2002 e 2004, agora se equilibrando no limite da legalidade e medindo os passos para não precipitar um destino óbvio.

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