terça-feira, abril 18, 2006

Artigo de Fernando Gabeira

Uma visão da pesquisa

Saiu mais uma pesquisa Datafolha e a esta altura, já lemos inúmeras interpretações. Desde o peso de Alkimin que não consegue decolar até a suposta blindagem de Lula, quase tudo já foi dito.
Fernando Henrique Cardoso diz que os eleitores ainda não vinculam Lula à corrupção, daí a preferência nacional. Roberto Freire chama a atenção para uma incongruência: 70 por cento associa o governo com a corrupção mas a maioria desses eleitores, cerca de 40 por cento, votará em Lula, assim mesmo.
Tanto da entrevista de Fernando Henrique como da Roberto Freire deduz-se que a tática é bater nessa incongruência, fazendo com que os eleitores que admitem a existência de corrupção no governo, desistam de votar em Lula.
Minha visão é outra. Daí a necessidade de colocá-la sobre a mesa. A maioria dos eleitores sabe que houve corrupção e vota em Lula porque considera, a partir do fracasso ético do PT, que todos as forças políticas se equivalem. Nesse contexto, a existência ou não de corrupção não é o traço distintivo do governo. Já que todos tendem para a corrupção, vamos escolher aquele que nos dá mais benefícios, amplia a Bolsa Família e também pensa nos pobres, apesar de seus desvios éticos.
Nessa minha interpretação, constato que o PT não apenas traiu a esperança de mudanças éticas. Ele as tornou supérfluas, a ponto de não decidirem mais o rumo das eleições. Isto cria uma grande dificuldade para a esquerda democrática, tão pobre de votos, coitadinha.
Será que vale a pena dizer que PT e PSDB se corromperam e é hora de votar em gente que nunca se meteu em corrupção? A primeira pergunta sensata do eleitor será esta: quem me garante que vocês seriam diferentes; o discurso do PT, antes de chegar ao poder, era o mesmo.
Por isso que proponho uma tática comum aos pequenos partidos. Não uma tática que aponte novos salvadores da moral, pois eles seriam desacreditados. A tática seria a de concentrar não apenas na mudança das pessoas, mas na mudança das regras do jogo. Temos de propor normas claras para evitar a ocupação partidária da máquina do estado; temos de combater a propaganda de governo, que deveria se reduzir apenas às campanhas de utilidade pública. Se o PT se lambuzou com verbas publicitárias e o PSDB também está sendo acusado da mesma coisa, resta-nos não prometer pureza mas admitir que essas tentações têm de ser retiradas da cena, pois enquanto existirem a chance de corrupção é muito alta. Temos de apresentar nossas contas na internet, abrir nosso voto para que ele também seja transparente. Enfim, será preciso forçar os dois candidatos mais fortes a assumirem compromissos não de serem virtuosos mas de aceitarem as regras que limitarão seus desvios éticos.
Diferentes interpretações da pesquisa, conduzem a diferentes táticas. Espero que nossos companheiros da esquerda democrática, embalados nos seus 1 por cento de preferência, compreendam a necessidade de união em torno de um programa, sem prejuízo de suas aventuras individuais.
O povo brasileiro não confiará tão cedo nos políticos. Vamos tentar fazê-lo acreditar pelo menos em novas regras do jogo, admitindo, implicitamente, que não há muito o que esperar das pessoas, logo é necessário reforçar o controle sobre elas, quando se instalam no poder.

Uma nova tática

Quem questionar os benefícios sociais apenas, tende a se isolar dos setores mais pobres. A grande dificuldade é a de, mantendo-se os benefícios sociais, convencer as pessoas sobre a importância do crescimento econômico. O crescimento com abertura de empregos não é uma alternativa ainda para os benefícios sociais. Mas pode vir a ser no futuro.
Lembro-me da quebra do monopólio nas telecomunicações. O governo Fernando Henrique não defendia a quebra como uma forma de redistribuição de renda. E ela acabou, conforme anunciávamos, sendo exatamente isto: uma grande oportunidade complementar para aqueles que tentam sobreviver no mercado de trabalho, formal ou informal.
É preciso esclarecer o tipo de crescimento que desejamos. O nível de crescimento do Peru foi quase três vezes superior ao do Brasil. No entanto, a popularidade de Toledo é três vezes menor do que a de Lula. Não houve a preocupação de articular crescimento com benefícios sociais. Toledo fez o mais difícil e acabou morrendo na praia, porque foi insensível à demanda imediata dos peruanos pobres.
Não vejo grandes caminhos para o setor que está fora das duas grandes coligações que disputam a presidência. No entanto, se usar o espaço para fixar um programa, pode estar criando as bases para um sólido trabalho de oposição, no período 2007-2011.
Vamos cair na real? Ou será que minha visão de real está ainda muito fora do real?

Fonte:www.gabeira.com.br

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